gafieiras

gafieiras

Entrevistas de música brasileira

Luiz Tatit

Luiz Tatit por João Correia/Gafieiras

Luiz Tatit

parte 16/18

A Zélia Duncan foi a experiência mais pop que tive

Tacioli – Não sei o seu horário, se tem compromisso ou não, mas já estamos terminando.
Luiz Tatit – Eu tenho um almoço, mas ainda estamos dentro da faixa.
Tacioli – Você se imagina ou imagina um tipo de parceria com um compositor muito popular ou a sua música sendo interpretada por um artista de grande exposição, ou um ícone, como Odair José ou o Zezé di Camargo?
Dafne Sampaio – Zezé di Camargo grava “Capitu”!
Luiz Tatit – Certamente seria uma arraso! [risos] Maravilhoso!
Dafne Sampaio – A Zélia (Duncan) gravou “Capitu”.
Luiz Tatit – A Zélia foi, talvez, a experiência mais pop que eu já tive, não somente por “Capitu”, mas a que mais me impressionou foi “Companheira”, que é uma música de seis minutos, é uma história enorme. Ela ainda gravou no disco dela com a Simone, que também tem uma vendagem extraordinária. E o DVD delas, que é um DVD maravilhoso em termos de música pop, é impressionante, e está lá “Companheira”. Aquilo faz um sucesso tremendo. Já a vi cantando ao vivo! Essa é a que mais me impressionou de todas das experiências, mas aí se deve à coragem dela. Esse pessoal que tem uma dimensão maior de público tem pouca coragem. É raro gravar uma coisa de mais impacto, e ela, (não)… “Capitu” não depende de tanta coragem, é uma canção mais palatável, não tem tanto problema para dar certo. Pra mim, “Companheira” é muito mais importante como canção, tem um projeto maior ali dentro… O próprio Arnaldo (Antunes) cantou essa canção também. Foi num show no Sesc Pompeia, mas aí foi uma vez só. Ele a levou toda escrita e foi lendo, cantando e lendo, porque não dá para decorar aquilo. A Zélia decorou. Ela a cantou inteirinha. Essas coisas são maravilhosas.

Então, se o Zezé di Camargo gravasse sozinho ou em dupla, eu acharia uma das coisas mais… O que eu gosto disso é essa viagem entre os patamares de sucesso, de vendagem. Eu gosto muito disso, é uma coisa que acontece com frequência atualmente. Alguém desconhecido, de repente, passa a ser altamente reconhecido por causa de uma gravação. E é muito comum alguém de grande vendagem, de grande reconhecimento, vir cantar com uma pessoa que está começando. Hoje isso é muito comum, muito mais comum que antigamente. Antigamente, essas pessoas se tornavam inacessíveis, nunca mais voltavam a dialogar com as pessoas de outra faixa. O próprio Arnaldo é um exemplo: ele está em show de um cara que ele gosta, como o Marcelo Jeneci que está começando agora. É um grande compositor, um grande músico. Amigo do Arnaldo porque toca com ele, então, ele vai fazer um show, o Arnaldo vai. Encontrei com ele na Vila Madalena, naqueles porõezinhos, assistindo a um show dele, e participa quando precisa. Isso é demais! Fizeram aqui um show com a Jazz Sinfônica, acho que foi no (teatro) Sérgio Cardoso, com as minhas músicas, a Zélia vem do Rio pra fazer lá umas três participações. Ela vem do Rio somente pra isso. Vai lá, faz a participação e vai embora. Esse tipo de entrosamento é demais, maravilhoso, essas mudanças de faixas… Também com a música chamada de brega é cantada por uma pessoa que é de um registro de prestígio, então você vê que aquela música brega é linda, como é o caso do próprio Zezé di Camargo. “É o Amor” é uma música linda, mas precisou a Bethânia cantar para mostrar a música. Então, essas coisas eu acho ótimo! Isso já vem desde o tropicalismo! Caetano já mostrava canções bonitas fora de prestígio…
Max Eluard – Chamar o Odair José ao palco…
Dafne Sampaio –  Vicente Celestino…
Luiz Tatit – Exatamente! Então essas mudanças de faixa, e hoje também se dá com mudança de faixas de vendagem, pessoas que vendem muito e outras que não vendem nada, mas são reconhecidas e uma participa do outro. Bom, a Vanessa (Bumagny), que fui ver anteontem, no final (do show) sobe o Zeca Baleiro e faz uma música com ela, afinal, ele participou da produção do disco dela. Por que ele fez isso? Percebe? Ele não precisa disso, ele é chamado pra fazer várias produções, ele próprio como artista tem grande expressão, por que ele vai fazer de uma menina que ninguém conhece, mas que canta bem, faz um trabalho legal? Essas coisas são maravilhosas! Não havia isso antigamente!

Tags
Luiz Tatit
de 18