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Entrevistas de música brasileira

Luiz Tatit

Luiz Tatit por João Correia/Gafieiras

Luiz Tatit

parte 8/18

O rap é a canção pura

Tacioli  Luiz, se você tivesse ouvido antes sambas-de-breque, como os de Jorge Veiga, Moreira da Silva –, esse insight teria vindo antes?
Luiz Tatit  Daí, retrospectivamente, quando fui ver isso houve quase uma avaliação retroativa de tudo que eu já conhecia: o samba-de-breque era uma das poucas concessões que havia na história da música reconhecimento de que a entoação estava por trás (de tudo), (que) era uma concessão. Como, agora, temos o rap, que é uma concessão monstruosa, como quem diz “Realmente, canção é fala”. Eles (os rappers) ficam praticamente só na fala; eles até abolem todos os aspectos românticos… Daí fui estudar direitinho o que que é você sair da entoação e criar matrizes às vezes de repetição nas músicas mais aceleradas. Sempre a letra acaba dizendo que você está feliz com as coisas, com os objetos e tal… [risos] A maioria das músicas rápidas que têm motivos recorrentes na melodia, a letra fala de grandes conjunções, de grandes felicidades. Quer dizer, você não está atrás de nada, você desacelera, a música fica lenta e a melodia começa a ir atrás de coisas, ou seja, não repete, começa a fazer percursos inéditos. A música é romântica e tem separação.
Dafne   Deu alguma bosta!
Luiz Tatit  Exatamente! [risos]
Tacioli  Gillette está na mão! [risos]
Luiz Tatit  Exatamente. Tem sentimento de falta e esse sentimento precisa ser reparado; então, toda a produção do Milton Nascimento, do Roberto Carlos, do Djavan, desse pessoal, são músicas de distância do objeto. Então, você começa a perceber que depois você tem uma fase de fixação que pode tanto ir pra um lado, que é o lado mais temático, ou o lado mais passional e sempre por trás a fala. A fala está por trás das duas possibilidades e, às vezes, você pode deixar a fala crua aparecendo, como fazia o Noel Rosa em “Conversa de botequim”. Quase que a fala crua fica lá sem… A música não é nem passional nem propriamente temática no sentido de conjunção, é uma música que tem alguém falando “Seu garçom faz o favor de me trazer depressa”. Quer dizer, alguém falando realmente. Então, a canção se apoia nesse tripé, só que isso vim a estabelecer já nos anos 1980. Nesse começo era entoação, era essa a nossa “mensagem”, né, a origem, “nós vamos mexer nisso”. Então, o insight inicial veio disso.
Max Eluard  Alguns afirmam que o rap é a prova de que a canção morreu. Na sua visão, é exatamente o contrário?
Luiz Tatit  É o contrário, é o contrário. É a prova de que…
Max Eluard  É a exacerbação, né?
Luiz Tatit  Exatamente, é a canção pura. É a canção pura sem haver passionalização, porque não tem desenvolvimento melódico… Por isso o rap não pode falar de amor, não tem desenvolvimento melódico pra falar de amor, não tem sofrimento.
Max Eluard  Não tem sentimento?
Luiz Tatit  Sentimento no sentido de perda, né, não tem isso. Qual é a ideologia que está por trás do rap? Reclamar, é fazer reivindicação, é mandar mensagem verbal; é como se fosse a conversa de botequim, só que eles não estão fazendo graça, eles estão fazendo denúncias. Denúncia é gente falando, então, tem que ficar próximo da fala. Se você começa a melodizar aquilo que está sendo dito começa haver emoção, daí não passa o conteúdo que eles estão querendo, você não presta atenção na letra.
Dafne  Fica na emoção?
Luiz Tatit  Fica na emoção. Então, é explícito…

Tacioli  Mas seria irreverente ter esse discurso de denúncia, mas sob a temática amorosa?
Luiz Tatit  Você pode temperar. Por exemplo, quem faz isso é o Gabriel O Pensador. Ele tempera, ele faz um rap como os outros – não é um rap tão autêntico como o dos Racionais, mas é um rap –, mas, de repente, ele gosta de passar uma certa ternura [risos], então, daí, imediatamente melodiza. [canta] “Maresia/ Sente a maresia” já começa a estender as notas pra ter emoção… Esse tipo de emoção não dá pra ter fazendo denúncia [embroma um rap]…
Tacioli  [ensaia um rap] “Você me traiu, não-sei-o-quê…”. [risos]
Luiz Tatit  Exato, não convence, você percebe? Tem que ter compatibilidade entre melodia e letra.
Dafne  Acho que tem um grupo aqui de São Paulo que foi o primeiro que eu ouvi fazer alguma parecida com isso…
Tacioli  Com um rap romântico?
Dafne  Não chega a ser um rap romântico… O grupo se chama Ca.Ge.Be, “Cada gênio do beco”. Acho que é o primeiro grupo brasileiro a usar samplers de canções populares dos anos 1970, como as de Paulo Sergio. E de alguma forma já conseguem fazer algumas coisas de amor mesmo, mas talvez por causa dessas bases românticas. [n.e. O cantor e compositor Paulo Sergio, 1944-1981, surgiu na década de 1960 como “imitador de Roberto Carlos”, consagrando-se nos anos 1970 como um dos ídolos da “música cafona”]
Luiz Tatit  Quase que seria, a meu ver, um encaminhamento obrigatório, porque se você ficar só na denúncia, você fica num estilo muito reduzido. Pra uma música ou pra uma série delas pode funcionar, mas depois de vários discos a denúncia vai perdendo. Você tem que acabar utilizando esse tripé, ou pelo menos fazer uso um pouco dele, seja no começo, seja no fim, você se dirige pra isso. No começo, nós mesmos no Rumo apoiávamos sobretudo a entoação, mas aos poucos as músicas foram ficando mais românticas, foram ficando também mais temáticas pra ter mais percussão e tal… Quero dizer, não tem como você fugir. Por isso que é a linguagem da canção, percebe, essa é a grande questão… Daí, evidentemente pra teorizar isso você precisa ter outros instrumentos. Pra mim, por exemplo, foi muito útil a semiótica de maneira geral. Porque a semiótica oferece, pra gente que vai analisar, alguns instrumentos pra se entender construção do sentido, sentido na sua acepção mais ampla. E daí, com isso, o meu trabalho foi exatamente adaptar isso pra canção. Então você consegue descobrir coisas como essa que eu estou falando pra vocês, esse tripé que dá apoio à linguagem da canção, e consegue até formalizar um modelo para outras pessoas usarem e poderem aplicar. Então, de qualquer forma, só isso já me bastaria… Eu tinha esse projeto, na verdade, de chegar nesse modelo, isso do ponto de vista da pesquisa, e como eu gosto também de canção gostaria de poder colaborar fazendo minhas composições. Hoje eu só faço composição, não estou mais com projeto musical de trazer nenhuma novidade. Meu projeto é compor na linha que eu inaugurei, só isso; e, na pesquisa, aprimorar este modelo. São as duas coisas que eu acabei levando até um estágio bom – a gente nunca termina isso, né?! Então, levei até um estágio bom, agora os outros devem (seguir)… Eu estou cultivando. Enquanto eu puder vou continuar, mas eu sei que isso aqui fica às vezes alunos que fazem pós (graduação), que fazem doutorado.

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