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Entrevistas de música brasileira

Mauricio Pereira

Cantor e compositor Mauricio Pereira. Foto: Dafne Sampaio/Gafieiras

Mauricio Pereira

parte 0/19

Olhares de um flaneur paulistano

Conheci o Mauricio Pereira em novembro de 2000, quando o convidei para compor a trilha de um documentário que eu havia produzido. Liguei, deixei recado, ele ligou de volta: “Alô, Max? Aqui é o Mauricio, tudo bom?”. Mais ou menos assim: um mano-brejeiro-zen. Então o levei à produtora para assistir ao filme e foi que ele se interessou pela feira na rua de trás; até lá fomos. Pastel, caldo de cana. Mauricio falava das pessoas da feira, das bandas de garagem do Cambuci, o som da rua e de sua fascinação pelas imagens da vida cotidiana. Mais ou menos assim: um flaneur-mano-brejeiro-zen. Ponto.

Dois anos se passaram, surgiu o Gafieiras e esta entrevista. Conversei com o Mauricio pelo telefone e sua sugestão (acatada) foi de fazermos a entrevista no SESC Pompeia. Alegou uma ligação afetiva e profissional. “Lá eles sempre nos trataram muito bem, com respeito”. Quando usou a primeira pessoa do plural, logo entendi, ele se referia a todos os músicos independentes. Marcamos às 19h30. Lá fomos nós. Aos poucos o time do Gafieiras ia chegando, todos cansados depois de um dia de trabalho, mas com disposição para entrar em campo. Mauricio demorou um bocado, chegou de cabeça raspada, camiseta, calça jeans e aquela cara de paulistano atrasado que todos já fizemos um dia.

Parafraseando Dorival Caymmi, todo mundo é paulistano, mas Mauricio Pereira é paulistano mesmo! Assim pode ser definido esse corintiano romântico de 42 anos: músico por acidente, cronista por natureza, mas paulistano acima de tudo. Maurício ficou conhecido ao protagonizar, na década de 80, com André Abujamra, Os Mulheres Negras. Em 1988 estrearam com o álbum Música e ciência, pela gravadora Warner Music. Um disco autoral e de vanguarda, sem dúvidas. Elementos eletrônicos visitavam a música brasileira em samba, funk, soul, música caipira, reggae, uma miríade de sons e sotaques musicais, uma banda tão heterogênea quanto a capital paulista. Dois anos e muitos shows depois, lançaram Música serve pra isso (Warner Music) e o crescimento musical da dupla foi bastante significativo, tão significativo que um ano depois a separação foi inevitável, sem mágoas, com direito a show de despedida.

Mauricio em carreira solo seguiu diversos rumos: fez trilha pra filme, programas de TV, produziu discos, liderou a banda Fanzine do programa homônimo exibido pela TV Cultura, colaborou em discos de Skowa, Jorge Benjor, Tetê Espíndola, foi repórter, foi o primeiro artista brasileiro a transmitir um show ao vivo pela Internet, além de lançar dois álbuns independentes. A uma hora dessas deve estar debruçado sobre o material que irá compor seu terceiro disco, este pela Lua Discos.

Maurício Galacci Pereira é mais um japonês que um gênio (como se autodenomina Tom Zé), mas um poeta trabalhador, nada de linha de montagem, trabalho duro sim, mas como um arquiteto que constrói um belo castelo carregando as pedras com as mãos. Assim vai seguindo: alimentando-se e afogando-se com a música o futuro feliz proprietário de um boteco em Pindorama.

Primeiro tentamos nos acomodar na biblioteca na área de convivência do SESC. Estava na hora de fechar e um segurança rondava-nos e dizia através do olhar desconfiado: isso vai longe? Mauricio começava a falar sobre o relançamento de seu segundo disco solo, o Mergulhar na surpresa. Ao perceber que não fazíamos menção de deixar a confortável mesa redonda, o segurança pediu que trocássemos a biblioteca pela lanchonete. Sinal de que ainda tínhamos uma hora e meia de conversa.

As batatas fritas estavam espalhadas na bandeja, a cerveja em copos de plástico, enquanto outras aguardavam num saco de supermercado com gelo ao pé da mesa (nessa altura até a lanchonete já havia encerrado o expediente), aliás, o único lugar gelado, pois a conversa seguia animada. Mauricio falava, lembrava, leve. Futebol, faculdade de Jornalismo, literatura marxista, produção independente, a música paulistana, terrorismo, timidez, a cidade, o campo, televisão, rádio, vida cotidiana, vida mundana, a fealdade e a beleza. Nada é ignorado pelo olhar de Mauricio, sua música nasce dessa visão de mundo. Mais ou menos assim: um operário-poeta-músico-flaneur-mano-brejeiro-zen.

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