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Entrevistas de música brasileira

Luiz Tatit

Luiz Tatit por João Correia/Gafieiras

Luiz Tatit

parte 3/18

As canções do Erasmo e do Roberto eram muito boas

Dafne  Engraçado que você falou que ele gostou logo de cara de bossa nova. Então, ele fez uma passagem tranquila do samba-canção pra bossa nova, coisa que muita gente da geração dele não fez. Ele manteve essa curiosidade em relação à música. Isso de alguma forma influenciou vocês?
Luiz Tatit  É, é, eu não sei… A gente nem tinha muito essa consciência de que a bossa nova tinha sido uma revolução de tal forma que isso aqui tinha entrado tão placidamente no ouvido da gente. A gente não sabia que isso tinha sido uma revolução. Vim a saber depois, porque lá em casa ele ouvia na maior tranquilidade. Tenho a impressão que uma camada da população compreendeu a bossa nova como uma sofisticação da música, não como uma revolução, mas como uma sofisticação, porque tinha acordes mais elaborados, que tinha pensamento harmônico que não havia anteriormente… Então, isso é uma concepção de que você ouvia aquilo, você ouvia um objeto refinado, né? É um pouco por aí que eu acho que ele gostou e começou a comprar mais. Tinha um pouco de relação com a música americana, que já era exuberante naquele momento pelo cinema; já conhecia essa música, sobretudo pelo cinema. E essa turma toda – o Jobim, Johnny Alf, Dick Farney… – era fã inveterada de Frank Sinatra… Eles eram fanáticos por essa turma toda da música americana. Era um jeito de se aproximar de uma música mais requintada naquele momento, né? Então não tinha esse aspecto revolucionário pra gente. Isso a gente veio a comparar e sentir depois, até porque não foi tanto pelo João Gilberto, que ele passou a ouvir muito depois nos 60, mas não foi por aí… Ele entrou nessa linha pelo Jobim, pelas composições.
Tacioli – Você falou que nos anos 1960 estava se tornando um adolescente e a Jovem Guarda também foi muito forte nesse período. A Jovem Guarda passava pela sua casa? Como era? Quais eram os ídolos?
Luiz Tatit  É bem localizada, porque o meu interesse maior nessa época era o programa o Fino da Bossa, que era o programa da Elis Regina. Aquilo eu assistia religiosamente. Eu curtia demais aquela efervescência que havia no programa e que, de uma certa forma, irradiava para os festivais; era a mesma turma. Agora, a Jovem Guarda tinha uma grande vantagem: as músicas eram muito fáceis de tocar e nós estávamos começando a aprender tocar violão naquele momento. Então, a gente conseguia facilmente tirar uma música do Roberto Carlos, daquele pessoal… Inclusive tinham alguns especialistas em fazer versão de música inglesa (dos Beatles) ou americana… O Rossini Pinto fazia versões. Aquelas músicas eram facílimas de tocar. Então, pra nós do violão, nem gostávamos tanto das músicas, mas eram aquelas que a gente conseguia tocar. Então entrou por aí… Depois, mais tarde, fomos ver a Jovem Guarda como algo importante do ponto de vista da linguagem, da canção daquele momento, né? E quem chamou atenção foi o Tropicalismo. Nós tivemos uma atenção especial num determinado momento pela presença do Caetano e do Gil. Aquilo mexeu muito com a geração da gente. E por eles nós começamos a prestar atenção no Roberto Carlos… A gente não ligava tanto. E daí fomos vendo que de fato eram compositores fantásticos esses da Jovem Guarda. Havia ali uma coisa muito simples e um tipo de trabalho bastante datado, mas as canções do Erasmo e do Roberto eram muito boas, tanto que são gravadas até hoje. Mas isso a gente foi admirar depois, naquele momento a gente achava que era um coisa passageira também, como a maioria das pessoas achava; a imprensa achava que era uma coisa leviana, que não ia muito longe.
Max Eluard  Fale um pouco mais desse valor que vocês conseguiram enxergar na Jovem Guarda depois. O que vocês viram ali?
Luiz Tatit  Na verdade, a maneira de fazer canção da Jovem Guarda é a mesma daquela do Tom Jobim. Tem estilos diferentes: o Jobim põe, como dizia o Tim Maia, cinquenta acordes para fazer uma canção que o Tim Maia faz com dois ou três acordes, e isso não quer dizer que canção do Jobim é melhor que a do Tim Maia, de forma alguma. Canção não é uma música requintada, mas é você estabelecer um elo interessante entre a melodia e letra, às vezes, original, às vezes, inesperada. É isso… É aí que está a linguagem da canção, e não o fato de você fazer passagens harmônicas. Isso passa a ser o estilo de alguns autores. O próprio Jobim era ótimo para fazer aquelas canções muito bem harmonizadas, com passagens harmônicas notáveis, que o outro autor às vezes consegue obter o mesmo efeito, com a mesma precisão, mas com três, quatro acordes. A linguagem da canção é diferente da linguagem musical e da linguagem poética, que não tem nada a ver com literatura, canção e letra… É difícil fazer letra. Poeta não consegue fazer letra, precisa rebolar, precisa treinar muito para chegar a fazer letra legal. Músico tem dificuldade de fazer canção. O Jobim, por exemplo, virou um grande cancionista porque treinou demais, até porque ele precisava disso financeiramente. Ele tinha que compor quase que por semana não sei quantas canções. Então, ele treinou fazer canção, se dedicou a isso e virou um grande cancionista. Os músicos normalmente são péssimos cancionistas. Eles não sabem fazer, as canções ficam desajeitadas, ficam querendo dizer coisas que não dá pra dizer, sabe? Mas isso só deu pra perceber muito depois. E até hoje vocês veem que o senso comum é ainda que um grande cancionista normalmente é um grande músico, e é completamente ao contrário: é difícil pra um músico ser bom cancionista, e assim com o literato. O literato rebola pra fazer uma letra boa, né? Mas isso é um conhecimento que veio depois.

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