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Entrevistas de música brasileira

Maria Alcina

Maria Alcina. Foto: divulgação

Maria Alcina

parte 10/27

Minha vida profissional começa por causa da Leila Diniz

Tacioli – O que lhe chamou a atenção no Rio de Janeiro? Que imagem você tinha do Rio?
Maria Alcina – Puxa vida, agora eu não lembraria. Sabe o que acontece comigo? Eu tô sempre nos lugares por causa da sobrevivência. Eu sobrevivo primeiro pra depois ver o que… [ri]. É quase uma tragédia, né? [risos] Lembro que cheguei na praia de noite. [risos] Não vi o mar, só ouvi o barulho. “Quer dizer que esse é o mar que falaram?” Depois é que eu vi o mar. Posso falar do Rio de Janeiro assim… Fiquei no Rio sem minha família, sem irmãos, conhecendo pessoas novas e por uma questão de sobrevivência. Mas era um Rio que você podia andar na rua, podia entrar numa boite e sair tranqüilo, não havia maldade. Vivi uma vida sem maldade no Rio de Janeiro. Posso responder pra você isso hoje depois de todo tempo que passou. Há coisas que me encantaram, mas agora no momento não lembro. Teve essa chegada e também a convivência com todas aquelas pessoas… de Leila Diniz à Ipanema, aquele burburinho… Aliás, a minha vida profissional começa por causa da Leila Diniz. Porque nessas idas e vindas em busca de um lugar pra cantar – eu não conseguia cantar nem na Praça Mauá, nem em puteiro! Verdade! Porque eu me mexia muito, me movimentava muito e o dono da casa não quis. Não conseguia lugar pra ser crooner. Nessa época, ela fazia Vem de ré que eu estou de primeira no Teatro Casa Grande. Foi o último espetáculo dela, escrita pelo Tarso de Castro. Era uma revistona, a Dalva de Oliveira também tava, todo mundo ali… E eu consegui um lugar naquele espetáculo. Disseram que eu era feia… Olha que chique! [risos] Que minha voz era mais grave que todo mundo do elenco junto! [risos] Mas teve um dia em que ela estava lá com o Chico Buarque e machucou o pé, quebrou o pé, e eles improvisaram o show. Aí chegaram pra mim… “Vai lá, Alcina, canta lá, cê tá todo dia aí”… “Agora é minha hora!” Aí cantei “Baby” e “Asa branca”. Cantei assim pra… [gravador de fita cassete anuncia fim da fita]. Até parou! Olha, até isso! [risos] Virando a página. Todo mundo gostou, o Tarso de Castro… e falaram para eu ir dar uma canja na Number One, que era a boite da moda, Osmar Milito no piano, uma maravilha. No elenco da peça tinha um transformista e o dono da casa achou que era o transformista que tava cantando. Aí quando ele olhou e viu que era uma mulher – eu era magrinha, uma vara-tripa –, me contratou na hora. Colocaram o Maestro Severino Filho pra arregimentar os músicos e começamos a fazer um show. O Solano Ribeiro me viu e me chamou pra cantar no festival.

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