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Entrevistas de música brasileira

Mauricio Pereira

Cantor e compositor Mauricio Pereira. Foto: Dafne Sampaio/Gafieiras

Mauricio Pereira

parte 18/19

O São Caetano parece um artista independente

Tacioli – Maurício, você citou diversas vezes o futebol, jogos e jogadores. Enfim, qual é a sua relação com o futebol?
Almeida – Ou se essa obsessão por futebol é uma frustração?
Pereira – Olhando para trás, eu deveria ter sido jogador. Eu deveria ter sido um monte de coisa em vez de ter feito aquela porra de escola de Jornalismo. [risos] Maquinista de trem ou jogador de futebol. Bom, sou corintiano, vi meu time ser campeão com 17 anos. Vi o Pelé jogar, o Rivelino, o Gérson, o Ademir da Guia.
Tacioli – Você ia a estádios?
Pereira – Bastante, bastante. Primeiro com o meu pai, depois com a galera. VejoMesa redonda [n.e. Programa da TV Gazeta comandada por Roberto Avalone] domingo à noite, comprava Gazeta Esportiva, basicamente sei a escalação dos times, acompanho o campeonato, 2ª Divisão. Meu pai foi juvenil da Ponte Preta. Agora, eu acho, independentemente do que eu gosto de futebol, que está duro de ver. Não consigo levar meu filho para assistir a um jogo. Não é só pela violência, mas é um jogo brocha. É um monte de gente correndo, não tem putaria, não tem malícia, não tem invenção, não tem molecagem.
Monteiro – O cara faz a molecagem e depois o enquadram.
Pereira – Enquadram. E outra coisa: não vou ver jogo do Corinthians em que metade do time jogou no Palmeiras no ano passado. Não vou, não vou! [risos] Se eu fosse palmeirense, eu não veria jogo do Palmeiras quando metade do time jogou no Corinthians. Ridículo! Espero que tenha alguma crise para voltar a prata da casa. O Corinthians é Ronaldo, Zé Maria, Ditão, Luis Carlos, Vladimir, Zé Elias. Marcelinho? Acho que tem que ficar no Corinthians. Ele é louco, mas é corintiano. Fernando Baiano, Luizão podem jogar. Só quem mostra o sangue tem que jogar. Fico triste quando vendem um cara que nem o Ewerton. Um cara de 18 anos! Ele vai ser formado no exterior. A putaria, a molecagem vem aos 25, aos 28. Porque estou falando isso? O futebol, com a música popular e a televisão, são coisas muito fortes da nossa cultura popular. As novelas da Janete Clair, Silvio Santos, a culinária são expressões fortes do povo. Com a música não acontece isso, mas o futebol praticamente acabou como forma de expressão. Ainda existe, mas você tem que ficar com uma lupa. Vejo jogo da 2a Divisão para ver se rola indisciplina. Assisto a jogos… CRB? Não, o que era? Ceará Sport e América de Natal. Vi isso aí!
Monteiro – Mas foi um jogo horroroso! Eu assisti também! [risos gerais]
Pereira – Quando a Ponte Preta estava na 2a Divisão eu vi bastante. Tenho essa ligação com a Ponte.
Tacioli – São Caetano é uma possível salvação?
Pereira – É. Parece um artista independente. Ele é emergente, vem de uma outra realidade. Quando ele ficar mainstream, quando for para gravadora grande ele vai mudar. Vai existir uma cobrança em cima dele. Mas agora não. E não vai ser campeão, justamente porque não está na indústria. Em 2000 ele já não foi. Foi roubado! O futebol é uma expressão muito importante do espírito, da cultura brasileira. E esse momento de corrupção e violência, o futebol brasileiro está emparedado na criatividade, na expressão. Isso é um momento que tem a ver com o Brasil, do politicamente correto, do utilitarismo, da corrupção. Vamos ver, não acredito em Papai Noel, mas acho que as coisas são cíclicas. Quem sabe daqui uns 5 anos a arte não volte a predominar sobre o utilitarismo, esse jogo feio e rápido, que não é cópia do europeu. Você assiste a um jogo europeu, ele é rápido, mas lá eles são desse jeito. Lá o cara pode fazer embaixada que ele não é punido. Aqui no Brasil a gente é mais realista que o rei. A molecagem, que é a nossa grande arma, a gente quer matar a tiro de fuzil, cara! A nossa auto-estima é muito baixa! O Nelson Rodrigues estava certo, é o complexo de vira-lata.
Sampaio – Lá vem o oficial!
Almeida – Vai enquadrar todo mundo, companheiro?!
Guarda do SESC – …A situação complica. Só faço o que os outros mandam eu fazer!
Pereira – Tá certo, tá certo! Não tem show hoje?
Monteiro – Tinha a gravação do Musikaos.
Max Eluard – A entrevista foi abortada.
Pereira – Mas falei bastante.
Max Eluard – Foi bom, Maurício?
Pereira – Foi, eu estava precisando falar, por incrível que pareça. [risos]

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