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Entrevistas de música brasileira

Luiz Tatit

Luiz Tatit por João Correia/Gafieiras

Luiz Tatit

parte 18/18

O tempo é o meu tema na vida

Max Eluard – E sua busca hoje, Tatit, ainda é a mesma? Ela mudou? Em que ponto ela mudou? Ou você está mirando outras coisas?
Luiz Tatit – A gente vai mudando a cabeça com relação as mesmas coisas que sempre procurou, o ponto de vista vai mudando, mas o que eu busco no fundo é sempre a mesma coisa. Minha vida sempre foi uma continuidade, sempre foi uma continuidade. O Zé Miguel (Wisnik) sempre goza um pouco disso, porque no caso dele aconteceu tudo meio de uma maneira que ele nunca conseguiu prever o passo seguinte, e que eu já nasci com tudo desenhado. De fato tem um pouco isso, claro que você não vai pelos caminhos que você tinha planejado exatamente, mas tem uma espécie de desconfiança que a meta é aquela e vai indo, então, na verdade, eu sinto sempre como uma continuidade. Vai mudando um pouco a maneira de encarar o problema, você formula de um outro modo, você vai descobrindo outras coisas, enriquece, aumenta o que você gosta, o que você procura, vai um pouco adaptando as condições, então tem coisas que você acha que não vale a pena investir porque nunca vai chegar lá, então já deixa de lado. Isso mudou muito, mas mais ou menos são as mesmas coisas, eu não me sinto frustrado em nada. Tudo o que eu tinha de conseguir foi conseguido gradativamente. A minha geração, de São Paulo, daquelas condições, teve um pouco esse destino. Um pouco diferente os que optaram pelo rock naquele momento que deveriam optar. Então, esses mesmos paulistas tiveram outro rendimento. Mas, para nós, que fomos chamados de Vanguarda Paulista, mas incluo o Zé Miguel, incluo a Ná, eu tenho a impressão que acabou tendo uma trajetória gradativa e, ao mesmo tempo, ininterrupta.
Tacioli – Da minha parte, beleza.
Max Eluard – Só uma última coisa: você escuta hoje em dia, ou melhor, você herdou do seu pai esse hábito de escutar música?
Luiz Tatit – Nunca, só ouço o que sou obrigado a ouvir. [risos] Até me ressinto um pouco disso. Eu nunca sentei para ouvir uma música a não ser para analisá-la. “Vou fazer um trabalho sobre aquele disco..”, daí fico dissecando aquilo, escrevo a música, fico tentando perceber como aquilo se dá. Aí eu me dedico intensamente, mas sempre é ligado a trabalho.
Max Eluard – O prazer de ser…
Luiz Tatit – Nunca, acho que ninguém aqui de casa tem tanto. O Paulo ainda tem esses trabalhos manuais, ele põe disco para ouvir; mesmo quando morava aqui, tinha sempre um disco de fundo, mas sempre estava fazendo outra coisa. O Zé, o meu outro irmão, que é das artes plásticas, sempre que trabalha, ele ouve, ele ouve muito, muito disco. Então sou o que menos ouço música porque tenho que trabalhar com texto e não dá para você pensar ouvindo coisa, não dá! Eu já desisti disso. Então, escuto quando saem alguns discos específicos, quando me pedem para ouvir e eu tenho que dar opinião, daí eu ouço para dar opinião. Ouço somente uma vez! [risos] Só uma vez! [risos] É corrido!
Dafne Sampaio – Algumas faixas!
Luiz Tatit – Eu ouço inteirinho! É aquela história: eu levo a sério quando estou fazendo, mas não ouço mais porque não daria tempo. Às vezes, se eu me envolvo demais com uma faixa, eu mostro para outra pessoa, “Olha isso daqui!”…
Max Eluard – Mas chega música que desperta essa paixão?
Luiz Tatit – Sim, sim! Sem dúvida, é o que eu gosto de fazer, mas é engraçado, eu não fruo isso no dia a dia. Eu gosto de fazer, mas eu não fruo.
Max Eluard – Sofrendo!
Luiz Tatit – Sofrendo, ainda me obrigo a fazer… Quando eu ouço e vejo algo interessante, ouço duas vezes, são sempre coisas focadas… Às vezes chego a ouvir até duas vezes! [risos] É uma coisa mais focada, mas geralmente essa segunda vez já é mostrando para alguém, eu não ouviria duas vezes.
Tacioli – “Ouça aí que já volto!”
Luiz Tatit – Exatamente. Então eu tenho uma relação estranha com música, mas não tem outro jeito, é assim que dá para ir levando. Música é tempo e você precisa ter tempo pra isso, pra ficar ouvindo, e eu não tenho esse negócio de ouvir de fundo, isso pra mim só atrapalha, tenho de desligar para poder pensar no que estou pensando.
Tacioli – Mas o tempo te aflige?
Luiz Tatit – [silêncio] Muito, só o tempo! O tempo é o meu tema na vida, na verdade. O tema na semiótica é o tempo.
Max Eluard – Nas suas composições ele está presente…
Luiz Tatit – Daí acaba vazando para as produções. Uma das canções que eu fiz com a Ná chama-se “Tempo escondido”. O tempo é o meu tema a vida inteira. Eu fico muito impressionado com o tempo. Essa história do que passou… É no tempo que tem sentimento, não é no espaço, é no tempo. Mesmo quando você tem o espaço, é porque o espaço se remete a um tempo. Você chega num lugar que não esteve há não sei quanto tempo. Então, é sempre o tempo que dá sentimento…

Nós somos o passado!

