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Entrevistas de música brasileira

Mauricio Pereira

Cantor e compositor Mauricio Pereira. Foto: Dafne Sampaio/Gafieiras

Mauricio Pereira

parte 11/19

Corrigi muito Roberto Avalone, aquelas focas velhas do Estadão

Max Eluard – Você se formou e foi logo trabalhar com Jornalismo?
Pereira – Puta, eu dei azar de passar no vestibular, dei azar de me apaixonar, dei azar de no dia seguinte de terminar a faculdade – terminei no dia 30 de novembro e em 1º de dezembro arranjei um emprego [risos]. Vejam vocês, dei azar para o bem, azares sortudos. Fui trabalhar na LC, que era dona da Rádio Musical e da Rádio América. O que era a LC em 1980? Era uma empresa de pesquisa de mercado. Eles começaram a tabular preferência musical. Algum gênio lá montou um programa de computador que ordenava as músicas em blocos de quatro músicas. As músicas eram catalogadas em quatro categorias. A primeira do bloco era categoria B, tocava oito vezes por dia. A última do bloco tocava 16 vezes por dia. E as duas do meio eram mais ou menos. Aí o cara fez uma programação e a Rádio América, que é dos padres e estava em último lugar, alugou para a LC, que testou essa programação. E em oito meses a Rádio América já era a segunda colocada, só perdendo para a Nacional. Estourava a boca do balão. Aí a LC pegou essa programação e começou a vender para o Brasil inteiro. E dono de rádio geralmente é um babacão, que tem a concessão política, que não quer ter trabalho. E ganha muito dinheiro. E como a LC fazia? Com os discos e as partes gravadas, mandava esse material de avião para as rádios de Maceió, Curitiba. Chegando lá, só precisava de um operador para soltar o gravador e o disco. X% da grande propaganda era da LC, X%, do dono da rádio; e apenas duas pessoas tocavam a rádio. Então fui trabalhar na LC. Eu gostava de música e tinha noção de Jornalismo. O que eu fazia? Escrevia o texto do mês seguinte da FM que eles estavam lançando. Por que do mês seguinte? Tinha que ser feito o texto do mês seguinte inteiro para que a programação pudesse ser enviada às praças. [risos] Bem feito! Eu não gostava de Jornalismo. Trabalhei lá 8 meses e só errei uma notícia. Acho que em 80 o Grêmio foi campeão brasileiro, se não me engano, e contra o São Paulo. Achei que o Grêmio não iria ser campeão. Dei essa notícia dez dias antes. [risos gerais]
Max Eluard – Jornalista e vidente!
Pereira – São Paulo ia jogar com o Grêmio no Morumbi. Ah! O São Paulo era muito melhor. O Grêmio tinha aqueles brutamontes e o São Paulo um monte de craques. “São Paulo foi campeão brasileiro ontem no Morumbi”. [risos gerais] E o resto eram datas, calendários. Eu escrevia para as federações de esportes, pegava calendários, notícias frias. A LC ficava perto da Paulista e um dia falei para o cara: “Pô, deixa eu ir na Paulista, me dá uma grana aí, vou comprar material de referência”. E num sebo achei uma coleção completa da revista Pop, lembra da revista Pop? É a mãe da Bizz, uma revista que teve nos anos 70 na editora Abril sobre a cultura pop. Puta, arrematei umas 200 revistas. Falava que Pink Floyd era isso, não sei o quê. Lógico que não tocava Pink Floyd na LC, mas… . Fui despedido e tornei-me free lancer de texto. Fazia texto para motel, gráfica, para qualquer coisa. Arranjei um emprego na Bandeirantes, quando o Walter Clark entrou. Durei três meses lá, até o Walter Clark sair. [muda a entonação da voz] “Fui fiel ao Walter Clark”. [risos] Escrevia chamadas de filmes para o jornal. A Bandeirantes sempre mandava um anúncio para os jornais. Tipo, ia passar Ben Hur: “Ben Hur, com Charlton Heston, o filme que fez Jesus encontrar a cruz em Roma”. Eu escrevia essas coisas! [risos gerais] Fiquei lá uns meses também. Fui despedido assim: meu chefe era um cara bem legal, tinha que despedir alguém e ele me despediu. Cheguei para trabalhar, fui para a chapeira, “Pô, cadê o meu cartão?” O cara falou “Vá para o pessoal”. Fui para o departamento pessoal, “E aí, cadê