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Entrevistas de música brasileira

Luiz Tatit

Luiz Tatit por João Correia/Gafieiras

Luiz Tatit

parte 11/18

(O Rumo) está começando a ser reconhecido

Tacioli  Você disse que em boa parte do tempo está envolvido com o trabalho. E o trabalho é sempre árduo. O que te dá prazer?
Luiz Tatit  Quando o trabalho está pronto! [risos] Tem alguns momentos que o trabalho me satisfaz, por exemplo, sai um artigo que eu queria que saísse, daí eu leio o artigo dentro do livro, dentro da revista, sai um livro novo, “Pô, ficou bom isso daqui!”, sai um disco novo… Então, nesses momentos eu tenho muito prazer. Quero dizer, no final. Por isso eu fico correndo o tempo todo atrás pra chegar nesses momentos, no final de alguma coisa. Agora, claro, tem as coisas pessoais, como quando nasce um filho, você fica contente, aquilo passa a te tomar de uma forma impressionante. Tem alguns momentos de reconhecimento de tudo o que você fez, de um prêmio que você ganhou… Tem alguns momentos que satisfazem, né?!
Max Eluard  E essa história do reconhecimento, Tatit, você se ressente ou pensa que o trabalho do Rumo ou o seu próprio merecia ser mais reconhecido? Como você lida com isso?
Luiz Tatit  Eu lido da seguinte maneira: acho que ainda nem começou o reconhecimento. Está começando. Você já tem sinais, tem teses feitas sobre isso, tem programas e DVDs inteiros sobre isso, tem um monte de coisa… O que achei importante a vida inteira foi ter registrado tudo. Tudo está registrado e, mais recentemente, até com imagens. Tudo está registrado. E tenho a impressão que a carreira desse esforço todo está somente começando. Ainda vai longe, não sei nem se vou ver. [ri]
Max Eluard  Você está dizendo mais no aspecto da opinião pública, pra fora, né? Internamente, dos outros músicos, dos parceiros de profissão, como é? Você sente que eles reconhecem o trabalho do Rumo e do seu?
Luiz Tatit  Sim, muito! Internamente é fácil porque tem até uma certa cumplicidade interna de reconhecimento de gente muito próxima, que tem aqueles discos de cabeceira a vida inteira. E gente que eu nem conheço que segue os passos desde 1974, quer dizer, mais de 30 anos. Até nesse show da Vanessa (Bumagny) veio um cara dizer pra mim que ouve os meus discos de cabo a rabo desde o primeiro do Rumo. Ele só queria dizer aquilo para desabafar. Essas coisas acontecem muito, não em um nível de mídia, mas acontecem muito pra mim e é claro que você se sente recompensado. “Poxa, que bacana que tem gente que ouve!” mesmo na época da gente, né?! Bom, basta morrer que a coisa cresce… [risos] Isso a gente sabe que o aumento é enorme, mas dane-se, não vem ao caso, mas o que interessa é o que eu já tenho de reconhecimento é totalmente suficiente. Era mais ou menos isso que eu imaginava mesmo. Imaginava isso, que tivesse um pouco de reconhecimento na área artística e um pouco de reconhecimento na área de pesquisa. O que eu fiz foi isso…
Dafne  Tem uma diferença do reconhecimento que o Rumo tem em São Paulo do reconhecimento que o Rumo tem no Brasil.
Luiz Tatit  Nunca o Rumo chegou a ser um acontecimento nacional, aliás, toda essa vanguarda paulista nunca teve uma repercussão muito fora daqui. O Arrigo teve algumas chances de televisão, sobretudo na época do festival, que deu uma exposição um pouco maior, mas mesmo assim a gente sente que isso ficou, né? Pelo menos o nome dele ficou mais conhecido um pouco mais nacionalmente. Mesmo Itamar, com aquele trabalho maravilhoso que ele já fazia, era o mais profissional de todos nós, um trabalho já prontinho para entrar na boca do povo, pra entrar na mídia, mesmo ele ficou um tempo todo… Então é uma espécie de estigma de uma época, que coincidiu com problemas econômicos do Brasil, quem for analisar mais seriamente vai ver que tem vários fatores que fizeram com que esse grupo ficasse mesmo a margem.

