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Entrevistas de música brasileira

Luiz Tatit

Luiz Tatit por João Correia/Gafieiras

Luiz Tatit

parte 12/18

Todo mundo é meu concorrente

Tacioli  Você estranharia se se tornasse uma figura de sucesso midiático com mais de 30 anos de carreira artística?
Luiz Tatit  [pausa] Olha, não me surpreenderia, até isso é possível! [risos] Você sabe que tornar uma figura célebre e se aproveitar de alguma atividade, de uma música dar certo, por exemplo, são dois palitos: por num prefixo de novela, acabou, é a coisa mais fácil sair de uma faixa e passar para a outra. E, atualmente, isso está sendo muito comum, até do ponto de vista positivo, como negativo. Com a mesma velocidade que você sobe, você desaparece da mídia. Então, não me surpreenderia tanto. Acho até muito fácil: basta uma música dar certo do ponto de vista de mercado…
Max Eluard  É alguém escolher…
Luiz Tatit  Completamente entregue a sorte. Por isso que não ligo muito pra isso, porque algo que depende muito da sorte, não adianta você ficar lutando por isso, de repente, alguém fisga uma canção…
Max Eluard  E bota na novela…
Luiz Tatit  Exato, você já passa para outro status. Nem sempre a pessoa que está fazendo o melhor trabalho que é fisgado, às vezes é, ótimo quando isso acontece, nem sempre são as pessoas mais interessantes, depende muito do produtor, depende de quem ele conhece – por isso que eu digo que o Rio tem mais relacionamento, tem mais jogo, gente que conhece fulano, que leva fitinha pra não-sei-onde, lá tem muito mais facilidade de aparecer… Mas é a Globo, é a Globo, o que pinta de novo, pinta lá… [risos] Se não pintar lá, não aconteceu. Na verdade, essa é um pouco a ideia que a gente tem. Hoje, tem coisas que são de mídia, e tem coisas que têm prestígio, mesmo não estando na mídia. Hoje não é mais assim tão… Antigamente só havia espaço para quem tinha alguma projeção, se destacava. Agora, não, já tem um respeito, um aproveitamento de especialidades…
Max Eluard  E outros canais de propagação também, né?!
Luiz Tatit  E outros canais de propagação, exatamente.
Max Eluard  Ou você existia na televisão ou no rádio…
Luiz Tatit  Isso, isso. Internet abriu demais. Para os independentes foi muito bom! Quem está começando agora já nem se preocupa com gravadora. É só Internet. Agora, por outro lado, criou aquilo que já escrevi, todo público produz. [risos] Todo público produz e não tem tempo de ouvir o que você faz porque ele está fazendo o trabalho dele. Eu vi isso de uma forma muito bem caracterizada. Sempre quando eu faço show, pelo fato de também falar sobre canção, então eu fico desempenhando um papel de crítico, de alguém que sabe avaliar uma canção, então o que eu recebo de CD quando termino um show, ao mesmo tempo que as pessoas compram o meu CD, elas me dão um CD.
Max Eluard  Você recebe mais do que vende!
Luiz Tatit  E uma coisa que eu recebia três, cinco (discos) por show, chegou um show aqui no (Sesc) Vila Mariana que eu recebi 50 CDs de pessoas que foram assistir e levaram pra mim. Então, ao mesmo tempo que pedia o autógrafo, dizia “Olha, por falar nisso, …”. Se eu abrir essas três gavetas aqui são de CDs que eu recebi, que eu nem tirei o celofane. Se eu fosse ouvir tudo isso eu tinha de parar tudo que faço. A quantidade de gente produzindo é uma coisa impressionante. Eu exagerei um pouco nesse artigo, mas eu disse “Eu vou produzir pra quem? Quem vai ter tempo de ouvir se essa pessoa está fazendo o trabalho dela também?”.
Daniel Almeida  Você acha que isso vai ser progressivo ou vai dar uma parada, as pessoas vão voltar a se público de novo?
Luiz Tatit  Não sei, precisa se acomodar em algum lugar… Voltar a ser público, não! O que vai aumentar… a gente vai ter que conviver com a concorrência. Mas não é uma concorrência, é uma con-cor-rên-cia! [risos] Todo mundo é meu concorrente! Não tem mais aquela história do público. O público é concorrente o tempo todo. Ele não para de produzir.
Tacioli  Você desconfia do aplauso!
Luiz Tatit  Exatamente! [risos]
Rune Tavares  Antigamente, o objetivo, a primeira coisa que se queria era fazer um disco. Hoje, o que você acha que é?
Luiz Tatit  Hoje o problema é fazer o trabalho chegar pra alguém. Alguém que possa ouvir.
Dafne Sampaio  Que não seja produtor.
Luiz Tatit  Exatamente! Ainda não está assim, ainda tem gente que ouve, mas dá a impressão que a progressão é essa. É muita gente, mas tem gente que ouve, mas a progressão parece ser essa. Você não consegue mais dar conta das solicitações de ouvir música, porque agora não precisa nem fazer mais o CD, basta ter uma faixa, já é o motivo de divulgar no YouTube.
Max Eluard  Antes do CD, já tem o MySpace…
Luiz Tatit  O MySpace… E fica aquela relação pelo MySpace, e ali todo mundo já está mostrando o seu trabalho com uma faixinha, às vezes com um pedacinho de arranjo já é suficiente, então não sei ainda, é um trabalho de profecia tremendo saber o que vai dar. Eu sei que vai dar uma coisa diferente. Por isso que eu digo que a música está muito melhor, inclusive tem mais poder de avaliação porque todo mundo faz, então sabe avaliar melhor. Tudo está melhor! O problema é a quantidade de coisas, ninguém consegue dar conta, nem pela Internet… Você tem de ir atrás das produções, tem de sair de casa para assistir, televisão não apresenta mais nada, nem tem como, talvez as TVs pagas poderiam canalizar um pouco mais, mas não fazem e acho que não compensa porque senão já teriam feito. Então, eu não sei direito como essa produção tão boa, tão exuberante que tenho visto vai poder se manifestar e não ficar somente em confrarias muito reduzidas.
Tacioli  Mas nesse contexto você ainda tem no formato disco, com um conceito, de apresentar um novo trabalho é nesse conceito do disco, ou nessa nova realidade de “Fiz uma música, vou lançar meu 78 rotações digital”, coloco uma música no MySpace e tudo bem?
Luiz Tatit
 Você diz quando eu vou fazer o meu trabalho?
Tacioli – Você pensa no formato do CD, 12 canções?
Luiz Tatit – Eu penso de uma forma muito conservadora de trabalho. Não que eu não tivesse interesse, mas eu precisaria de alguém que fizesse isso pra mim, de lançar faixas antes… Eu não tenho temperamento e nem gosto por isso. Pra mim computador é somente a parte prática, o que facilita pra mandar uma coisa pra lá, pra receber, então  a minha concepção ainda é CD. Eu só penso em gravar quando eu tenho um CD pronto de composições novas. Ainda a minha cabeça é essa, embora eu saiba que não é mais essa a cabeça, mas também como eu já sou um compositor de 35 anos atrás, comecei há muitos anos, eu não vejo problema para quem já está nessa de continuar a fazer seus CDs. Aliás, contribui muito mais fazendo isso do que tentar agora assim meio oportunisticamente tentar uma coisa mais… Eu não tô mais querendo projeção de nada, o que tenho está completamente suficiente. E eu acho que estou deixando tudo o que precisa deixar pra se tiver algum valor para depois. Então, não tenho muito preocupação com relação ao que possa acontecer, e eu sei que depende de sorte. Então, deixa pra lá?

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