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Entrevistas de música brasileira

Maria Alcina

Maria Alcina. Foto: divulgação

Maria Alcina

parte 8/27

As luzes vinham de longe. Pareciam discos voadores

Tacioli – E como era o Carnaval de Cataguases?
Dafne  Você pulava?
Maria Alcina – Não.
Tacioli – Não?
Maria Alcina – Meu pai não deixava!
Tacioli – E não havia escapadinhas?
Maria Alcina – Havia sim, lá no Clube do Remo que era perto de casa, do outro lado do rio. A gente fugia, dava um jeito de ficar um pouquinho, mas o porteiro sempre colocava a gente pra fora. Não éramos sócios, né? O porteiro sempre puxava a gente pra fora. Mas dava pra dançar um pouquinho. Havia também o clube do meu tio, irmão do meu pai. Era o Rancho Alegre. A gente também dançava um pouquinho lá. Havia um outro… e sempre dançando um pouquinho. Mas isso não me impediu de adorar o carnaval e ser uma pessoa da música.
Tacioli – E na cidade havia tradição de blocos ou escolas de samba?
Maria Alcina – Sim, sim. Hoje tem o Carnaval normal em Cataguases e sempre teve. Mas a imagem que tenho do Carnaval é de um personagem, o Paulo Santos. Ele saía dançando sozinho e tinha aquela mão que aperta assim e vai até sua cara… não sei como é que chama isso… Ele era um compositor, uma figura folclórica da cidade, um compositor ótimo, fez algumas músicas pra mim… Já faleceu. Uma vez fez uma música que falava de umas pessoas que gostavam de ficar sentadas no muro da casa de um homem rico e isso tinha sido proibido… Fez muito sucesso, falava de uma coisa que aconteceu, uma coisa histórica da cidade… E eu me lembro de estar na praça e ver uma escola de samba passar e ficar fascinada com as luzes dos carros alegóricos. Devia uma menina em formação, e aquelas luzes me encantaram. Vinham muito de longe, pareciam discos voadores. Hoje a gente lembra esse olhar romântico, lúdico, que tinha sobre as coisas. Do outro lado da praça vinham as luzes, aquele som, aquele ritmo… o Rancho Alegre, que era do meu tio, saía sempre muito mais tarde, depois de todas as escolas.
Giovanni – Rancho Alegre era um bloco?
Maria Alcina – Era de marcha-rancho. Tem uma diferença entre a escola de samba e o rancho, e como ele saía depois de todo mundo… quer dizer, passava o normal e depois vinham eles como se fossem… puxa vida, me falta a palavra… [silêncio] Não tô conseguindo achar a palavra… Eles saíam depois de todo mundo. Bem, a gente tava lá em casa, já querendo dormir, e escutava aquele som. Era o Rancho Alegre que vinha. Imagina! A gente saía correndo pra ver. Eu não saberia dizer o que era aquilo, faz muito tempo, mas eles tinham um jeito de dançar. Era marcha-rancho. As mulheres cantando, negras. Em geral eram as mulheres que cantavam. Era até um diferencial dentro do próprio Carnaval. Agora pra mim o que era interessante, mesmo quando menina, é que no Clube Social, que era o clube grã-fino da cidade e ficava na Praça Rui Barbosa, a praça principal, os ricos ficavam em cima vendo as escolas de samba passarem na rua e o pessoal das escolas fazendo reverências aos que estavam em cima… Desde então entendi o que era condição social. Pra mim isso foi muito marcante. E se você notar, mesmo hoje, em qualquer situação, tem o palanque, a escola de samba passa e sempre reverenciam… Isso foi uma coisa que sempre me pegou no Carnaval, um jeito de entender as questões sociais.

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