gafieiras

gafieiras

Entrevistas de música brasileira

Mauricio Pereira

Cantor e compositor Mauricio Pereira. Foto: Dafne Sampaio/Gafieiras

Mauricio Pereira

parte 12/19

Fiz um livro de poesia em mimeógrafo e fui capa de jornal

Monteiro – Até então não tinha nada de música, só rádio?
Pereira – Bom, fiz um livro… sabe livro de mimeógrafo? Fiz um livro de poesia. [risos]
Max Eluard – Vendeu ali debaixo do MASP! [risos]
Pereira – Vendi metade da tiragem na fila da Bienal do Livro . E fui para Salvador no Encontro de Poetas de Rua. Fui primeira página do jornal A Tarde, da Bahia. Isso porque eu era o único cara de fora de Salvador. Fiz mil entrevistas e não entendi nada. “Porra, fiz o livro outro dia, será que sou bom?!” [risos] Quando fui despedido, eu tinha aula de percussão africana no TBC. Por ser no TBC, o professor teve que deixar o Abujamra entrar. O pai do André era o dono do TBC na época. Foi aí que eu o conheci. O encontro foi assim: o André me olhou, olhei para o André, aí depois ele me contou “Porra, olhei para você e falei, ””Olha aquele cara, puta bicha louca, filha da puta!””” [risos gerais] “Puta, você sabe que quando olhei para você falei que ””Débil mental, esse cara não fala coisa com coisa, puta babacão!””” Em duas semanas estávamos tocando na banda da faculdade de música do André. Na época eu era contra o estudo musical. [risos]
Monteiro – Você já tocava saxofone?
Pereira – Tinha estudado, mas me negava a continuar estudando. Tinha noção de teoria. “Não, estudar acaba com a espontaneidade e inibe a expressão. Então me nego a estudar e só toco de ouvido!” O André me entendia, mas os outros caras da faculdade, não. Eu falava “Vocês são uns boçais, ficam estudando na faculdade. São uns babacas!” Era assim. Obviamente teve uma cisma, e eu e o André fomos ejetados da banda. Aí fundamos Os Mulheres Negras.
Sampaio – Você disse num show no SESC Consolação que você também havia feito mensagens para secretária eletrônica.
Pereira – Foi depois do Mulheres.
Max Eluard – Só vou fazer um parêntese. Nós estamos pensando em pegar umas cervejas, umas porções.
Pereira – Aí os Mulheres funcionaram à revelia.
Monteiro – Isso foi em 1984?
Pereira – Primeiro semestre de 85.
Monteiro – E nesse momento você já pensava em música? “Ah, música dá um caldo, vou poder pagar minhas contas”.
Pereira – Nunca pensei. Até tinha uma banda instrumental, mas não deu certo. Eu tava perdido: sem mulher, sem dinheiro, sem trabalho. Estava pensando “o que eu vou fazer?” Não conseguia sair da casa dos meus pais. Estava bebendo bem. Tinha um amigo – agora trabalha no Jornal da Tarde – que sempre me recolhia e me levava para casa da minha mãe ou para a casa dele. Recolhia era o termo.
Monteiro – Isso porque você é pequeno. Já aconteceu comigo, mas foram três que me carregaram.
Pereira – Ainda bem. Por isso que eu digo que São Paulo tem os manos. No Rio eu não poderia fazer isso, eu ficaria em algum lugar. Mas o André tem esse tráfego por causa da família e, sei lá, a gente fez aquele trabalho esquisito, ele tinha umas traquitanas, eu tinha outras, era uma banda instrumental. Fizemos um show no Madame Satã, e o David Zing, aquele fotógrafo maluco, o Tico Terpes e o Zé Rodrix viram a gente. Um dia estávamos lá, liga um desses aí e bota o Peninha Schmidt na parada. E antes que a gente pudesse saber, estávamos tocando numa festa para Lauri Anderson, na casa de um bacana. Pô, antes que a gente entendesse o que estava acontecendo, estávamos no Jornal da Tarde como os novos darks. É assim que funciona a mídia de bacana, com a foto da gente, dando não-sei-quê da Lauri Anderson, os Mulheres Negras foram a coisa mais legal da festa. Lauri Anderson é uma babaca, não sei quem é um babaca, só os Mulheres Negras são uns gênios. Quem descobriu a gente ali foi a Cristina Iori e Ana Carmen Foschini. A Cristina Iori depois trabalhou na Folha, na MTV. Não sei por onde ela anda agora. E a Ana Carmen esteve na Folha.

Tags
Mauricio Pereira
Mulheres Negras
de 19