Grupo Rumo se apresentando na Avenida Paulista em 1983. Foto: Glória Flugel

Dafne  Já faz uns bons anos, mas eu me lembro de um texto do Wisnik no Mais! sobre a música de São Paulo, o porquê da música de São Paulo ter uma especificidade que às vezes não bate com a do resto do país, sempre uma espécie de bicho estranho. Tem isso também?
Luiz Tatit  Isso é uma ideia dele. O Wisnik tem um pouco essa ideia; ele tem uma visão muito clara das regiões brasileiras. É impressionante! Por ter circulado um pouco, ele tem muitos amigos de vários lugares do país, ele fica observando características de Pernambuco, do Rio, da Bahia, características do Sul, sobretudo de Porto Alegre, e daí ele compara com as características de São Paulo, que é onde ele vive. E ele acha mesmo que, como São Paulo não tem muita raiz – São Paulo é uma cidade um pouco afastada dessas origens brasileiras, como é a Bahia, mesmo o Rio que depois importou da Bahia toda aquela tradição, principalmente depois que virou capital. São Paulo nunca foi capital. São Paulo é de uma pungência econômica fantástica, então tudo que é moderno começa aqui, não tem história pra contar, sempre tem história, mas é uma história que não tem graça, porque é uma história que não tem folclore, talvez o interior de São Paulo um pouquinho mais, mas a capital não tem isso. É um lugar de encontro das pessoas. E as pessoas passam por aqui, porque por aqui tem dinheiro, então todos têm de se apresentar aqui, e daí se encontram em hotéis, em uma boate, então tudo é muito provisório, não tem raiz. As pessoas se encontram por aqui de passagem. Então isso daria uma configuração pra São Paulo de, primeiro um lugar propício às novidades, porque só se vê novidade aqui porque ninguém está virado pra trás, está virado pra frente, isso é o que interessa pra São Paulo. Até a cidade, a arquitetura da cidade é uma arquitetura de passagem, ninguém acha lindo pra ficar olhando. Então, você passa, precisa ter conforto pra se instalar, fazer o que tem de fazer e ir embora. Não é um lugar onde se quer ter uma casinha pra viver! Ninguém vem pra São Paulo pra isso. Então, São Paulo tem essa característica muito de olhar pra frente, ao mesmo tempo passageira, não tem uma característica de raiz e propicia que aqui tudo possa gerar. Primeiro porque tem dinheiro, tem muitos centros investindo nisso. Essa coisa dos Sescs que tem em São Paulo, tem dezenas de Sescs aqui em São Paulo funcionando, é só aqui. Tem Sesc em outros lugares, mas nenhum funciona desse jeito. Então, é dinheiro sobrando no sentido de que se investe em cultura também. Em relação ao resto do país, tem muito mais condições. As pessoas vem se apresentar aqui. As pessoas perguntam muito pra mim: “Por que você não vai lançar seu disco no Rio?”. Eu falo: “Onde?”. Não tem onde se apresentar. Às vezes o Banco do Brasil faz uma programação e você vai, mas é muito pouco. Aqui eles vem o tempo todo. Estão nos teatros nossos o tempo todo. São Paulo tem esse lado que o Wisnik analisa muito bem, de lugar provisório, onde as coisas acontecem com mais facilidade. O estouro do Tropicalismo, e da própria bossa nova, que começou no Rio, mas teve público realmente em São Paulo.
Dafne Sampaio  A Jovem Guarda também?
Luiz Tatit  A Jovem Guarda. A Record naquele momento quase era a fisionomia de São Paulo levada para o Brasil inteiro. As pessoas nem moravam aqui, moravam no Rio, mas vinha aqui para fazer show na Record e voltavam pra lá. É uma cidade que está sempre em construção. Eu disse em um documentário, (São Paulo) está sempre em obras, até do ponto de vista físico. E, de fato, até do ponto de vista físico, todos os lugares estão em obras, o trânsito não anda, o trânsito está emperrado. É uma pungência fabulosa!
Dafne Sampaio – Mas você concorda com a tese do Wisnik de que isso talvez seja por isso que a música paulistana ou uma boa parte dela até os anos 1980, começo dos 90, fosse um bicho estranho para o resto do país?
Luiz Tatit –
Aí é uma coisa que eu nem concordo tanto… Sabe o que é: isso dá a impressão de que a gente pode ficar reclamando, “Ah! Não aceitam a música da gente!”… E nem tem nada mais paulistano que a Rita Lee e o Arnaldo Antunes, que são duas figuras que têm projeção nacional em todos os sentidos, até fora do país, e se dão muito bem. Houve bandas de rock, como o Titãs, Ultraje, que tiveram uma força, que se compatibilizaram com o mercado, com o que tinham que fazer e deu certo. Talvez seja mais difícil um pouco. Lá no Rio a gente sente que tem muito a história do conhecimento, um é conhecido de não-sei-quem, a Globo está lá, então tudo o que entra na Globo a difusão se multiplica de uma maneira geométrica, então é diferente. Mas, ao mesmo tempo, eu sinto que grandes figuras aqui, com o Tom Zé, ele escolheu São Paulo para morar. Ele mora aqui, irradia para o resto do país, prefere viver aqui a viver no Rio de Janeiro, e dá certo também. Então, eu acho que há mesmo um estranhamento com coisas de São Paulo, e não tem a mesma facilitada de serem incorporadas em nível nacional como tem as coisas que ocorrem no Rio. Às vezes coisas fracas do Rio de Janeiro dão certo do ponto de vista de mídia por causa da facilidade de divulgação. Facilmente entra numa mística de celebridade, lá é muito fácil isso, e às vezes não tem valor nenhum aqui, mas tem repercussão. Aqui demora um pouco mais, “Poxa, coisas importantes mas que não irradiam para o resto do país!”. Pode ser que tenha um pouco disso. Mas eu prefiro nem pensar que haja qualquer barreira pra São Paulo.

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