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Entrevistas de música brasileira

Maria Alcina

Maria Alcina. Foto: divulgação

Maria Alcina

parte 17/27

Sou de uma geração em que ou se era intelectual ou brega

Tacioli – Mas esse incidente de 74 mudou algo em seus shows, em seu repertório?
Maria Alcina  Não, eu acho que consegui driblar bem. O meu problema é o temperamento. Tenho esse temperamento. Eu me controlo pra ficar mais calma. Às vezes até fico calma uns 20 minutos do show, mas quando faltam uns 10 minutos faço aquela coisa que não era pra fazer. [risos] Às vezes é uma gargalhada fora da hora, outras é uma coisa que não era pra falar… Lembro que de vez em quando não usava calcinha porque tinha umas roupas muito justas, muito coladas ao corpo, e pra não marcar ficava sem calcinha. E sempre tinha um fotógrafo que batia e depois eu via aquela coisa na revista. [risos] Eu era aquela que promovia o exótico, o diferente. Eu me lembro de um empresário que ficava atrás de mim [ri] e perguntava toda hora, “Você tá de calça?” [ri]
Tacioli – Isso foi na década de 70?
Maria Alcina – Não, eu já tava em São Paulo. Foi na década de 80. Mas é que eu fiquei como a pessoa que causava problemas. Até o Brasil virar… porque hoje, quanto mais você fica pelada, melhor, mas até acontecer isso…
Dafne – Eu ia falar da Carmem Miranda…
Maria Alcina – [ri] Uma vez saiu uma foto minha numa dessas revistas – tipo Playboy, Vip –, uma dessas de grã-fino. [risos] Eu tava com um vestido amarelo cheio de babado e com aquela coisa preta na cara de todo mundo. A legenda trazia essa história da Carmen Miranda. Acho que o Luizinho ainda deve ter essa foto minha. [risos] Filha da puta! [risos] Uma vez eu tava fazendo um show em um navio, o Funchal – o Agnaldo Rayol adora contar essa história. Teve uma dia em que a gente estava na Hebe e ele contou… Tava lá cantando “Fio Maravilha” e todo mundo cantando junto, aí comecei a levantar a roupa. [risos] Menino! Quase fui jogada pra fora do navio! [risos] Os músicos todos se reuniram – “porque eu estudei não-sei-onde”, sabe aquela história que eu sou de categoria e você… é uma lacraia?! [risos] E pra explicar que tinha sido um acidente?
Giovanni – Por esse seu modo de cantar, você já sentiu alguma discriminação das pessoas com as quais trabalhou?
Maria Alcina  Eu sentia mais, talvez por ser mais vulnerável, mas agora… se a banda não tocar, canto sem a banda… Mas nesse dia do navio, eu senti bastante, essa coisa do “eu sou um grande músico”… Mas também acontece o contrário, de pessoas que vem trabalhar comigo achando que sou uma coisa e descobrem outra. Acho que pelo meu temperamento sempre me acharam menor. Por isso que gosto de vocês! [risos] Essa gente de Internet é tudo cabeça feita, são jovens, mas não tem esse preconceito. Eu sou de uma geração em que ou se era intelectual ou brega. É interessante essa coisa do brega. Porque ou era alta MPB…
Dafne – Chico, Caetano, Gil…
Maria Alcina – Mas quem vendia…
Dafne – Odair José, Nelson Ned, Waldick, Fernando Mendes…
Maria Alcina – Eles eram os vendedores, mas a estética, o prestígio estavam na alta MPB. Então, mesmo depois de vir de um festival internacional com uma música do Jorge Ben… porque o Jorge transita em todas, né? Hoje ele é um Deus pra nova música brasileira: o samba-rock, os rap, o funk, mas ele já passou por situações… Bem, mas quando eu saio do Festival Internacional com a música do Jorge Ben e passo a fazer mais shows, fico também numa corda bamba entre uma coisa e outra. Sempre fiquei no limbo das coisas.

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