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Entrevistas de música brasileira

Luiz Tatit

Luiz Tatit por João Correia/Gafieiras

Luiz Tatit

parte 4/18

Nunca senti a música como profissão

Dafne  O seu aprendizado de violão começou cedo, com 11, 12 anos…
Luiz Tatit  É, foi por aí.
Dafne  Isso então foi em meados dos anos 1960, Jovem Guarda. Como foi esse aprendizado? Começou na rua e tal, mas como ele foi caminhando?
Luiz Tatit  Tirando do alto-falante! Não era estéreo, era mono. Então os aparelhos tinham um alto-falante só. A gente tentava ouvir ali os acordes, (descobrir) quais eram. Por isso que eu digo que (as músicas da) Jovem Guarda era facílimo de tirar: pegava a linha do baixo e já tirava a música inteira. Então, aquele alto-falante era péssimo mas a gente conseguia, já tinha prática de ouvir o baixo que estava por trás de uma certa forma; ele dava a nota fundamental pra gente tirar o resto da música. E foi assim… Depois, quando viemos pra cá – já tinha uns 15 anos, já morávamos nessa casa aqui –, tivemos alunos durante uns 10, 12 anos. Eu dava aula nesse recinto aqui. Então, a gente tirava quase tudo o que se fazia para passar para os alunos… Músicas complicadíssimas, Gilberto Gil com dois violões, João Gilberto inteirinho. Era tirar a música de ouvido completamente; ninguém escrevia música. Eu fui aprender a lidar com partitura, essas coisas, na faculdade. Aliás, aprendi só pra fazer a faculdade, nunca mais usei depois. Nunca mais! Nesse sentido foi bom porque depois fui teorizar um pouco sobre isso; é bom saber do que se trata, mas somente nesse sentido.
Max Eluard  A experiência da criação veio junto ou em um momento posterior?
Luiz Tatit  A gente imitava um pouco a maneira de compor do pessoal que participava dos festivais. Isso era muito importante naquele momento. A gente se empolgava, torcia como fosse jogo de futebol. Era forte isso! A música era muito centrada na Record. Era fácil se envolver com música naquele momento porque ela estava toda dentro de uma emissora; isso a gente não consegue nem conceber o que seria isso hoje, estava tudo dentro de uma emissora. Se você soltasse uma bomba lá, acabava a música popular, porque todas as correntes, inclusive as contrárias, estavam lá. Então, você ligava a televisão e tinha um panorama da música no Brasil inteiro ali na Record. Aquilo contagiava a gente que ficava tentando compor à maneira do Chico, à maneira do Caetano, à maneira do Jorge Ben, à maneira do Roberto Carlos. A gente tinha um gravadorzinho de rolo e tentava gravar o que a gente fazia… Quer dizer, a ideia de compor era quase uma consequência natural de tocar violão naquele momento. Fazia parcerias. Eu tinha colegas de escola em Pinheiros – quando a gente morava em Pinheiros – que tocavam piano muito bem, porque foram colocados no conservatório e gostavam de música. E eu me lembro deles fazerem melodias em piano e eu já na época colocar letra. Daí a gente se apresentava em festivais. Ganhamos uma série de festivais, inclusive intercolegial. A gente vivia muito esse negócio de compor e se apresentar, fazer arranjos… Isso era uma coisa vital pra gente, embora desconfiássemos de que isso não seria profissão.

Palavra Cantada: Sandra Peres e Paulo Tatit. Foto: divulgação

Dafne  Eu ia perguntar isso pra você: tinha a intenção (de se profissionalizar)?
Luiz Tatit  É, demorou um pouco pra gente pensar nisso como profissão; eu confesso que , até hoje. Depois a ideia do Rumo sempre foi uma ideia de trazer uma proposta de composição, mas não de viver disso. Era uma coisa de intervenção, não de se beneficiar como carreira.Tanto que ninguém viveu disso… Depois que acabou o Rumo, daí o Paulo (Tatit) partiu pra uma coisa que foi ganhando peso gradativamente, e só agora, já no ano 2000, a Palavra Cantada virou uma coisa efetiva, do ponto de vista profissional, pra poder viver disso. [n.e. Ao lado de Hélio Ziskind, a dupla formada em 1994 por Paulo Tatit e Sandra Peres é uma das principais referências de música infantil contemporânea] Até 2000 não era assim; ainda eles estavam tentando. Gravavam uma coisa, obtinha resultado, mas só pagava dívida. Agora só que a gente sente que está mais (seguro), que a coisa está dando certo. Então, foi uma geração de vida profissional com música muito difícil. Eu já fui direto: como gostava muito da pesquisa também, fui pra universidade. (Pensei): “Lá eu faço minha pesquisa e nas horas vagas vou lidando com música”. Sempre foi a minha perspectiva. Daí, cada um foi achando seu caminho mesmo lá do Rumo. A Ná (Ozzetti) só tinha isso na cabeça: cantar. Ela não tinha dúvida: a única coisa que ela tinha vontade de fazer na vida era essa. Ela talvez tenha sido a única que pôs isso como meta e foi atrás. E mesmo assim é uma coisa muito lenta: a Ná hoje é considerada uma grande cantora, mas foi muito lento. Ela ia ganhando espaço ano a ano, devagarinho, nunca teve explosão. Isso não é da nossa geração, da nossa turma ter explosão em nada; é uma coisa devagar.

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