gafieiras

gafieiras

Entrevistas de música brasileira

Maria Alcina

Maria Alcina. Foto: divulgação

Maria Alcina

parte 24/27

Disseram-me que eu havia inaugurado o samba-pornô

Tacioli – O que você fazia nessa época em que você pegava ônibus? Shows?
Maria Alcina – Sim, continuava fazendo shows. É que o show que custava X em uma época passa a custar Y em outra. Então não dá pra ficar com muita regalia.
Tacioli – Claro. Durante a década de 70 quando você sofreu com a censura, houve alguma cobrança no meio artístico de um discurso seu contra a ditadura?
Maria Alcina – Não. Por causa do meu comportamento. Existiu de compositor falar que não dava música pra mim porque eu não falava a linguagem dele.
Tacioli – Quem?
Maria Alcina – Ah, isso é bobagem! [risos] Ihhhhhhh. Enterrei com a história! [risos] Que chique! Gostou? [risos]
Tacioli – Gostei.
Maria Alcina – Enterrei com a história.
Tacioli – Mas qual era a música? [risos]
Maria Alcina – Mas eu não tinha ciência disso, não. Pra mim tava tudo bem.
Tacioli – Mas você sabia a situação pela qual o país passava, não? Você tinha consciência disso ou ela veio depois?
Maria Alcina – Tinha. Eu captava o clima, mas não tinha uma consciência intelectual daquilo. Quando cheguei no Rio tinha uns amigos que estavam naquele babado e de repente saíam correndo, passavam a mão em livro e eu não sabia o que tava acontecendo. Tava numa casa, trabalhando pra ter um quartinho pra dormir. Na música a gente percebia o que tava acontecendo. Foi um momento de ficar observando e aprendendo com toda aquela situação que tava ali. Sabia o que tava acontecendo. Também se não soubesse… tomando na cara. Quando chegou o processo… claro, o Mauro Furtado tava ali me assessorando… então, quando chegavam aquelas coisas escritas… porque eu cantava daquele jeito… Os gestos… eu nem sabia o que responder.

Maria Alcina na década de 1970. Foto: reprodução

Tacioli – Esse foi o único episódio com a censura, né?
Maria Alcina  Sim, mas aí fica a marca. E ainda vou cantar música de duplo sentido… Me lembro de uma jornalista que veio me entrevistar antes desse show de Brasília. Ela disse que eu tinha inaugurado o “samba pornô”. [risos] Fiquei indignadíssima. Mal sabia eu que na seqüência o bicho ia pegar muito mais. Nossa, quando gravei “A Espiga” então… do Pastoril do Velho Faceta eu gravei logo três: “A Espiga”, “Bacurinha” e “É mais embaixo”. Mas “A Espiga” eu gravei já pra…
Dafne – Como é mesmo a “Espiga”?
Maria Alcina – [cantarola] “E a espiga / E a espiga / E a espiga / Se eu falo na espiga / É com um certo receio / Você sabem que a espiga / Nasce cabelo no meio”… [risos] Gravei essa música em um compacto da RCA. Aí pegaram “A Espiga”. Liguei pra Brasília… Tô muito comportada, vou começar a avacalhar esse babado, tão fazendo comigo o que querem… O [Agnaldo] Timóteo era deputado na época, falei com um assessor dele que me passou pro Ricardo Cravo Albin, mas a RCA já estava com o pé atrás. E isso já é década de 80.

Tags
Maria Alcina
de 27