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Entrevistas de música brasileira

Luiz Tatit

Luiz Tatit por João Correia/Gafieiras

Luiz Tatit

parte 14/18

Não gostava de compor música infantil

Tacioli – Luiz, o Rumo produziu o disco Quero passear, com músicas para crianças. Do Rumo vieram o Paulo (Tatit) e o Hélio (Ziskind). Também vi no YouTube o vídeo da música “Daninha e a pulga” e achei bacana pela experimentação sonora. A música infantil é um espaço para a experimentação? A criança aceita mais a experimentação que o adulto?
Luiz Tatit Na música é interessante quando você enfatiza a entoação tem uma certa infantilidade nisso. Aliás, foi uma das razões pela qual a plateia ria quando a gente apresentava as primeiras músicas do Rumo, porque parecia falado e quando você faz a entoação ficar em evidência é como se fosse interjeição, é muito expressiva para criança. Criança começa falando com interjeições, né? É mais interjeição que discurso intelectivo. Então, a interjeição já é um fato infantil. E isso fez com que alguns elementos do Rumo, especialmente o Pedro Mourão, pegasse esse viés e quando compunha, sem querer, saía música infantil. Ele não conseguia não compor música infantil. [risos] Era engraçado, porque ele via na entoação esse lado infantilizado da entoação. Eu, não, tentava fazer músicas de adulto com a entoação e ele fazia infantil. Daí no primeiro disco entrou essa canção, “A pulga e a daninha”, como se fosse um braço do Rumo que teria desviado para a música infantil, mas era apenas uma experiência a mais. Então, a entoação facilita a música infantil, isso não tem dúvida, a gente observou no decorrer dos tempos. Daí ficou ali no Rumo uma espécie de um veio que poderia render, que é o veio infantil. Ainda não havia prática de se fazer música infantil nesse momento, estava começando a Xuxa, no começo dos anos 80. Então, o que havia de música infantil era o que a Xuxa estava começando a fazer, tinha saído aquele disco do Balão Mágico, que também foi uma coisa importante… [n.e. O primeiro dos cinco discos da Turma do Balão Mágico foi lançado em 1982 pela CBS. Simony, Mike e Tob integraram a primeira formação]

Dafne Sampaio – Tinham aqueles especiais da Globo, como o Plunct Plact Zuum, Casa de Brinquedos
Luiz Tatit Exatamente, já tinha tido umas incursões pela música infantil que pareciam que davam um bom resultado. Daí foi amadurecendo a ideia de que a gente deveria ter um disco infantil enquanto fazíamos outros discos. Então não pusemos mais músicas infantis nos outros discos pra deixar para um disco especial. Demorou para sair, foi só em 88, mais ou menos, quando a Eldorado encampou o projeto e resolveu bancar esse história da música infantil. O que aconteceu? O Pedro fez muitas canções, ele que gostava de fazer, o Paulo fez uma só na época, uma canção complicada que é aquela do Augusto Ruschi, que é enorme. [risos] [n.e. “A Incrível História do Dr. Augusto Ruschi, o Naturalista”] Engraçado, porque ele virou especialista nisso, ele tinha uma dificuldade tremenda em fazer música infantil, tanto que ele fez uma que era uma enciclopédia, coisa até muito difícil de pegar entre as crianças, tanto que foram os pais que gostaram da música.
Tacioli – Tinha a do Hélio, “A noite no castelo”…
Luiz Tatit – Do Hélio não tinha… Ah! “A noite no castelo”… O Hélio só fez essa. Foi uma música que deu certo. Era a música mais infantil do disco, porque tinha poucos elementos, tinha a coisa do medo que a criança gosta de sentir…

Capa e contracapa do LP Quero Passear (1988), que reuniu as composições infantis do Grupo Rumo. Fotos: reprodução

Tacioli – Era visual!
Luiz Tatit – Extremamente visual, foi usada em programas.
Almeida – Tinham umas vinhetinhas também que eram muito legais…
Luiz Tatit – Ah é, de faixa para faixa. Era uma ideia do Geraldo, que adorava vinheta.
Almeida – Pareciam sons de brinquedos. Eram instrumentos diferentes?
Luiz Tatit – Eram instrumentos diferentes. O Rumo sempre teve (instrumentos diferentes), sobretudo percussão, muita coisinha de percussão, coisinha de assoprar… “A pulga e a Daninha” é cheio dessas coisinhas, desses estilos… Um pouco era o Gal, que inventava, ele era o baterista, e um pouco era o Pedro, que era muito musical no sentido da percussão, ele gostava muito de trabalhar com percussão, o Hélio adorava fazer – sobretudo quando era de sopro, ele tinha ótimas ideias de inserção desses instrumentos. O Paulo sempre foi arranjador. Então era mais da parte deles que surgiam essas ideias. Eu tive um pouco de dificuldade de compor música infantil. Eu não gostava muito, pra falar a verdade. Daí, quando a ideia se concretizou, com muito esforço eu fiz três: a do Monstro, não-sei-o-que-lá do bibelô, não me lembro mais o nome…
Tacioli – “O robô-bibelô”…
Luiz Tatit – Exatamente!
Tacioli – Com a Ná!
Luiz Tatit – A Ná faz tanto a voz da mulher, como faz a voz do robô, no grave.
Dafne Sampaio – Muito boa essa!
Luiz Tatit – E a “Marchinha do cavalo”que também fiz para esse disco. E fiquei nessa. Foi dificílimo eu fazer… O “Monstro” acabei fazendo com mais facilidade, ficou como se fosse uma música das minhas mesmo, porque eu mesmo apresentava. Foi a que mais deu certo. O Pedro tinha várias, o Paulo e o Hélio fizeram as deles, e saiu aquele disco, que ficou legal. O Zécarlos compôs duas: “Quero passear”… Então ficou uma espécie de veio infantil do Rumo, que depois acabou ocasionando a Palavra Cantada e o Hélio… Eu nunca mais lidei com isso. Depois fiz letras, mas nunca mais fiz melodia infantil, sempre o Paulo me traz a melodia pronta e eu faço a letra.
Almeida – Luiz, ainda uma coisa do disco: tiveram algumas apresentações do infantil?
Luiz Tatit – Na época? Não me lembro se teve apresentação específica, acho que não. Acho que teve lançamento do disco infantil onde a gente fazia o show da gente e incluía coisas do repertório infantil, mas acho que não teve um show só pra isso. Dependeria de uma encenação que a gente não operava com isso, como o Palavra Cantada faz agora, tem todo um lance da música infantil que a gente não sabia fazer na época.

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