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Entrevistas de música brasileira

Luiz Tatit

Luiz Tatit por João Correia/Gafieiras

Luiz Tatit

parte 15/18

Explosão não é o negócio dessa turma!

Tacioli – Você achava essa história de música infantil desvirtuaria o projeto inicial do Rumo, porque várias pessoas do grupo compondo é um outro desenho…? Naquele momento você acha que não era bem por aí…, como era?
Luiz Tatit – Não era o que eu gostaria de fazer na época. Eu não tinha interesse nisso! A gente não pode esquecer o seguinte: depois que o Rumo acabou, eles foram procurar um mercado, tanto o Hélio quanto o Paulo. Eles estavam resolvidos a viver de música, e eles não eram cantores como era a Ná, que bastava continuar fazendo o que estava fazendo que a carreira já estava projetada. Eles não tinham esse recurso e nem eram muito compositores. Eles compunham eventualmente. Então, eles foram atrás de um mercado. Daí cada um teve o seu caminho: o Hélio com as coisas para a Cultura na época, quando tinha uma abertura com a Beth Carmona, que é mulher do Geraldo, que era do Rumo. O Hélio começou a fazer canções muito bem adaptadas para os personagens da Cultura.

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E o Paulo teve o encontro com a Sandra, começaram a planejar uma coisa dirigida para esse mercado, demorou pra caramba, foram fazendo CDs específicos de ninar, de brincar, de não-sei-o-quê, até chegar num formato que qualquer coisa que eles lancem dá certo, atualmente. Fizeram pesquisas de música pelo Brasil inteiro. Foram fazendo um trabalho muito paulatino até chegar nesse resultado. Mas, daí já é uma busca de mercado, eles não estavam preocupados com questões estéticas. Já tinham uma bagagem do ponto de vista musical e estético e foram em busca de um veio de mercado para viver disso. Aí é outra coisa! O projeto do Rumo não era viver disso, era apresentar um trabalho de composição, com arranjos daquele jeito, sobre a linguagem da canção, era essa a ideia.
Tacioli – Você vê o público que ouve ou ouviu a Palavra Cantada e os discos do Hélio como um público do Rumo?
Luiz Tatit – Não sei mais. Atualmente, eles têm um público imenso, eu não consigo mais dimensionar, é um público imenso. Eu vou assistir aos lançamentos, como o que vai ter amanhã lá no HSBC, no antigo Tom Brasil… Eles fazem shows nesses teatros. Eu entro lá e parece que estou indo a um show do Caetano, só que com muita criança. [risos] E eu não conheço ninguém, eu não conheço ninguém mais! Nem eles têm mais controle do público. É uma coisa enorme! Enche aquilo de ficar gente pra fora e parece que não tem fim, e com ingressos caríssimos! Só São Paulo banca essas coisas, não tem em outros lugares, mesmo no Rio quando eles vão, fazem no Canecão, explodem o Canecão de gente… Não conheço mais ninguém do público que frequenta os shows. O Hélio não sei se é exatamente a mesma proporção, mas sei que é enorme também o público dele. Então, a gente não tem mais dimensão de quem está ouvindo. De tempos em tempos a gente vê que é gente que ouviu o Rumo não-sei-quando, depois continuou nos discos infantis porque tiveram filhos, até netos, às vezes aparecem figuras assim, mas é exceção. A regra é que a gente não tem mais dimensão do público que eles conseguiram. Foi um trabalho gradativo que chegou lá do ponto de vista de… não digo de mídia porque eles nunca tiveram muita mídia, mas de alcance de um público enorme como se fosse público de mídia conquistado paulatinamente durante uns 15 anos, mais ou menos. Nunca teve uma explosão, foi aos poucos. Aumentava a cada disco.
Tacioli – Você disse que explosão…
Luiz Tatit – Explosão não é o negócio dessa turma! [risos] Isso eu já percebi, não sei se por morar em São Paulo, mas não é o lance dessa turma. De ninguém! Nem o Wisnik! Ninguém dessa turma que começou nessa época ou dessa base, como o próprio Dante, o Chico Saraiva, esse pessoal com quem tenho mais contato, a própria Ná não teve um momento de explosão. Sempre uma coisa gradativa!

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