o meu cartão?” “Não, você foi desligado!” “Como assim desligado?” “Não, você foi despedido!” [risos] Aí subi para falar com o cara. “Pô, você me despediu? Você não gosta de mim?” “Não, gosto, mas eu tinha que despedir alguém. Aí um dia olhei aqui: tem aquele fulano, mas ele faz um trabalho muito útil. Tem a menina, mas ela é a maior gatinha. Te vi e você está sempre resmungando” [risos gerais]. “Bom, tá certo, você foi franco e fez a coisa certa”. Aí fui traduzir teletipo na United Press International (UPI), na Sete de Abril. Acho que não existe mais UPI. Era assim: em uma sala ficavam dez teletipos, [sonoriza] bébébébébébébébam, e tinha um cara caolho, manco e surdo [risos]. Um dia falei para ele: “Pô, você não se sente mal aqui dentro?” [imita] “Fiquei assim por causa disso aí!” [risos]
Almeida – Aí você saiu!
Pereira – Não, não saí de nenhum lugar sem me despedirem. [risos] O sujeito recortava as matérias e dava para os caras, que liam e as transformavam em textos de 10 linhas. Só saía no Notícias Populares. Aí acabou o contrato. E eu ainda namorava a tal mulher do tempo da ECA. Encontrei um amigo que falou “A revisão lá no Estadão ganha uma puta grana. Você não tem que fazer nada, só vai lá e corrige” “Ah! Vamos lá ver!” Não era jornalista, né?! Fui lá, fiz o teste, passei. Da meia-noite às seis da manhã. Corrigi muito Roberto Avalone, aquelas focas velhas do Estadão. Salvei o emprego de muita gente, porque geralmente eu conhecia os assuntos que estava revisando. Corrigia erro de informação, às vezes frases inteiras, Roberto Avalone e tal. Depois de dois anos trabalhando como revisor, teve uma dinâmica de grupo no Estadão [risos]. Aconteceram duas coisas: fui franco pra caralho, achava que as relações tinham que ser mais democráticas. E, segundo, o cara me ofereceu para ir trabalhar na redação. “Você não quer ir para a redação cobrir férias? Tem política, economia, depois você acaba ficando por lá.” “Não, tô bem aqui” [risos gerais] Que debilóide! “Não preciso pensar muito, tô bem, faço meus cursos”.
Max Eluard – Da meia-noite às seis é bom para mim…
Pereira – Só não dava para ir em festa nenhuma. Era uma abóbora. Nessa época eu estava fazendo um curso de percussão africana e foi quando conheci o Abujamra. Bom, 15 dias depois dessa avaliação, na qual eu tive um “A”, aconteceu o seguinte por algumas semanas seguidas. Na quinta à noite se revisava os classificados de domingo. Em revisão podia-se errar notícia, mas se errasse os classificados, eles tinham que publicar de novo, e pagando. Comecei a errar classificado. Para revisar classificado você dobrava jornada. Então, entrava quinta à meia-noite e ia até às 10 da manhã, mas eu matava o domingo à noite. Saía de lá sexta à noite e só voltava terça à meia-noite. Ou ia viajar. Comecei a errar classificado. Duas semanas depois de eu ser muito bem avaliado e ter falado essas asneiras, fui despedido. Cheguei para trabalhar e meu cartão não estava.
Max Eluard – Já sei onde tenho que ir.
Pereira – Aí cheguei na mesa do chefe. Era uma sala grande. “Bicho, meu cartão não estava lá!” “Não, tem uma carta para você em cima da sua mesa.” “Ah! Que legal!” Não sei, pelo jeito achei que ia ganhar um aumento. Aí, pan ran ban dan… huh, humn, tomei aquele susto! “Pois é, você foi despedido!” Tá bom , fui me despedir dos amigos. Um que era repórter da Folha da Tarde de dia e de noite fazia revisão – também guitarrista de blues, um louco – me falou: “Às seis da manhã você me espera no Alemão, quero conversar com você”. O Alemão é um boteco que tem aqui na Avenida Antártica. Seis da manhã, tô no Alemão. Chegam dez pessoas me xingando. “Seu puta imbecil, o que você falou na avaliação para o cara?!” “Assim, assado.” “Fiquei sabendo que o cara te ofereceu para subir para a redação!” “Não, hum… humn”. O cara me passou um pito fodido. Aí fiquei bem desempregado mesmo, só fazia biscate, texto, pesquisa de mercado. Deve ter sido em 84.

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