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Entrevistas de música brasileira

Mauricio Pereira

Cantor e compositor Mauricio Pereira. Foto: Dafne Sampaio/Gafieiras

Mauricio Pereira

parte 10/19

O grande barato do Santa Cruz foi conhecer a literatura marxista

Max Eluard – Agora, voltando para sua história cronológica. Vamos partir da faculdade.
Pereira – Fiz faculdade sem querer. Era um “geninho”. Prestei vestibular com 16 anos. Na verdade, eu não ia prestar porque iria para um desses intercâmbios no exterior. Família de classe média tinha isso, 1975, 76. Existia um negócio chamado depósito compulsório, que para você viajar ao exterior você tinha que depositar não sei quantos mil cruzeiros ou dólares. Minha família não tinha esse dinheiro e não fui. Bom, fiz o colegial num bom colégio que era o Santa Cruz, na época um colégio de centro-esquerda, da democracia cristã.
Max Eluard – Tinha uma efervescência cultural?
Pereira – Tinha. Alguns professores foram em cana na ditadura, o padre Charboneau dava aula lá, estudava-se filosofia, lia-se Weffort, Fernando Henrique, Maria Silva de Carvalho Franco, Boris Fausto. Porra, li isso no 1º colegial! Não li nada na ECA. Fiz tudo com que li no Santa Cruz. Fiz um bom colegial de Humanas. Enfim, não fui viajar, prestei vestibular, que bosta, passei e entrei em Jornalismo. Infelizmente! Hoje eu enxergo assim: se não tivesse feito vestibular, se eu tivesse andado um ano à toa por aí, eu talvez tivesse feito melhor para a minha vida. Não tive esse vislumbre. Sozinho não teria essa cabeça. Eu era um cara que tirava notas na escola. Tirei mais uma vez. Num certo sentido, olho para trás e digo, me fodi! [risos] Quebrei a cara aparentemente me dando bem.
Almeida – Mas você já tinha um tesão por escrever?
Pereira – Já, mas não sei se era tesão em escrever, ou se toda a vez que eu estava em crise eu escrevia [risos]. Acho que desde os 5 anos de idade eu escrevo. [risos] Tinha facilidade. Sempre escrevi coisas.
Tacioli – Qual era o grande barato da época do colégio e da faculdade?
Pereira – O grande barato no tempo do Santa Cruz foi tomar contato com essa literatura marxista. Mudou o meu jeito de ver o mundo! Fiz ginásio num colégio de Estado no tempo da ditadura, o Costa Mâncio, lá no Itaim. Eu era bom em Matemática e Português, mas não tinha Humanas. Ditadura, programa Amaral Netto, meu pai tinha uns amigos que foram em cana, eu não sabia o que era ditadura, receitas no Jornal da Tarde, aquelas coisas. Mas não sei, sabia que a História podia ser vista não só como datas, mas como causas e conseqüências. Aquela coisa da dialética, instrumentos de produção, meios de trabalho, aqueles puta termos loucos, neocolonialismo, isso tudo foi no Santa Cruz. Então para mim, o contato com esses autores foi maravilhoso. Foi a coisa mais legal do tempo do colegial, porque eu era muito mais novo que todo mundo. Fui descobrir as mulheres mais para frente. E as drogas também. [risos] Já estava saindo de lá. Inclusive, foi por causa de uma mulher que completei o Jornalismo. Caso contrário não teria terminado. Apaixonei-me pela mulher, ela ia sempre lá, fui, passei. [risos]
Max Eluard – Mas em nenhum momento despertou um tesão pelo Jornalismo? Porra, como você optou por Jornalismo?
Pereira – Pelo seguinte: eu ia viajar e não viajei. Queria fazer Humanas. Comunicação? Parece legal. ECA? ECA! Na ECA tem Música, Teatro, Jornalismo, Biblioteconomia, Cinema, Relações Públicas. Legal, eu entro, no 2º ano opto. Entrei, fui ficando, ficando, conheci a mulher, ela foi para Jornalismo e eu fui atrás. Óbvio! [risos] Eu sou romântico, lambi o chão para ela enquanto foi possível. O que ela fez, eu fiz. Ela se formou, me formei. Mas é gozado porque eu tinha tido um passado de bom aluno, e na ECA fui medíocre. Não via aula, assinavam para mim, eu fazia os trabalhos sem ler os livros, fazia com o que havia lido no Santa Cruz. E gozei intelectualmente das aulas de Arte Gráfica, que o cara era muito legal, e alguma coisa de Lingüística e Semiologia, que era uma matéria que eu não conhecia e achei legal. E fiquei amigo de uns malucos que estudavam lá, como o Tadeu Jungle [n.e. Videomaker e apresentador do oitentista programa Fábrica do som, da TV Cultura] e o Walter Silveira [n.e. Videomaker e diretor de programação da TV Cultura]. Eu gostava muito deles e me agreguei a eles. Eram caras mais velhos, eu tinha 17 anos, eles vinte e tantos. O Walter conhecia os concretos, fazia poesia. E o contato com eles foi interessante porque pude ouvir músicas diferentes. Ouvi Lou Reed, que eu não conhecia, li o Caetano e o Gil de outra maneira; conheci os concretos. O que também foi legal na faculdade foi ter contato com esse tipo de maluco que existia por lá. Mas não tenho tesão por Jornalismo, embora tenha sido criado lendo muito jornal. Meu pai assinava a Folha, o Jornal da Tarde e o Estadão, ou melhor, não assinava, o jornaleiro do bairro morava perto de casa e trazia toda a noite. Meu pai era publicitário e os publicitários ganhavam revistas. Ele levava essas revistas para casa: Revista de esporte, Quatro Rodas, Capricho, Grande Hotel, Realidade,Senhor, Isto é, Veja, Dirigente Industrial. Fui criado lendo revista e jornal. Afetivamente, ler o Jornal da Tarde no fim dos 60 e 70 foi maravilhoso. No tempo em que o Mino Carta era o cara do Jornal da Tarde, com aquelas putas reportagens especiais e diagramação maravilhosa. Tinha um repórter que eu era fã pra caralho, o Marcos Faerman [n.e. Um dos principais representantes do “New Journalism” no Brasil]. Ele ia para a Calha Norte, fazia reportagem; ia para a fronteira do Sul, fazia reportagem sobre a megametrópole que iam ser Rio e São Paulo, prostitutas não sei onde. Fazia isso nos anos 70 e 80. Não tenho tesão em fazer Jornalismo, só fiz merda em Jornalismo, só bobagem! Mas tenho o maior tesão em ler jornalismo bom. E me dói ter que trocar de jornal a cada seis meses, porque hoje não tem jornal que dá tesão de ler. Revista também é difícil! Sinto falta de ler matéria de jornalista bom, do cara de texto bom, da idéia inquieta. Isso tinha demais, hoje é mais difícil, mas de vez em quando você encontra.

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