Max Eluard – Ou a duração de um acontecimento, mas é na duração…
Luiz Tatit – É sempre a duração que tem sentimento. Por isso que a música romântica estende a duração de cada nota. Por isso é o meu tema. Por isso que na semiótica você vai fundo nessa questão da temporalidade, porque isso é responsável por sentir menos forte… O tempo é a minha matéria de reflexão, mas normalmente quando a gente fala só de canção, de música, nem toco nesse assunto, porque esse é o meu tema de fundo que não dá tempo de explicar [risos], normalmente está só nos textos. Daí tem que ler os textos. A teoria que está por trás da minha tese de livre-docência, que depois se transformou no livro Semiótica da canção – De melodia e letra, é toda temporal. Toda sobre o tempo. É o meu tema predileto.
Tacioli – Mas no seu universo doméstico, o tempo passado e futuro, do que vem, da finitude, te aflige também?
Luiz Tatit – Então, por isso que a gente acaba lidando com isso, de tanto que me pega essa observação… Desde a observação direta, que é isso que você está falando, do dia a dia, o que tem a ver com esperança e saudade, por exemplo, que seria essa oscilação… Na verdade, as duas coisas são iguais. Esperança é a saudade pra frente…
Max Eluard – É o tempo que vem e o tempo que passou.
Luiz Tatit – E saudade é esperança pra trás. No fundo, você é um pouco mexido com isso, você está num ponto em que o sentimento está no que vai dar, no que passou, no que foi perdido, o que você tenta reparar. Nós sempre estamos pagando tributo ao tempo. Então tem essa observação direta, mas por outro lado tem uma observação científica que eu tento fazer, científica entre aspas, nunca é muito científica, meio filosófica, meio científica, meio semiótica. Por isso que eu chamo de semiótica, porque é o sentido do tempo que interessa, sentido mesmo. A própria palavra sentido tem acepção de direção, que é temporal. Quando você fala que uma rua tem duplo sentido, quer dizer, são duas direções. É temporalidade, o tempo todo é isso que está em cheque.
Tacioli – Você teme a hora que isso vai terminar?
Luiz Tatit – Sim.
Max Eluard – Você tem mais saudade do tempo futuro ou do tempo que passou?
Luiz Tatit – É… [silencia] Fiz uma música uma vez que se chamava “Saudade moderna”, que era um pouco sobre isso, saudade do futuro. [n.e. Faixa 10 do álbum Diletantismo, de 1983, do Grupo Rumo] É, eu acho que a gente se vincula afetivamente ao passado, mas isso para todo mundo. O que você tem é certa ansiedade com relação ao futuro, de tentar conduzir um pouco os caminhos, mas o universo afetivo da gente é marcado pelo passado, não tem jeito. Nós somos o passado, porque o futuro ainda não veio. [ri]
Max Eluard – E até mesmo essa diferença, essa sequência que a gente estabelece entre passado, presente e futuro, ela pode ser mexida. Eu vi uma vez uma coisa bonita, que um rapaz contava a história triste do passado dele, mas tudo isso para ele falar que uma coisa que acontece agora muda o passado.
Luiz Tatit – Você relê o passado. Você muda o ponto de vista. No fundo é isso, a gente fica o tempo todo mudando esse ponto de vista para entender o que aconteceu.
Tacioli – Beleza! O nosso tempo acabou.
Luiz Tatit – Tem o tempo pragmático, aquele que fala mais alto.
Almeida – Tempo de mídia.
Tacioli – Como está? [n.e. Com relação à gravação do áudio da entrevista]
Almeida – Está quase (no fim). Está indo, mas falta um suspiro.
Max Elaurd – No digital ainda tem. [n.e. Sobre o tempo disponível para gravação em vídeo]
Tacioli – Luiz, tem alguma coisa que você gostaria de dizer que a gente não abordou, algo que não ficou tão claro. Você viu que é um bate-papo…
Luiz Tatit – É, então, no nível do bate-papo foi bem-sucedido, porque pudemos transitar por vários temas, vários assuntos… Eu nunca tenho nada que tenha desejo de falar a princípio, é na conversa que surgem as necessidades de explicar alguma coisa, explicar outra. Acho pro nível de conversa, que é o que nós estamos estabelecendo aqui, tudo foi explicado o máximo possível. [risos] Tentei explicar dessa forma assim…
Almeida – Você pode escrever um texto para complementar! [risos]
Tacioli – Você é um homem tolerante com o erro, com a surpresa?
Luiz Tatit – Totalmente, totalmente!
Tacioli – Parece tudo tão planejado, como o Wisnik falou, que você tem o projeto pronto.
Luiz Tatit – Mas uma coisa que está fora do meu universo é o perfeccionismo com qualquer coisa. Odeio o perfeccionismo, odeio! Pra mim é muito mais importante fazer mal feito do que não fazer. O que não gosto é que não faça. Eu gosto que faça. Então, não tenho esse tipo João Gilberto, que eu admiro tanto, eu acho como projeto de vida horrível. Só tem sentido com ele, que tem a cabeça daquele jeito, e faz um resultado extraordinário, que é o que mais admiro na música popular. Mas, paradoxalmente, eu detesto isso como projeto de vida, o perfeccionismo. Parece que trava a pessoa…

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