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Entrevistas de música brasileira

Maria Alcina

Maria Alcina. Foto: divulgação

Maria Alcina

parte 6/27

Arrumava casas, mas procurava aquelas que tinham rádio

Dafne – Você chegou no Rio em 1969?
Maria Alcina – Acho que sim, 68, 69. 1968, porque eu era de menor na época, tinha uns 17 anos. Cantava nos lugares e depois me escondia. Só consegui ser crooner mesmo uns dois anos depois quando cantei no Number One. O Solano Ribeiro me viu no Number One e me chamou pra ser lançada no Festival Internacional da Canção. Não é uma maravilha?
Dafne – Mas antes do festival você já havia gravado um compacto, né?
Maria Alcina – “Mamãe coragem” e “Azeitonas verdes”, pela Continental. “Mamãe coragem” é do Caetano [Veloso]… [cantarola] “Mamãe, mamãe não chore / A vida é assim mesmo”… e “Azeitonas”, que é do Marcus Vinicius, que tem a gravadora…
Tacioli – O Marcus Vinicius da CPC-UMES?
Maria Alcina – É. Ele participou do Festival de Cataguases. E mais intelectual impossível, né?
Tacioli – Ele foi da Discos Marcus Pereira…
Maria Alcina – É. E o interessante é que sempre tive uma vida fora daqueles padrões. Não sou intelectual, fui operária e só estudei o que foi possível. Convivia com o povo, né? Acho bacana isso de seguir sua história, sua alma.
Dafne – Mas antes de você sentir esse negócio pela música, esse chamado, como era? Você ouvia música em casa?
Maria Alcina –Lá em casa não tinha rádio porque meu pai era deficiente auditivo. Teve problemas de audição ainda jovem, mas ele era um homem de música, de banda… Em cidade do interior tem banda… Havia a banda da fábrica… Foi por isso que meus irmãos estudaram, porque a paixão dele por música era tão grande que se realizava com os filhos.
Tacioli – E o que ele tocava?
Maria Alcina – Percussão. Mas meus irmãos todos foram para os sopros. E todos estudaram porque havia a banda da fábrica.
Dafne – E eles foram tocar na banda da fábrica?
Maria Alcina – Sim. E odiavam tocar na banda da fábrica. E eu louca pra estudar, tocar, cantar, fazer qualquer coisa. E não podia. Não podia entre aspas, né? Isso é que é bacana, porque não tem nada uma coisa a ver com a outra.
Dafne – E eles seguiram?
Maria Alcina – Não, quero dizer, tenho um irmão que é da Marinha, não, da Aeronáutica, e é maestro… Quando entrou na Aeronáutica foi pro lado da música. Hoje já está aposentado.
Tacioli – Mas o que você ouvia?
Maria Alcina – Ouvia rádio da casa da vizinha. E, às vezes, trabalhava no fim de semana arrumando umas casas. Durante a semana na fábrica e no fim de semana ia fazer isso. Sempre procurava as casas que tinham rádio. E ouvia Orlando Silva, Anísio Silva, Nelson Gonçalves, Altemar Dutra… A minha formação musical se deu muito pela minha curiosidade. Não tive a facilidade que muita gente tem. Tenho um tio que ficava lá em casa de vez em quando e tinha um rádio. Ele também era músico, tocava contrabaixo, aquele enorme. Eu ficava no corredor com o ouvido na porta pra escutar as músicas. Adorava quando esse meu tio passava uma temporada lá em casa. Era a oportunidade de ouvir rádio.

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