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Entrevistas de música brasileira

Maria Alcina

Maria Alcina. Foto: divulgação

Maria Alcina

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Onde foi parar a fantasia?

O que se espera de uma entrevista quando o nome é o de Maria Alcina? Que imagens vêm à cabeça? O que sobrou na memória da geração dos trinta e tantos anos que, crianças à frente de qualquer programa de auditório – Bolinha, Barros de Alencar, Chacrinha, Silvio Santos – gargalhavam daquela figura emplumada que cantava e que se saracoteava toda? E as gerações anteriores, contemporânea e predecessoras, será que ainda caminham sobre o barbante que amarrava a MPB setentista com a emergente música brega?

Foi em 2003. Antes mesmo da Mônica Salmaso. Entrevista de meio da tarde, atípica, mas não para aqueles entrevistadores desprovidos de atividade remunerada estável. E foi à frente do prédio de estatura mediana fincado no bairro de Santa Cecília, próximo ao Teatro São Pedro, que nos deparamos com a entrevistada. Nua. E ligeira.

Na sala do apartamento do amigo e produtor Cervantes vimos outra mulher. Disposta e paramentada, Maria Alcina sorria debaixo de quilos de penas azuladas. E foi ali, naqueles 12 metros quadrados, que nos esprememos com Cataguases, Fio Maravilha, Tadeu, Jorge Ben, Ney Matogrosso e Gasparetto. Ali também foi que descobrimos que o bom humor que se prorroga nas parafernálias que carrega às vezes borra os contornos de uma artista vigorosa.

Ela mesma já não esconde isso. Não tem mais fantasias. A carreira, que teve um início retumbante, lhe pregou peças e, aos poucos, empalideceu suas maquiagens. Ciente da fragilidade do sucesso, reorientou sua vida pessoal, mantendo o guarda-roupa intacto. Herdeira estética de Carmen Miranda, Maria Alcina parece que encontrou aquela moça festeira de Cataguases, que se encantava com ranchos e sambulantes. Seu vigor artístico sempre esteve na eterna e ingênua provocação – a fuga de casa para cantar, as letras de duplo sentido, o vozeirão de travesti, o rebolado sem prumo, a rebeldia inconsciente.

E essa necessidade de se provocar, fez de Maria Alcina uma artista nova. Hoje, ao mesmo tempo em que grava com um grupo de rap, estende sua caixa acústica para os eletrônicos do Bojo e permite aquecer sua voz à beira de um violão, num ensaio para Internet. “Tá rolando comigo uma grande maturidade, de me expor como uma profissional”, afirmou. Essa descoberta, 34 anos depois de sua primeira gravação em disco, é para ser ouvida e assistida e degustada.

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