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Entrevistas de música brasileira

Mauricio Pereira

Cantor e compositor Mauricio Pereira. Foto: Dafne Sampaio/Gafieiras

Mauricio Pereira

parte 13/19

A Volks despede 3 mil caras e depois a fundação dá esmola

Monteiro – Sei que vou interromper um pouquinho essa trajetória, mas você estava falando da banalidade da música dos anos 90 e coincidentemente…
Pereira – Só um parêntese: não sei se é banal, tem muita música sem sagrado, mas eu não sei se é banal.
Monteiro – … É claro que também tem o lance comercial nessa história toda, mas estão relançando anos 80 pra caramba, os discos originais. Hoje comprei Os Mulheres Negras.
Pereira – Onde você achou isso?
Sampaio – Comprei também.
Monteiro – Numa lojinha ali na Paulista.
Pereira – Bom saber. Preciso comprar um para mim.
Monteiro – E perguntei para o cara: “Esses discos estão vendendo?” Tinha Ultraje a Rigor (Nós vamos invadir a sua praia), Brylho (Noite do prazer), e peguei justamente o seu: “Tá vendendo esse aqui?” Eles pediram 25 de cada um da coleção, e só havia um! Não vão se produzir mais clássicos, mas já existiu um período melhor, pelo fato de as pessoas estarem procurando por tudo isso. E não acredito que é só a galera que conhecia os Mulheres Negras. Existe gente curiosa que vai fuçar.
Pereira – É, pode ser. No duro, essa possibilidade de você conhecer os originais não tem preço. Mas, meu, é tudo casual, como te falei. Foi o Peninha Schmidt ali, o Abujamra aqui, e o Charles Gavin aí. Fiquei 10 anos na cola da Warner, tentei bancar uma tiragem. Não rolou! O Charles conseguiu. Ele, da cabeça dele, relançou uns 300 com o maior capricho. Se é uma pessoa que tem cuidado, rola. Acho legal! É importante esses discos estarem em catálogo, você ter acesso. Não sei se vão vender, mas é importante estarem em catálogo. Aí algum dia alguém vai pesquisar você. Quero ter todos os meus discos sempre em catálogo.
Monteiro – Você participou da masterização?
Pereira – Eu e o André.
Monteiro – Na época era o vinilzão. Existe uma diferença tão grande assim quando se muda para CD? Vocês se preocupam com essa sonoridade?
Pereira – Melhorou pra caralho! Melhorou porque os Mulheres tinham um drama. Os discos tinham 45 minutos. No vinil, se você tem o disco longo, os sulcos são mais estreitos e não tem grave. Assim, os nossos discos não tinham grave. Remasterizamos. Meu! Não ouvi, mas o André disse que fala pra caralho. E mais uma coisa: tudo isso é feito a partir de vinil. Casualmente, achei uma cópia digital em PCM do primeiro disco dos Mulheres, que ninguém sabia que existia. No mesmo dia em que o Charles me ligou, telefonei para o Peninha Schmidt e falei “pô Peninha, um dia eu vi você com uma fita cassete da SET que você comentou que era um PCM, uma cópia digital.” Quando o Charles me pediu o vinil… Liguei para o Peninha e comentei dez anos depois, “Lembra disso?” “Lembro. Preciso ver se está no meu porão. Depois preciso ver se abre!”. Achou. E abriu. Então, Os Mulheres foram remasterizados a partir de um digital. Um puta rabo, porque se fosse a partir do vinil estaríamos fodidos. E do segundo disco, casualmente, eu tinha um DAT do bruto, das 40 takes do álbum. A Warner perdeu tudo. Remasterizamos tudo em digital e tem muito, muito mais som. Sem contar com o Carlinhos Freitas, que é um puta masterizador… Muita sorte!
Max Eluard – Paulistanos, comei-vos! [a porção de fritas, cervejas e copos plásticos pousam na mesa]
Pereira – Comida local!
Max Eluard – Culinária típica, regional!
Pereira – Uh! O certo era beber em copo americano.
Sampaio – Não tem copo aí?
Max Eluard – O bar fechou. E ainda conseguimos o gelo.
Pereira – Mas não tem show hoje?
Max Eluard – A cerveja está dentro do saco. Que coisa simpática!
Monteiro – Você estava falando que sobrevivemos apenas pela existência de manos.
Pereira – Mano e padrinho.
Monteiro – Semana passada teve um encontro de ONGs. São Paulo concentra quase 50% das que trabalham na área social, sem depender do governo. Tem a ver com isso?
Pereira – Essa coisa de trabalho social tem um lado que é da ONG, tem outro que é da fundação. Por exemplo: acho gozado, a Volks tem uma fundação. Só que ela ia despedir 3 mil caras. O que é uma fundação de uma empresa capitalista? Você despede 3 mil caras e desarticula social, cultural e politicamente uma população. Você tira a dignidade dos caras. Aí tua fundação vai lá e dá uma esmola pra eles.
Max Eluard – Para limpar a consciência.
Pereira – Isso é dos anos 90. Isso é o politicamente correto dos anos 90.
Max Eluard – A maioria das ONGs, fundações, terceiro setor, sobrevive de ajuda da Europa, dos Estados Unidos. Eles estão limpando a consciência.
Pereira – Eu preferiria que a CIA não tivesse bancado a CCC, que existia para matar as pessoas de esquerda no Brasil. Enfim, disseram que lançaram uma caixa de CDs com os grampos do John Kennedy e tem uma conversa dele com o Lincoln Gordon dizendo como é que se tinha que fazer a limpeza política no Brasil. “Não, vamos apoiar fulano na eleição”, tinha um papo desse. C’est la vie!

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