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Entrevistas de música brasileira

Mauricio Pereira

Cantor e compositor Mauricio Pereira. Foto: Dafne Sampaio/Gafieiras

Mauricio Pereira

parte 17/19

Gostaria de fazer música como o Roberto e o Zezé Di Camargo

Almeida – Maurício, você não pensa em fazer uma letra e dar para um outro cara musicar, ou o contrário, pedir uma letra para você musicar?
Pereira – Tirando o André e o Skowa, eu tinha pouca experiência disso. Fiz com o Szafran e tinha uma parceria com o Dino Vicente, mas é raro. Nesse disco, como escrevi mais letras, estou dando para algumas pessoas. Não sei se vai rolar. Dei para o André fazer, pro Szafran, pro Zeca Baleiro; encomendei umas letras para a Alice Ruiz. A gente se conheceu casualmente em Curitiba, ela era fã de umas músicas minhas. Não imaginava! Gosto muito dela também. E vamos ver. É um disco diferente também nesse sentido. As parcerias.
Max Eluard – E você trouxe alguma coisa nova aí?
Pereira – Cara, não tenho nada! Porque está tudo assim… Estou na fase de pegar uma foice e tirar palavras. Nenhuma tem música. Não, tem uma que tem, mas é um rap. A maioria não tem música e ainda estou tirando texto. Eu ia trazer, mas olhei e não tinha nada pronto. Tem coisas que estão assim, vai, 80%, mas vou deixar lá que nem massa de pão. Daqui um mês vou ver. Mas não tem nada. Tem uma que eu mandei para o Szafran, que está quase pronta. “Se achar que tiver que mexer na letra, mexa”. Para o Abujamra também, mas é uma música que pode até não rolar porque a letra está muito esquisita, muito sobre a solidão e sobre o nada e o vazio. Não sei se estou viajando, mas como o André é um cara diferente de mim, se ele olhar e achar que rola, então… As músicas estão muito cruas ainda.
Tacioli – Você citou clássicos populares como “Entre tapas e beijos”, “Detalhes” e outros, que são considerados simples pelo tipo de composição que possuem.
Pereira – É, mas não são.
Tacioli – Como essa história do simples pesa para você na hora de compor? Você tem essa busca?
Pereira – Tenho.
Tacioli – Existe essa encanação “estou muito acadêmico, muito cabeça”, sei lá?
Pereira – Acadêmico não sou, mas cabeça eu sou, infelizmente! [risos] A minha escola é de ter ouvido Jovem Guarda e rádio AM. Minha mãe ia trabalhar, me deixava com a empregada. Então ouvia Lindomar, Agnaldo Timóteo, Evaldo Braga, Altemar Dutra. Mesmo quando faço um disco como Mergulhar na surpresa, que não é um disco fácil, porque ele é fora do padrão, meu texto é acessível. Com esse disco fiz quarenta Arte nas ruas, que é um projeto da Prefeitura em praça pública. Basicamente ninguém me dava atenção. Mas um dia fui no Largo XIII e parei 500 pessoas muito simples. Não cantei nada dos outros. Fiquei muito assustado. Primeiro com a capacidade de eu ser popular. Segundo, pela capacidade do cidadão comum ter prazer com textos fora do padrão. Agora, gostaria de fazer músicas como Roberto Carlos, Zezé Di Camargo. E cada vez menos estou conseguindo isso. Estou fazendo formas poéticas tresloucadas. Mas o trabalho do Mergulhar é mais emocional do que parte A, parte B, refrão. Acho difícil e importante fazer música simples. Gostaria de fazer, mas realmente não tenho conseguido. Não tenho, não!
Max Eluard – Por quê?
Pereira – Essa liberdade formal vicia. Mulheres eram uma banda de maluco; me é dado o papel de ser maluco. Não me é cobrado, como para outros artistas, chegar lá com A, B, refrão. Depois dos Mulheres, Na tradição tinha um pouco isso porque eu queria fazer canção, mas o Mergulhar foi um disco em que a emoção e o texto, sei lá, outras formas, comandaram mais do que esse formato de canção popular. E esse novo agora também, puta, são raps, são músicas faladas, tem poesia em cima de música. Eu deixei sair, porque não vou me reprimir, mas quebrou minha expectativa. Pensei que depois de um ano cantando no Supremo eu ia fazer coisas populares.
Tacioli – Você acha que rolaria uma parceria sua com um desses artistas populares?
Pereira – Rolaria, com certeza.
Tacioli – Sem travas?
Pereira – Trava nenhuma.
Tacioli – É?! Maurício Pereira e Zezé Di Camargo?
Pereira – Completamente. Se eu desse uma letra minha para eles… Se eu desse uma música… Mas eles não podem gravar uma coisa muito fora do formato porque estão na indústria. O Amado Batista conhecia Os Mulheres Negras. Gravamos no mesmo estúdio que ele. O cara sabia quem era, sabia do que se tratava. Cruzei com ele no programaMulheres em desfile, quando eu não estava mais no Mulheres. Ele sabia quem eu era. Fábio Jr era superfã dos Mulheres, levou a gente para a Hebe. Esses caras são musicais. Os bons, né?! Porque tem o bom e tem o picareta!
Almeida – Então, não basta analisar tecnicamente a estrutura de uma música popular para você conseguir fazer sua música popular?
Pereira – Esses caras quando fazem A, B, refrão, fazem intuitivamente. Eu tento fazer, mas sou levado para outro lado. Já fiz música de encomenda que era A, B, refrão. O que fiz para o Castelo Rá-Tim-Bum com o André, por exemplo. Veio o A, B, refrãwo dele e eu me pus lá dentro. Algumas coisas fiz assim, como música infantil e, eventualmente, algum jingle. Intuitivamente vou para uma forma mais livre. Se eu fizer intuitivamente como fiz o “Pinguim”, o “Tudo por ti”, legal, mas não gosto de premeditar música porque senão parece exercício. Às vezes tem artistas que eu gosto, mas quando ouço suas músicas, parecem exercício formal. Não gosto disso não. É meio bobagem!
Tacioli – Que artistas se enquadram nisso?
Pereira – Não vou falar não! [risos] Não, não, o Sindicato me proíbe e eu dou razão para o Sindicato. Não vou falar.

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