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Entrevistas de música brasileira

Luiz Tatit

Luiz Tatit por João Correia/Gafieiras

Luiz Tatit

parte 5/18

Compus 200 canções antes do Rumo

Max Eluard  Luiz, mas mesmo pra você esse espaço que a música ocupou e vinha ocupando nos intervalos da vida acadêmica, isso também mudou. Hoje a proporção deve ser diferente…
Luiz Tatit Ah, sim. Hoje eu lido muito mais com música do que lidava antigamente. Antigamente eu lidava por empreitada, assim: ia fazendo o disco, largava tudo e ficava um pouco naquilo; normalmente aproveitava o período de férias. Agora, não, sobretudo depois das parcerias… Comecei a fazer muita parceria – quase sou solicitado a fazer canção o ano inteiro, nem que seja um pouquinho, um pouquinho…
Max Eluard  São os músicos que te procuram?
Luiz Tatit  Normalmente são compositores. Na verdade, são praticamente os mesmos, né? De repente alguém manda. E eu mesmo acabo evitando fazer muita parceria porque não posso dar conta disso, senão a parte da universidade fica um pouco prejudicada. Então, vou selecionando. Na verdade, vou ficando só com os mesmos. Já faz tempo que é mais ou menos a mesma turma com a qual (faço música)… É pouca gente que me manda a música e eu faço mesmo; outras eu dou uma olhada, às vezes me encanto com a melodia, mas não é habitual.
Tacioli  Você falou das primeiras composições na época de colégio. Você lembra das primeiras letras ao piano ou de alguma coisa desse período?
Luiz Tatit  Lembro. Há coisas que ficaram na minha cabeça, né? E eu me lembro que era uma tentativa de uma letra, um pouco mais justaposta, talvez até por influência de coisas que eu ouvia do Tropicalismo, porque o Tropicalismo trouxe uma forma de composição em que você abandona um pouco a narrativa, né; você tem imagens que são sobrepostas que hoje virou norma, hoje é norma de fazer (música assim). Ficou até mais fácil para os compositores porque, pra não precisar chegar num produto coerente, você associa imagem e já é o suficiente. A canção funciona bem desse jeito, porque a melodia está garantindo a emoção por trás. Não há necessidade de você criar uma coerência na letra. Isso estava começando naquela época e eu me lembro de ir muito por esse viés de aproximações de frases que hoje eu jamais aceitaria, mas… [risos]
Tacioli  Mas abre seu coração, Luiz, como era a canção?
Dafne – Você lembra da letra?
Luiz Tatit  Lembro. Eu me lembro de uma que ganhou um festival intercolegial que eu havia feito pro Roberto Lazarini. Roberto Lazarini é musico, tem estúdio, tudo aí até hoje. É um bom músico. E ele era da minha classe, da minha sala de aula. Eu me lembro dele me trazer uma música que ficava entre uma conduta erudita – porque ele era pianista – mas também era repetitiva e dava pra fazer alguma coisa mais ligada à música popular. Lembro-me que eu cheguei a fazer a segunda parte, quero dizer, pus letra nessa melodia dele e criei uma segunda parte com melodia e letra pra ficar um pouco menos com aquele ritual de musica erudita, né?! Chama-se “Espelho dourado”. Era uma letra mais ou menos assim [canta]: Estou perdendo o espelho dourado / Esticado / Eu disse que vinha te ver / E trazer os dois modos de ser / E deitar em seu quarto sem reconhecer / Um romantismo na praia não convém que se espalhe e chamar a atenção / Respirar de repente amarrado no chão / E uma nuvem escondendo tão longe da mão”. Era mais ou menos assim… [risos] Então, eram associações de ideias que vinham, que tinham rima. Era assim que a gente fazia letra. Eu cheguei a compor 200 canções antes de começar o Rumo, isso até 1971-72. Com a proposta de compor a partir da entoação, eu abandonei todas e comecei tudo outra vez. Eu me lembro até de ter gravado num cassete as canções, porque eu falei “Essas eu nunca mais vou cantar”. Essa aqui é uma. [risos]
Max Eluard  Mas me parece que já tem o gene do que veio com o Rumo. Você não vê assim?
Luiz Tatit  Até que, na verdade, é modo de compor normal. O que nós fazíamos era exatamente o que a gente via na televisão; a gente compunha mais ou menos do mesmo jeito, não era muito diferente. Até a mesma imaturidade da música às vezes coincidia com a imaturidade que estava rolando também na televisão, né, não era muito diferente. Depois com o Rumo, as músicas ficaram mais difíceis de fazer, porque a gente tentava justamente escapar dessas grades que já estão previamente montadas pra você compor. Então, a entoação aparecia pura. Daí era difícil de você lembrar, porque a linguagem da fala tem essa característica: ela é extremamente criativa, ela vai pra qualquer lado, não tem definição de compasso, não tem nada, mas também é facílima de você esquecê-la porque você não tem onde a fixar. Então, ou você grava num gravadorzinho auxiliar pra não perder, ou você pode também marcar algumas partes do instrumento, né… Tem várias maneiras de você tentar se lembrar depois. Se você der um tempinho sem algum registro, como essas coisas que a gente compõe são muito próximas da fala, você perde, você descarta.
Tacioli  Se foi fumar um cigarro, já era.
Luiz Tatit – Dançou! Um cara como o Jorge Ben Jor compõe assim direto até hoje. Uma vez eu vi uma declaração dele sobre isso: “Se eu vou almoçar e não gravei o que eu fiz, esqueci.” Claro, é uma coisa que tá muito próximo da fala, não sabe quais foram os caminhos melódicos que foram traçados. A entoação da gente é feita pra ser descartada… Imagina se a gente fosse lembrar da melodia quando está se falando. Ela é feita pra ser descartada. Então, se a gente fica muito próximo da entoação, a música é descartada. Você precisa encontrar elementos para fixar as melodias, e essa era dificuldade do Rumo. Eu usava muito gravador para não esquecer daquilo. Até o próprio instrumento era suficiente pra fixar (a melodia). Não adianta partitura porque não eram notas exatas, era rodeando as notas… Então, não tinha como registrar, é difícil. E isso é um problema. Os sambas, sobretudo quando são mais requintados, é difícil lembrar daquilo; eles não obedecem muito cabeça de compasso, nada, porque são feitos a partir da fala também. Até ter consciência disso, que se faz canção desse jeito, (leva tempo)… Por isso que eu digo que é difícil para o músico. Músico tende a organizar os compassos e fazer um material extremamente fixado. Normalmente se camufla a entoação se ela está por trás, não é?

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