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Entrevistas de música brasileira

Maria Alcina

Maria Alcina. Foto: divulgação

Maria Alcina

parte 11/27

O Gil é minha primeira referência musical pra observar o mundo

Tacioli – E de onde vem esse seu gestual de palco?
Maria Alcina – Ah, isso eu acho que é porque sou negra, família negra, batuqueira, Rancho Alegre… Aí entra toda essa coisa do Carnaval e da família do meu pai. É o sentimento da música, falo muito pelo sentimento da música.
Tacioli – E esse sentimento sofreu acréscimos de outras influências? Algum artista que você conheceu quando chegou no Rio? A Carmen já estava presente nesse seu início de carreira?
Maria Alcina – Já, porque logo depois que lancei “Fio maravilha”, gravei “Alô, alô”. Eu cantava no show, mas fui pesquisar, não tinha tanta informação. Acho que quando encontro o Jorge Ben… porque quando escolho o “Fio maravilha” pra cantar tem aí uma identificação natural.
Dafne – Como foi a escolha do “Fio maravilha”? Deram ou foi você quem escolheu?
Maria Alcina – Quando o Solano [Ribeiro] me chamou pra participar, me deu a liberdade para escolher a música ouvindo as várias inscritas no festival. Queria uma música que mexesse com a platéia. Não queria ser apenas uma cantora, nunca fui. Mas sabe o que eu acho, de verdade, quem influenciou toda a minha geração foram os tropicalistas. Porque você pega os grande cantores da Rádio Nacional, a bossa nova, a jovem guarda e aí vem o tropicalismo. Quando fui cantar no Festival do Audiovisual, em Cataguases, o visual era aquela roupa da Gal [Costa], as batas. Quando canto “Roda”, eu tô ligada no Gilberto Gil. Eu cantava bossa nova… não, mentira, bossa nova foi um tipo de música que nunca cantei. Cantava jovem guarda… Havia um rapaz na minha terra, olha que chique, que cantava com uma voz fininha. Então a gente fazia uma dupla Leno & Lilian em um programa de rádio na cidade. Olha, começa a mexer, vem tudo. A gente vai lembrando aos pouquinhos.
Dafne – Você era o Leno e ele a Lilian… [risos]
Maria Alcina – Quase isso! [risos] Já era Maria Alcina e Ney Matogrosso às avessas! [risos] Marcílio era o nome dele. Ele tinha uma voz bem fininha.
Tacioli – Marcílio do quê?
Maria Alcina – Só lembro de Marcílio. A voz dele era feminina, soprano. Ele cantava aquela música do Marcelino, pão e vinho. Sabe? Ele cantava aquelas músicas do filme, fazia o maior sucesso. Lotava teatros e cinema, aliás. Fui vê-lo no cinema. Depois a gente se encontrou. Cantávamos Leno & Lilian. Mas quando ouvi “Procissão”, do Gilberto Gil, vi que havia mais coisa ali além do “Pobre menina”, da Jovem Guarda. Era mais a minha pegada. Gil é uma influência radical na minha vida. Poxa, uma operária de fábrica cantando “Pobre menina”? Não combina. Com essa voz! E com a essa vivência social que eu tinha… O Gil é a minha primeira grande referência musical pra observar o mundo.

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