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Entrevistas de música brasileira

Maria Alcina

Maria Alcina. Foto: divulgação

Maria Alcina

parte 16/27

Entrei com a rosa, passei no corpo, embaixo do braço e comi

Dafne – Em seu primeiro LP havia músicas nordestinas, como “Mulher rendeira” e “Paraíba”. Você cantava essas músicas na noite?
Maria Alcina – Cantava, cantava.
Dafne – E como foi o contato com elas?
Maria Alcina – Eu cantava o que me dava vontade, mas quando você ouve “Mulher rendeira” no disco é diferente. “Paraíba”, que eu cantei há 30 anos, é muito original. O remix que fizeram [n.e. Produzido por FC Nond] aproveitou muito da gravação original… é uma voz muito potente, né? Não consigo mais cantar daquele jeito. Não sei que tipo de sentimento tive na época. Eu desmanchei a música. E de onde veio isso? Dos tropicalistas. Nós aprendemos isso com eles. E não é uma questão de tempo. Não é porque hoje o mundo é moderno, tem mais recursos… o que eu gravei há 30 anos não conseguiria hoje. Sempre cantei o que me dava vontade. Por exemplo, “Bacurinha” [n.e. Música de domínio público, gravada no mesmo disco de “Prenda o Tadeu”] veio de uma pesquisa que fiz sobre o Pastoril do Velho Faceta. Queria uma música pro showPlenitude, que fiz aqui em São Paulo, pra brincar com a platéia. Eu fazia uma vedete. Aí eu recorri ao Pastoril… [cantarola] “É mais embaixo, meu véi / É mais embaixo”… e estourou também. Não se cantava músicas de duplo sentido em rede nacional.
Dafne – Como era a letra mesmo?
Maria Alcina – [cantarola] “Rapaz, mas que calor / Calor na bacurinha” [risos]… Menino, isso é um sucesso! Passa de pai pra filho. Já encontrei com gente da idade de vocês que me falou que a mãe não deixava eles me verem na TV. “Apanhei muito por sua causa”… [risos] Da geração de vocês. Eu era indecente, muito decotada, cheia de plumas e a bacurinha…
Tacioli – Por causa dessas “indecências” teve alguma história de não te deixarem cantar?
Maria Alcina – Fui censurada em 74 pelo comportamento. Eu tava em Brasília no Estádio Emílio Garrastazzu Médici [risos] em um show com o Luiz Gonzaga, o Benito di Paula… Eu estava seminua… ah, o Raul Seixas, quase ia esquecendo, de pijamas com bolinhas, doido de pedra…
Dafne – Que show era esse?
Maria Alcina – Era o show da Miss Brasil. Eu tava fazendo toda a temporada.
Giovanni – Mas foi nesse show que você devorou a rosa?
Maria Alcina – Esse show das rosas foi anterior, mas eles já estavam de olho em mim. Quando fui responder o processo vieram com essas história da rosa.
Tacioli – Que você comeu a rosa…
Maria Alcina – Entrei com a rosa, passei no corpo, embaixo do braço e comi. [risos] O [Jards] Macalé fez isso antes, em Gotham City. A gente foi bem ensinado. [risos]
Dafne – Mas como foi pra você esse episódio da censura? Complicou sua vida? Foi tenso?
Maria Alcina – Essa história da censura foi um divisor de águas… Respondi o processo e até que o tempo de censura foi pouco, mas fica a marca, principalmente no Brasil daquele tempo que ainda vivia com a ditadura. Virei uma pessoa que incomodava. Aí depois, quando gravei “Prenda o Tadeu”, diziam para controlar o gestual. Mas antes mesmo, no Maracanãzinho na época do “Fio Maravilha”, eu segurava o microfone e fingia uma masturbação. Mas fazia isso, porque fazia, achava divertido, não era nada…
Giovanni – … Premeditado. “Vou fazer esse gesto…”
Maria Alcina – Não, era uma coisa muito minha. Tenho certeza que se fosse pensar em tudo que fiz, não teria feito. E hoje quando penso muito, não faço nada. Fica uma chatice, você se torna uma chata de galochas. Não sei mais o que é que eu faço. Engraçado isso, quando você pensa muito, não faz. E vem a censura, e não é nem a de fora, é de você mesmo.

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