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Entrevistas de música brasileira

Mauricio Pereira

Cantor e compositor Mauricio Pereira. Foto: Dafne Sampaio/Gafieiras

Mauricio Pereira

parte 14/19

Nos primeiros shows dos Mulheres tocávamos U2, Paralamas, Gil

Tacioli – Maurício, você estava falando da descoberta dos Mulheres, né?! Só para retomar a linha cronológica.
Pereira – Rolou tudo muito depressa. Tipo, tocamos na festa no meio do ano, e depois fizemos uma grande temporada, maravilhosa, no Pedaço do Bexiga. Vocês conhecem esse boteco?
Max Eluard – Não.
Pereira – Do lado do Piu-Piu, não sei se ainda existe. Fizemos dois meses e fomos vistos por… cinco pessoas [risos], contando com a minha namorada e a do André, que foram mais de uma vez. Na maioria das vezes chovia, nevava, tinha final de campeonato de futebol, eleição, tudo, e não tinha ninguém lá. Mas era uma chance de fazermos o mesmo show todo domingo num P.A., porque antes não tinha estúdio de ensaio, não era fácil. 1985. Em novembro, com aquela simpatia que a gente teve, tocamos numa homenagem ao Primo Carbonari no Madame Satã. Isso rendeu. No fim do ano estávamos no MASP, um público de 700 pessoas, em 1985. Teve mídia, o Maurício Kubrusly foi, fez matéria para a TV Globo. Aí estourou. A partir deste momento, o Peninha Schmidt ia em todos os shows, depois contratou a gente para a Warner, e embora o disco não fosse lançado logo, começamos a ir para o interior. Estouramos a boca do balão. Meu, no interior eram shows de 1000, 2000 pessoas.
Max Eluard – Universidades?
Pereira – Universidades. Na UNICAMP fomos umas dez vezes. São Carlos.
Max Eluard – E os SESCs?
Pereira – Não tinham tantos SESCs em 85. Existia o Pompeia, Consolação…
Max Eluard – Em Ribeirão vocês foram no SESC.
Pereira – Fomos, mas aí foi no fim dos Mulheres, em 90.
Max Eluard – E em Bauru também.
Pereira – Em Bauru fui muito no SESC depois dos Mulheres. Mas no fim dos Mulheres, nós fomos e tomamos um calote.
Almeida – Mas quem levou vocês?
Pereira – Um cara chamado Suniê, que hoje tem uma torcida organizada do Noroeste. [risos] Fui atrás dele. Fiz muita coisa em Bauru. O pessoal do SESC de lá é muito legal. E perguntei, “Onde anda esse cara?” “Tem uma torcida organizada do Noroeste”. [risos] Que caiu para a 3ª Divisão.
Monteiro – Você comentou que na época d’Os Mulheres vocês tinham um monte de traquitanas para gravação. Vocês não tinham problemas para transpor isso para o palco?
Pereira – Nenhum problema, porque em 85 o que era uma traquitana? Um pedal de sampler e um SK-1, teclado que você comprava no Mappin, que tinha dez segundos de sampler. Isso era o máximo! Com sampler era coisa de um segundo. Não existia Macintosh, não existia PC. Comprei um computador em 89, um Apple 2-C. Era tão ruim, fiquei 15 dias e troquei por um amplificador de baixo. 128 de memória, tinha que trocar o disco o tempo todo, não me dei bem. Lidávamos com uma tecnologia mais vagabunda. O som era vagabundo. Era instrumental pop. Nos primeiros shows dos Mulheres tocávamos U2, Paralamas, Gil, ska, instrumental. Cheguei a conclusão de que eu precisava estudar instrumento e teoria. [risos] Começou a fazer falta. Fui estudar teoria pesado, peguei dois professores, sax, teoria, percepção. Tirei o mínimo de atraso. Aí começou a rolar o tecladinho e o pedal da gente que fazia duas pessoas parecerem quatro. E os shows começaram a ser meio malucos. O tecladinho você podia programar para tocar sem parar, você batia nas teclas e mudava o acorde. E uma vez no Satã, o palco – dois caixotes e um compensado – com o André, gordão, começou a ceder [risos]. O André caiu. O teclado também caiu, mas não parou de tocar. [risos gerais] E continuamos tocando. Tornamo-nos lendários ali e começamos a fazer aquilo sempre. [risos]
Almeida – Incorporou!
Pereira – O André começou a dar cabeçada no teclado. Era meio circo. Fizemos coisas com o pessoal do Fratelli [n.e. Grupo Acrobático Fratelli que mescla a arte circense com teatro, música, dança, etc.], que estava começando na época também. Tinha uma cena legal em São Paulo, de teatro e música. O Fratelli, Marzipã [n.e. Companhia de dança criada por Renata Melo e vencedora do Prêmio APCA de 1987], Luni [n.e. Grupo musical liderado pelo cantor e performer Fernando Figueiredo, e também integrado pelas vocalistas Marisa Orth e Natália Barros, que misturava espetáculo circense com desfile de moda], Novelle Cuisine, Skowa e a Máfia, Lagoa 66, Gueto, que era uma banda maravilhosa.
Almeida – O que aconteceu com esses caras?
Pereira – Gueto? O Julinho acho que não é mais músico, ele fez alguma coisa de dance music. O Marcola e Marcos, baixo e guitarra, também não sei por onde andam. Eles tentaram ressuscitar o Gueto há uns anos, mas não deu certo. E o Edson X está na Azul Music, produzindo essa mistura de eletrônica com new age. É um puta músico! Era uma banda muito interessante.
Tacioli – E não rolou os Mulheres na Fábrica do Som?
Pereira – Não chegamos a fazer. Não existia mais. Íamos fazer o Perdidos [n.e. Programa televisivo Perdidos na noite, comandado por Fausto Silva nos anos 1980], mas entrou um atravessador e não fizemos. Depois ele acabou.

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