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Entrevistas de música brasileira

Mauricio Pereira

Cantor e compositor Mauricio Pereira. Foto: Dafne Sampaio/Gafieiras

Mauricio Pereira

parte 16/19

Não gosto de fazer o show igual ao disco

Max Eluard – O que é o show para você? Você tem um disco, você faz o show do disco?
Pereira – Falei que não gosto de registrar muito, né? Tenho cabeça de amador. Basicamente para um amador como eu, só o show é legal. Mas hoje não tenho saco de ir a show, só de ouvir disco. Porque o show não tem mais mistério para mim. Vou ao cinema, mas não consigo ir a um show. Fico nervoso, fico vendo outras coisas como são. Mas para fazer show para o leigo é legal. O show tem mais raça, acontece mais imprevisto, tem o contato com o público. Tento prestar muita atenção no público.
Max Eluard – Mas qual é o seu objetivo quando você vai fazer um show? Reproduzir o álbum ou você busca outra coisa?
Pereira – Vou lá para bater um papo com o povo. Quase nunca um show meu é igual ao outro. Se um cara pedir, “canta fulano”, canto. Os acidentes que entram, os incorporo todos. Tipo: uma vez sem querer, acho que foi até em Ouro Preto, que está gravado, dei um breque numa música chamada “Pan y leche”, em “anticonstitucionalissimamen…”, e perdi o tom. E o Daniel, do nada, começou a tocar “Núcleo base” do Ira! Foi a música inteira! No show seguinte, isso já havia sido incorporado. Não gosto de fazer o show igual ao disco. Show do Milton Nascimento era isso. Show igual ao disco. Um saco! Chico também, não gosto! Já show do Caetano e do Gil, especialmente do Gil, a banda improvisava, o cara conversava com a platéia. Acho importante o artista conversar. “E aí, como é que vocês estão?” Ou “o Corinthians ganhou?” “Maluf foi cassado”. Falar disso, o mundo existe com o show. “Tá frio? Puta que frio!” “Tá resfriado? Porra, tô resfriado!” Traz a vida real para dentro. O show tem muito a ver com a rua. Se estou na Moóca, o show tem a ver com a Moóca. Se estou no Rio de Janeiro, o show tem a ver com o Rio de Janeiro. Eu ando no lugar em que estou antes de fazer o show. Assim cada apresentação é diferente. Vou para Ribeirão, dou uma volta em Ribeirão. Fui de trem para Ribeirão quando fui me apresentar no Municipal. Graças a Deus, porque aí acabou o trem. E a minha viagem rendeu, porque aconteceram coisas que falei no show. E mais: estourou o P.A. no show, explodiu, as pessoas saíram correndo do teatro.
Almeida – Até pouco tempo dava para ir de trem de São Paulo a Bauru.
Pereira – Eu e o André fomos de trem para Bauru e todo mundo de avião. Dá para acreditar? Foi o show do calote, mas foi bom.
Tacioli – Mas esse tipo de incorporação, da assimilação do improviso, só deveria aumentar o seu interesse em registrar seus espetáculos.
Pereira – Por um lado eu gostaria, por outro lado, não sou apegado mesmo. Cada show vai ser diferente. Falo para as pessoas, “Querem levar o gravadorzinho e piratear? Melhor!” Não tenho muita paciência. O Daniel faz isso. Tem um mini-disc ou algo assim e leva para gravar os shows. Ele levou uma DAT, com canais separados, para Ouro Preto [risos]. Mas acho legal um show ser diferente do outro. É um respeito com o público.

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