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Entrevistas de música brasileira

Maria Alcina

Maria Alcina. Foto: divulgação

Maria Alcina

parte 12/27

“Fio Maravilha” é um hino à liberdade

Tacioli – O surgimento do tropicalismo coincidiu sua chegada no eixo Rio-São Paulo, né?
Maria Alcina – Começou em Minas mesmo. Ouvi o disco Tropicália lá em Minas e também tudo o que a gente via dessas pessoas. Minha geração foi uma geração que aprendeu e se criou artisticamente influenciada por todo esse movimento. E todo o resto da música brasileira, nada ficava em branco. Mas aí havia a ditadura. Eu sou uma cantora que começa cantar em 1972 no Maracanãzinho, no auge da ditadura. Tinha gestos que eu fazia que a direção do festival falava que não era pra fazer, que a Censura tava de olho. Em 1974 fui proibida em todo território nacional… É uma bela história, meu bem! Ih, dá um livro, um capítulo à parte… [risos]
Dafne – E o festival? Você escolheu “Fio Maravilha” por ser uma música…
Maria Alcina – … que mexia com a plateia. Tinha que mexer com alguma coisa. Aliás, os festivais eram o momento de mexer, eram o momento da atitude, né? E hoje você encontra isso no rap. O rap é a música de atitude agora.
Tacioli – Você ficou em dúvida entre “Fio Maravilha” e alguma outra música?
Maria Alcina – “Cabeça”, do Walter Franco.
Dafne – Olha!
Maria Alcina – Não sou fraca, não! [risos] E foram as duas que mexeram com o festival. [toca o interfone] Bem, o “Fio Maravilha” era sobre um jogador, um personagem vivo que tava ali, presente. Isso já é muito doido. Jorge Ben foi muito doido de fazer essa música sobre um jogador. E futebol já é uma coisa que naturalmente mexe com o povo.
Dafne – Você já conhecia o Jorge Ben?
Maria Alcina – De nome, mas não tinha contato com ele. Conhecia como compositor.
Dafne – Gostava dele?
Maria Alcina – Sim, claro. E aí vem uma coisa de identificação que não se sabe de onde vem.
Tacioli – Você cantava músicas dele antes?
Maria Alcina – Cantava. “Bananeira”, lembro bem… [cantarola] “Olha a banana / Olha o bananeiro”… [n.e. Na verdade a música se chama “Vendedor de bananas”], tocando violão. Na época eu tocava violão. Quando peguei “Fio Maravilha” pra cantar fui pesquisar a plástica do futebol, os jogadores… Pensei, “Tenho que cantar essa música como se estivesse fazendo o gol, quando o jogador pula. É no ar que tenho que cantar”.
Tacioli – Isso determinou o seu gestual.
Maria Alcina – Determinou aquela interpretação. Caso contrário seria a interpretação dele. “Fio Maravilha” é um hino à liberdade, até hoje. Quando se canta essa música todo mundo pula, dança, levanta a mão.

Tacioli – Você se lembra de seu primeiro contato com ele?
Maria Alcina – Tive contato com ele somente depois do festival. Eu cantava na noite, já fazia algum sucesso, e ele… nessa época, no Rio de Janeiro, tinha o Pujol, uma série de boites em que aconteciam grandes shows. Leny Andrade numa, Osmar Milito na outra, Jorge Ben… De repente, lá na Number One, a Elis Regina apareceu e cantou. Eu vi isso lá. Todos os grandes cantores passaram pela Number One.
Giovanni – E quanto tempo você ficou no Number One?
Maria Alcina – Antes do “Fio Maravilha”, uns seis meses, e depois continuei. Não mudei por causa do sucesso do festival e olha que lotei o Number One depois. Inclusive não tive nem o tino comercial de aproveitar esse sucesso. Mas também era uma outra época. Hoje quando aparece um cantor na TV, ele já vendeu milhões de discos. Saiu o disco ontem e ele aparece hoje na TV falando que vendeu milhões. E vendeu mesmo! Hoje o sucesso é industrial. Naquela época havia a ditadura. Ia ter sucesso como? Vocês são de uma geração que observa a história. Tem o pessoal do mercado mais aberto que fica sempre perguntado, “Que aconteceu com sua carreira?”, nhem nhem nhem, enchendo o saco [risos]… Porra, a história fala por si, ela tem um papel nos acontecimentos da vida do indivíduo, do seu país, sua cultura… e não observar isso é pelo menos uma indelicadeza.

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