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Entrevistas de música brasileira

Mauricio Pereira

Cantor e compositor Mauricio Pereira. Foto: Dafne Sampaio/Gafieiras

Mauricio Pereira

parte 9/19

Música paulistana é pagode, sertanejo, hip hop, tecno

Sampaio – Falando em São Paulo, tem uma coisa nebulosa na minha memória. Eu já conhecia Os Mulheres Negras e aí vi uma minissérie na Globo, no final dos 80, Sampa. Foram vocês que fizeram a trilha sonora, não? E no Música serve pra isso tem “A lavadeira, o varal e a saudade” que fez parte da trilha. Como surgiu e como foi fazer a trilha dessa minissérie?
Pereira – Como tudo é casual. Por exemplo: o fato do André ser filho do Antonio Abujamra muda tudo. O fato do Peninha Schmidt ter se apaixonado pelos Mulheres Negras muda tudo. São coisas casuais. Se o Peninha não bancasse a gente não chegaríamos nem no primeiro disco. Se o Antonio Abujamra não obrigasse a Globo a ouvir Os Mulheres Negras [risos], não lançaríamos disco nenhum, não teríamos carreira. E a relativa, bem relativa importância que temos, não teríamos. Então o Roberto Talma, que é amigo do Abujamra, viu um show nosso e curtiu. Os artistas da Globo iam ver show dos Mulheres lá no Rio e achavam a gente uns putas gênios [risos gerais]. Nossa Senhora, eu não fazia nem terapia naquela época [risos]. “Vocês vão lá para o Rio e façam a trilha como vocês bem entenderem”. É gênio, né?! E deram o estúdio da SIGLA para fazermos a trilha.
Max Eluard – A série já estava pronta e aí vocês fizeram a trilha?
Pereira – Nós vimos uns pedaços. Compusemos sem ver, e o Talma foi usando.
Sampaio – Foi o Talma quem dirigiu?
Pereira – Foi o Talma quem dirigiu e o texto é do Gianfrancesco Guarnieri. Agora, o André por ser filho de um cara de teatro, que é radical como o Abujamra, ele tem muito contato com trilha. Não por acaso ele tem feito tudo de teatro e cinema. Ele está vivendo disso hoje, mais até do que o Karnak ou propaganda. Então para o André isso era com o pé nas costas. Para mim, era mais difícil. Sou basicamente, para usar a palavra do Luiz Tatit, um cancionista, embora o livro dele não fale de paulistas. [risos] [n.e. O cancionista: composição de canções no Brasil, Edusp, 1996] O Adoniran está? Não tá, não é brasileiro, por que vai estar? O livro fala de música brasileira. [risos] Eu estraguei uma palestra dele, mas foi sem querer. Quando ele lançou esse livro, um amigo meu chamado João Bandeira, que tinha programa na USP, seria o mediador da mesa no MIS onde aconteceria o debate. Estavam à mesa o [Nicolau] Sevcenko, o Luiz Tatit e o [Zé Miguel] Wisnik. Eles falaram bonito pra caralho. Esse meu amigo havia dito que esses debates no MIS eram muito frios. “Vamos fazer o seguinte: apareça por lá”. “Mas não gosto de debate!” “Não, na boa, vá lá, você faz a primeira pergunta e vai embora!” [risos gerais] Os caras falaram um monte, “Pô, Cancionista, Dorival Caymmi, canção, ciclo, tensão, clímax”. O Tom Zé também estava presente. Da mesa, o João Bandeira olhou para mim e piscou. Desci ao encontro do microfone: “Pô, Tatit, 100 anos de canção brasileira e não tem nenhum paulistano em seu livro. Isso quer dizer que a gente é um tipo de marciano, que a nossa sintaxe quebra…”, sei lá que estupidez falei. Concluí que não éramos brasileiros, que não tínhamos caráter, tudo isso que a gente já falou aqui, que não tinha identidade, que era uma mistura de todo mundo, que não prestava para nada, que as rádios nunca tocavam paulistano e paulista, o sambista era italiano, os pretos tinham sotaque de italiano, os pretos faziam música sem suingue, que é o hip hop. Não sei se naquela época já existia hip hop.
Monteiro – Em 86 a coisa já estava pegando.
Pereira – Em 80 trabalhei na LC, que é a mãe da rádio Musical e da rádio América. Eu ainda não era músico.
Max Eluard – Então volta e vem do começo, desde sua formatura em Jornalismo.
Almeida – Mas antes conclua a história do debate.
Max Eluard – É verdade! [risos]
