gafieiras

gafieiras

Entrevistas de música brasileira

Mauricio Pereira

Cantor e compositor Mauricio Pereira. Foto: Dafne Sampaio/Gafieiras

Mauricio Pereira

parte 1/19

Os Mulheres podiam ter vendido 50 mil de cada álbum

Flávio Monteiro – Sobre os relançamentos do Mergulhar na surpresa e dos dois álbuns dos Mulheres Negras, mudou alguma coisa em relação aos originais?
Mauricio Pereira – Não, são igualzinhos. Deixa eu ver… Sobre o Mergulhar, depois até pensei, tinha um material pirata que eu poderia ter posto lá, mas eu fiz os discos para durarem. São discos que funcionam sem bônus, sabe como é que é? Mesmo nos dos Mulheres, o primeiro tem um remix do “Sub” e o outro não tem nada.
Monteiro – Você tem mania de registrar shows? Ou não tem dessas coisas?
Pereira – Cara, não registro nada nunca. Aquele negócio do Supremo [n.e. Temporada realizada em 2000 ao lado do pianista Daniel Szafran e convidados interpretando obras de outros compositores], a Eliana e o Szafran registraram. Piano e voz sempre ou o Szafran registrou ou os produtores que estavam comigo. Por mim não registrava nada.
Max Eluard – Mas por quê?
Pereira – Um pouco é preguiça, não gosto de ouvir, embora eu reconheça que tem preciosidades que só estão lá. O Szafran me deu CDs e mais CDs de canjas do lançamento do Mergulhar, com o Skowa, André Magalhães, Guello, Paulinho Freire. O Szafran gravou Mergulhar na surpresa ao vivo naquele teatro em Ouro Preto, em 8 canais. Foi um dos melhores shows que fizemos. Teoricamente é um disco. Tem coisas que nunca gravei, mas não tenho o hábito. Um pouco é romantismo, um pouco é preguiça, um outro pouco pode ser burrice, sem saco de registrar, como se eu falasse, quem viu, viu. O problema é que como pouca gente vê, ninguém viu. [risos gerais] Então talvez seja um tipo de burrice romântica.
Max Eluard – Então vamos entrar no relançamento do Mergulhar. Ele tem uma história?
Pereira – Depois dos Mulheres Negras, os discos que fiz são independentes, sou o dono deles. Para lançá-los ou banco do meu bolso, ou licencio para um selo por três anos, geralmente. O Na tradição banquei duas edições, depois licenciei para a Tinitus. Venceu. O Mergulhar já licenciei direto para a Atração. Acabou tudo, vendeu, venceu o licenciamento, então agora estou licenciando para a Lua. O lance com a Lua surgiu quando eu estava fazendo show no Supremo em 2000, era um show cantando coisas dos outros. O Zé Rodrix foi ver, gravou o show e levou para a Lua. Ele é amigo do Thomas Roth. E aí pintou essa aproximação com a Lua, que vai render discos novos e o relançamento dos antigos. Provavelmente, se tudo correr bem com o Mergulhar, em 2002 será relançado Na tradição. Foi uma afinidade. Eles estão fazendo um trabalho decente e respeitam o meu trabalho. Então, vamos nós.
Max Eluard – Mergulhar na surpresa é de 1998. Como que você o vê hoje, Maurício? Você acha que ele envelheceu?
Pereira – Não envelheceu, não envelheceu. É um disco que eu poderia estar fazendo agora. O mais difícil, mas é uma coisa que em meia hora eu faço, é você sentar, se concentrar e entrar no espírito dele. Porque ele é atual para quem vai ouvir, e é atual para eu cantar, mas hoje eu canto essas músicas de um modo diferente, mas a concepção do disco, a poesia e a filosofia estão intactas. É como se o disco tivesse saído ontem. É só eu sentar, respirar fundo e mandar ver. Esse disco está bem vivo.
Monteiro – Você falou que a Lua respeita seu trabalho. Você já teve experiência em uma major, numa fase em que a Warner tinha uma porção de bandas e talvez fosse a gravadora mais forte em grupos nacionais. O que você tirou de lições com a major? O que ficou de bom e o que ficou de ruim? Como é que foi esse relacionamento?
Pereira – Bom, deixar eu pensar. Dentro da major Os Mulheres Negras eram uma banda alternativa. Então o tratamento era diferente. Se eu fosse falar pejorativamente, era um tratamento de segunda, mas não era. Na major quanto mais você vende, mais você tem atenção. Ficar meio de escanteio numa major tem um lado bom e um lado ruim. O lado ruim é que os caras não te divulgam e não te distribuem direito. O lado bom é que você tem uma liberdade para trabalhar e uma certa grana para fazer o disco, que nunca tive depois. Na época que a gente estava na Warner, de 85 a 90, acho que demos umas sortes também, porque o André Midani estava lá. Outro dia eu estava falando isso com o Nasi [n.e. Vocalista do Ira!], que a gente era feliz e não sabia. O Midani é um cara do comércio, da indústria, mas ele gosta de música, estava por perto da bossa nova, do tropicalismo, do rock paulista. E muito ele bancava o Mulheres na Warner porque naquela época a gravadora queria ter artistas diferentes. Eu me lembro de que para gravar o segundo disco do Mulheres, a gente foi lá no Maksoud [Plaza] falar com o Midani. Já tinha uma conversa na Warner de “vocês têm que fazer um disco de pista”, porque estava rolando house [risos] e lambada, e veio esse papo. E o Midani veio e falou… bom, o que eu entendi é “me dêem uma música de pista e façam do resto o que vocês bem entenderem”. Mas ficou nas entrelinhas que ””se vocês só fizerem o que vocês bem entenderem também está tudo bem””. Então tivemos liberdade na Warner. Agora tinha uma coisa do staff da gravadora, que é mais acostumada a trabalhar com o jabá, com a mídia grande, com artistas de grande vendagem. Eles não sabiam bem como lidar com banda pequena. Os Mulheres eram uma banda que podia ter vendido 50 mil discos de cada álbum e vendeu 10, 12 mil. Para você vender bandas diferentes como o Mulheres você tem que ir às lojas diferentes, você tem que cultivar aquele público de molecada que quer coisas fora do padrão. Fizemos muito interior; 60, 70% dos shows foram no interior de São Paulo, mas nunca tinha disco dos Mulheres. Isso piorou nos anos 90. As majors emburreceram, elas não eram burras nos anos 80. Pô! Rock paulista, rock brasileiro tem mestres, teve muita coisa nova interessante. Nos 90 teve muita coisa interessante, mas esse esquema do jabá viciou. Agora, o Brasil é um país louco e graças à pirataria – estima-se que 70% do mercado seja pirata – as gravadoras vão ter que olhar para artistas de menos vendagem para driblar isso aí e talvez ter outras atitudes na hora de comercializar e divulgar. O mundo é louco. Uma pirataria combate a outra.

Tags
Mauricio Pereira
Mulheres Negras
de 19