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Entrevistas de música brasileira

Luiz Tatit

Luiz Tatit por João Correia/Gafieiras

Luiz Tatit

parte 7/18

"Será que toda música popular não é calcada na entoação?"

Dafne  O insight da entoação como surgiu?
Luiz Tatit  Na verdade, nós estávamos nessa busca… Isso aí eu relato n’O cancionista. [n.e. Livro de Luiz Tatit lançado em 1995 em que estuda a obra de 11 compositores brasileiros, de Noel Rosa, Lupicínio Rodrigues e Luiz Gonzaga a Roberto Carlos, Jorge Ben e Chico Buarque] Tem ali um parágrafo que é exatamente sobre isso, é rápido mas é correto aquilo. Nós estávamos já com o Rumo nessa busca de alguma coisa essencial e tal…
Dafne  Ainda era o Rumo da Música Popular?
Luiz Tatit  Não, não, sempre foi Rumo. Ah, sim, era Rumo de Música Popular, era maior. Depois, pelo próprio hábito, começaram a chamar (o grupo de) Rumo, porque era muito longo o nome (original), quase o nome de uma conferência, né?! [risos] Daí começaram a chamar (o grupo) somente pelo primeiro e foi ficando Rumo. Na verdade, nós não tínhamos projeto de carreira, então era o nome de uma conferência mesmo porque no fundo nós estávamos trazendo uma ideia e não propriamente uma música; era uma ideia, com discussão, com tudo. Era esse o espírito da época! Daí eu me lembro que nós fomos pra um sítio depois de Sorocaba para fazer ensaios – era um jeito de se retirar um pouco para ensaiar – e eu não parava de ouvir as canções tentando chegar numa espécie de uma tese pra defender ali. E eu me lembro de ouvindo uma canção, era até uma canção cantada pelo (Gilberto) Gil – nós tínhamos uma fita que até hoje é raríssima, que foi daquele show da Poli que ele fez logo que ele (e o Caetano Veloso) chegaram do exílio em 1972. O Gil pegou um violão e foi lá pra Poli e fez um show maravilhoso, como talvez ele nunca tenha feito na vida. Ele estava tocando 48 horas por… Era uma coisa! [n.e. Show realizado na Escola Politécnica, da Universidade de São Paulo (USP), em 1973] O que ele se dedicava ao violão era uma coisa que eu nunca tinha visto. Ele estava tocando um violão que lembra um pouco o João Bosco atualmente. João Bosco toca muito bem, se aproxima um pouco do que estava tocando o Gil naquela época. Era uma coisa! E nós que tocávamos e gostávamos do instrumento parecia que era outro instrumento. A gente não conseguia saber como é que ele fazia aquilo. Uma coisa impressionante! Então, todos nós que assistimos a esse show saímos de lá (boquiabertos)… Ele até percebeu, eu me lembro dele, porque estava todo mundo assim na mãe dele, ali, e ele conversando com a plateia… Tocando, ele dava risada até por ver a admiração das pessoas pelo que ele estava fazendo. Então era uma coisa! Foi um encanto aquele show do Gil! Bom, aquela fita a gente ouvia à exaustão! [risos] A gente estava aprendendo a tocar outra vez com aquela fita, né?! Essa fita foi gravada pelo Grêmio da Poli e nós tínhamos colegas ali que passaram pra todos, sobretudo para aqueles que lidavam com música. Aquilo virou quase que uma coisa esotérica! Quem conhecia sabia das coisas [ri], quem não conhecia não sabia o que era música popular. Era um negócio fora do sério!

Bom, ouvindo essa fita, um dos sambas que ele canta era aquele “Minha nega na janela”, que o Germano Mathias tinha imortalizado. [n.e. Parceria com Noca, este samba foi lançado pelo autor Germano Mathias em 1956] Ele tocava aquela música de um jeito que parecia brincadeira… Daí comecei a observar: eu já tinha ouvido muito violão, eu estudei a maneira dele cantar e foi exatamente o insight: “Será que toda música popular não é calcada na entoação e não somente como a gente estava fazendo?”. A gente estava chegando a um modelo de cantar meio falado, mas a gente começou a perceber que no fundo todas as melodias tinham essa procedência e depois eram musicalizadas, ou seja, inclusive a dureza que ficava da entoação era atenuada porque entravam os acordes, a afinação ficava mais regularizada e tal… E o Gil, na maneira dele cantar, deixava tudo puro. Era ele falando com o violão o tempo todo, e o violão ainda tentando representar paralelamente as entoações dele. Aquilo era uma coisa impressionante. Ah, meu, aquilo lá foi pra mim… Eu me lembro de ficar sem dormir nesse dia. Falei “Poxa, então está aqui o lance que eu estava procurando!”. Daí comecei a comentar com os caras, sobretudo com o Hélio [Ziskind] – o Hélio era a pessoa que mais conversava comigo naquele momento sobre isso – e a gente ficou aquela noite inteira conversando sobre essa história. Daí veio pra cá e eu continuei com essa história. Voltamos a fazer shows e já voltamos a falar sobre isso no show. Enfim, virou o nosso lance naquele momento. Daí comecei a testar tudo que dava pra fazer nessa linha, tanto que meu violão ficou um violão diferente também: é um violão que tenta pegar as entoações sejam elas quais forem, né? Da forma até às vezes crua, sobretudo o violão das músicas dessa época. Então, as músicas ficavam esquisitas mas, ao mesmo tempo, todo mundo reconhecia uma maneira de dizer, e, às vezes, achavam engraçadas. Daí começou essa história de dar risada de música da gente; a gente não estava fazendo graça. [risos] A gente não estava fazendo graça, a gente estava mostrando uma maneira de compor… O Premê [Premeditando o Breque], sim, era um grupo de humor. Nós não éramos um grupo de humor e, no entanto, era um tal de dar risada no show. A gente começou a perceber que aquilo lá era engraçado porque explicitava a entoação que todos tinham, e até nos sambas isso também era engraçado quando o samba era de breque. O samba era de breque daí já tinha a graça, né?! Então, é interessante esse lado: essa graça já vinha de mais tempo, inclusive os autores, já sabendo disso, faziam sambas engraçados mesmo, como os sambas do Billy Blanco e do próprio Noel. [n.e. Paraense de Belém, William Blanco Abrunhosa Trindade, conhecido como Billy Blanco, 1924-2011, foi parceiro de Dolores Duran e Tom Jobim, e autor de sucessos como “Tereza da Praia”, “Estatuto de gafieira” e “Mocinho bonito”] Tudo porque justamente tinha uma maneira de dizer. A gente só é engraçada quando está dizendo coisa, não quando está fazendo música…
Dafne Sampaio  Quando está cantando…
Luiz Tatit  Exatamente.

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