Pereira – Aí deu uma crise de identidade na platéia inteira, que ficou puta, do tipo “Olha a pergunta desse babaca!” Lembro-me do Wisnick olhando para cima e falando “É verdade, será que nós temos problema de auto-estima?” [risos gerais] Daí falei “Pô, claro! No Rio só dão eles, as gravadoras estão lá, tudo quanto é carioca é oficial”, fui jogando fogo meio sem querer. O fato é que não se voltou mais para o Cancionista. O assunto ficou sendo a crise de identidade do paulistano, a falta de narcisismo do criador paulistano, que também é importante.
Sampaio – O Wisnick escreveu um texto, não há muito tempo, falando sobre a música paulistana.
Pereira – Mas aí depende. Quando estou falando em música paulistana, não estou pensando em Ná Ozzetti, Maurício Pereira, Arrigo Barnabé. Estou falando “o que é música paulistana?”.
Max Eluard – De essência, de conceito.
Pereira – É aquilo que eu falei, o mundo está acabando, sou um criptoamericano.Mergulhar na surpresa é um disco de rock and roll. Samba de italiano, pagode, sertanejo tipo Zezé Di Camargo, não obrigatoriamente Tonico & Tinoco, hip hop. Isso que é música de paulistano.
Tacioli – Forró universitário.
Pereira – Forró universitário. Todo tipo de Frankenstein é música paulistana. Músicas que são odiadas pela classe média e pelo bom gosto. Tenho nojo dessa expressão “bom gosto”! Mas qualquer cara que assina a revista Bravo! tem um nojo de todos esses tipos de música que estou falando, com uma exceção ou outra. Porque são músicas para as quais a expressão bom gosto não existe. São expressões do frankensteinismo.
Monteiro – Samba-rock.
Pereira – Samba-rock tem muito a ver com São Paulo. Fui dar uma canja no Clube do Balanço, cantei Branca de Neve, que não eu conhecia bem, mas ouvi mais e achei muito legal.
Tacioli – Música eletrônica também.
Pereira – Música eletrônica! Naturalíssimo ser de São Paulo. Onde mais poderia ter uma cena fashion e GLS forte senão em São Paulo, que é o único lugar onde se tem liberdade e anonimato para isso. Porra, depois de tantos anos tentando sacar a alma paulistana… Tive em Recife agora produzindo um disco de um cara de lá e é fora de casa que vejo: o que presta em São Paulo? Tudo é uma bosta, a cidade é feia, violenta, desenraizada, o caralho, mas somos criativos e afetivos, porque aqui temos os bons companheiros. Todos nós aqui temos amigos legais, sem os quais a vida aqui se torna insuportável. Olha que engraçado, falando do sagrado na obra de arte, e o sagrado está fora da canção, ele não é estética, não são notas musicais, ele é um caráter que reveste uma obra de arte. O caráter tem a ver com a vida comum. Dessa coisa de termos bons amigos em São Paulo, existe sobre a cidade um sagrado pairando! Caso contrário não agüentaríamos viver. Aqui é quase um inferno. O Rio não é assim, Natal não é, Corumbá não é! E a gente desenvolveu uma coisa espiritual, que é ir tomar uma cerveja com um mano. A expressão “mano” surgiu aqui. Não é por acaso, não é por acaso. Pela linguagem você também analisa o mundo, impressionante! Então isso é um caráter paulista! Só por isso nós temos que ter auto-estima boa, porque todo o resto é uma bosta. A cidade é feia, tudo é um cocô, isso aqui é um penico, mas nós temos sangue.
Max Eluard – Engraçado e contraditório, pois São Paulo é vista por sua dimensão desumana.
Pereira – Essa dimensão desumana obriga a gente a se agregar de alguma maneira. E parece que a gente não está se agregando, porque estamos sempre com pressa, mas tem um invisível forte aí. Você sabe que pode contar com um monte de gente. São 20 milhões de pessoas na Grande São Paulo. Você sabe que uma hora ou outra, tem dois ou três caras que são manos, manas, vão te quebrar. Você não fica na mão!
Sampaio – Essa impressão eu tive quando saí do Rio e vim para cá. Lá você conhecia e era conhecido de muito mais gente, mas não tinha amigos, que fui encontrar primeiro em Ribeirão Preto, e depois, em São Paulo.
Pereira – As pessoas no Brasil estão sacando isso. Eu vi isso lá em Recife. Estamos num lugar esquisitíssimo, mas a coisa mais delicada que existe, tem em São Paulo, e serve para a nossa sobrevivência. É louco, cara, é muito louco!

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