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Entrevistas de música brasileira

Luiz Tatit

Luiz Tatit por João Correia/Gafieiras

Luiz Tatit

parte 2/18

A paixão do meu pai era o Tom Jobim

Tacioli  Tatit, queria que você falasse um pouquinho da sua casa, por onde a música chegava, de seus pais, de seus irmãos… Como era esse ambiente na infância?
Luiz Tatit  O meu contato com música sempre foi pela música popular, pela canção propriamente. E veio sobretudo pelo meu pai. O único entretenimento dele na vida era sentar numa poltrona e ficar ouvindo discos o dia inteiro. Aos domingos ou mesmo quando ele tinha uma brechinha depois do almoço, ele sentava e ficava ouvindo. Nunca vi uma pessoa ouvir música como ele ouvia: ele largava tudo e ficava ouvindo mesmo. Nunca punha música de fundo, era sentava pra ouvir, quase era um ritual. Era o único descanso que ele tinha. Com isso, todo um repertório dos anos 1950 e 1960 foi ficando no ouvido da gente. E pra gente isso que era música. Essa história da música no sentido erudito, de orquestra, de pensamento erudito, nunca tinha entrado em casa: era sempre música popular e, sobretudo, música cantada, né? Também tinha instrumental, mas era sobretudo música cantada; e era pelo viés dele. Então, às vezes, era uns aparelhos um pouco melhores que a gente tinha; houve época que ele usava um aparelhinho, assim, uma vitrolinha super simples, mas era religiosa aquela situação dele sentar pra ouvir e tal… Então, tenho impressão de que a canção entrou pelos ouvidos da gente assim, por essa iniciativa dele de ouvir música o tempo todo. A gente conhecia um repertório imenso de canções quando chegou na altura de meados da década de 1960. Daí a gente começou a ouvir, não desse jeito dele, mas pela televisão, que foi o auge dos festivais, do tropicalismo e da bossa nova… Nos anos 1960 a iniciativa era da gente mesmo, sobretudo pela televisão. Antigamente, a música vinha pela televisão, principalmente na fase da Record. Coisa que desapareceu. Depois dos 1970 já não era tanto assim, e agora sumiu completamente. Na televisão nós temos mais esses prefixos de novela, mas a música desapareceu da televisão. Então foi esse o veio; nunca houve uma escolarização. Mesmo o aprendizado de violão… Eu ganhei um violão e o Paulo também, na mesma época, de um avô que deu de presente pra gente. A gente queria muito. Víamos na rua os moleques tocando, isso com uns 11 ou 12 anos. E a partir daí, esses moleques que tocavam na rua passavam pra gente algumas músicas… Foi assim que a gente aprendeu música a vida inteira. Nunca tivemos escolaridade nenhuma em violão. Daí eu fui fazer faculdade de música, isso já muito mais tarde, né? Aprendendo meio rapidamente coisas que eu não tinha aprendido.
Tacioli – Era bem aceito o violão em casa?
Luiz Tatit  Minha mãe tocava piano, como toda mulher tocava antigamente, né? Tinha aprendido piano sem ter vontade nenhuma de aprender piano. Mas a primeira coisa que meu pai fez quando eles casaram foi vender o piano. Provavelmente todos nós tocaríamos se o piano estivesse em casa, mas ele vendeu… Na época estava saindo a televisão… Pra comprar um aparelho de televisão ele vendeu o piano, isso em 1952, 1953, bem no comecinho da televisão.

Discos Boneca (1965) e Stone flower (1970), de Angela Maria e Tom Jobim, artistas que povoaram a casa dos Tatit. Fotos: reprodução

Tacioli  Você nasceu em 1953?
Luiz Tatit  Eu nasci em 1951.
Tacioli  1951…
Luiz Tatit  Eu ainda peguei o piano. Lá por 1953, 54 ele vendeu o piano.
Tacioli  Rolou uma decepção em casa?
Luiz Tatit  A gente era muito criança, nem sabia o que fazer com aquilo ainda, né? E minha mãe mesmo não ligou muito por que ela não gostava de tocar; tocou por obrigação a vida inteira, né? Quem gostava de música era o meu pai, não a minha mãe. Ela nunca foi assim fanática por música, não.
Dafne  Esse repertório que seu pai trazia nos anos 50, 60, era o que de canção popular?
Luiz Tatit  Ele tinha uma atração especial por Tom Jobim; a paixão da vida dele era o Tom Jobim. Agora, eu meu lembro numa fase em que ele nem tinha chegado no Tom Jobim – porque, como eu já vivi os anos 50, já estava consciente das coisas dos anos 50. Eu me lembro de ouvir muito baião, até repertório do Luiz Gonzaga nós tínhamos em casa; repertório de sambas-canções, né? Lembro de comprar muito disco de Angela Maria: tinha Angela Maria cantando Noel Rosa, Angela Maria cantando Ary Barroso… Então, tinha esse repertório que depois foi completamente obscurecido, digamos, pelo Jobim. Quando chegou a bossa nova ele ficou encantado com aquilo e passou a ouvir quase que exclusivamente… Daí ele comprava o Jobim em todos os formatos: instrumental ou o Jobim cantando, um intérprete, o Agostinho dos Santos cantando, e o João Gilberto. Daí começou a entrar devagarinho o João Gilberto também. Mas a paixão dele eram as composições do Jobim a partir de uma certa data… Até o final da vida ele ouviu demais o Jobim. Na verdade, foi um pouquinho ainda a época do samba-canção e do baião e depois passou pra bossa nova.
Tacioli  Seu pai nasceu quando?
Luiz Tatit  Ele nasceu em 1923 e morreu em 1999, no finalzinho do século passado. Ele pegou essa fase dessa passagem mesmo; depois ele gostava muito de acompanhar os festivais, aquela coisa toda. Ele participava muito daquilo, gostava dessa vida de canção, né? Aliás, nós achávamos que música era isso. Eu fui ver que música não era isso muito mais tarde! [risos] Na verdade, essa história da canção é outra coisa, mas a gente achava que era isso mesmo.
Tacioli  E seu pai entendia o Grupo Rumo?
Luiz Tatit  Sim. Ele gostava muito, quase todas as estreias ele estava lá, fã de carteirinha. Assistia e acompanhava muito. Ele era juiz, então tinha, digamos, uma atividade super austera. Terminou a vida como desembargador. Toda a vida dele era completamente diferente desse mundo artístico, desse mundo musical, mas tinha muita admiração pelos artistas. Ele acompanhava um pouco por causa da gente. E depois a gente começou a se interessar e ele também acompanhava, lia nos jornais as evoluções que havia, sobretudo na época da Record, que era muito pungente a efervescência naquele momento. Ele era muito ligado em música. Era a conversa que ele tinha com a gente. Uma época era futebol, quando a gente era mais novo, e depois passou a ser música. Daí a música era o contato que ele tinha com a gente.

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