gafieiras

gafieiras

Entrevistas de música brasileira

Luiz Tatit

Luiz Tatit por João Correia/Gafieiras

Luiz Tatit

parte 10/18

Não produzo nada por prazer

Tacioli  Luiz, vamos voltar um pouco, nem falo do Grupo Rumo, mas dos anos 1970, a esse período da universidade. Qual era o grande barato de ser universitário nos anos 1970? O que vocês curtiam fazer em São Paulo? Fale um pouco dessa vida mundana. [risos] O que você pode falar?
Luiz Tatit – Esse período é meio sem graça pra falar… [risos] Não tinha tanta atividade assim. O que eu posso dizer mais é o meu caso, né?! Primeiro, eu fui muito engajado na universidade, não no sentido estudantil, não nisso, mas foi um período em que comecei a me dedicar muito a um projeto de vida. Primeiro fiz duas faculdades: fiz a ECA e fiz Letras simultaneamente, porque naquela época podia. Então, você imagine, a ECA era tempo integral, era período integral; cheio de janelas, mas era período integral, e eu estudava à noite em Letras. Então eu já ia direto da ECA pra Letras, ainda bem que era pertinho ali, e ficava até 10h30. Então a minha vida começava de manhã na faculdade e nas horas vagas, quando não tinha aula, eu vinha aqui dar aula, eu, de violão, pra ter o meu ganha pão ali porque na verdade eu vivia disso, inclusive pra manter o Rumo; Era aquele dinheirinho de aula que eu tinha, né. Então eu tinha uma vida… E ainda queria que essa parte de… Eu gostava muito de montar grupos – o Rumo era um deles – mas ao mesmo tempo grupos de estudos de outras áreas. Então eu tinha um grupo em psicanálise, de discussão sobre temas psicanalíticos; tinha um grupo de estética, discussões sobre estética, que eu mantinha assim já fora do horário. Eu saia às 10h30 e ainda ia pra uma reunião de grupo até a meia-noite, pra manter estes estudos também paralelos… Tinha também um de Sociologia, que a gente fazia aqui nesse ambiente também, que era com pessoas ligadas a tanto a Ciências Humanas, como Medicina, tinha gente de todas essas áreas, ainda estudantes… Enfim, a gente queria quase que abraçar o mundo assim em termos de controlar quase que todas as vias de reflexão que na época poderia ter. Era um época muito podada, do ponto de vista de participação efetiva, porque a política estava completamente fechada, então a gente tinha que fazer essas coisas meio de porão, sabe? Conversar aqui sobre isso, conversar aqui sobre aquilo, onde que a gente vai fazer a revolução, não é? E uma delas que era a mais a mais concreta pra gente era pela musica mesmo, só que não a revolução lá do departamento de linguística que era essa musica pra sempre, mas na canção, isso tinha, esse objetivo. Então essa década de 1970 pra mim era uma década quase que eu estava me formando em todas as áreas, sabe, e escolhendo qual seria o meu itinerário. Fiz as duas faculdades até o final pensando nisso e já emendei no finalzinho com a pós-graduação, daí que eu vi que ali tinha… eu nem sabia da existência da pós-graduação quando eu estava fazendo faculdade; daí em Letras eu percebi que ali tinha um curso pelo menos mais consistente que daria pra continuar. Pra mim seria muito brusco sair da faculdade e não ter como continuar a pesquisa, continuar àquelas coisas todas, e ali eu vi o viés. Então na verdade foi isso, a gente tinha… no Rumo, tinha um convívio muito de ensaios semanais e tinha um outro dia da semana que era pra discussão… [risos]. Então ainda tinha… Você percebe? O dia do ensaio e o dia da discussão. Uns gostavam mais da parte do ensaio, outros gostavam também da parte da discussão, e uns só gostavam da parte de discussão, porque nem eram músicos mesmo; o Rumo tem dez pessoas, uns quatro são mais ligados a musica, o resto é tudo gente que gosta de canção mas não… não poderia levar um trabalho musical realmente sozinho, né? Então tinha todas essas facetas aí, então quase que a gente vivia em torno desse trabalho que a gente estava concebendo, estava, né… era difícil, não tinha tanta…
Tacioli  Vocês não saíam pra tomar um birinaite… Onde vocês iam em São Paulo?
Luiz Tatit  Só em dia de festa assim que era aniversário de não sei quem… Era uma coisa… A gente saia de um compromisso pro outro, pro outro, pro outro… A gente tinha a impressão que com esse tempo todo tomado, a gente estava no bom caminho. [ri] Percebe? Quer dizer, estávamos atrás de alguma coisa que íamos conquistar; era uma coisa bem ideológica mesmo daquela época, né?
Tacioli  Se alguém recebesse seu telefonema convidando pra um churrasco ia achar estranho.
Luiz Tatit  Difícil. Eu nunca na vida tive tempo. Hoje eu tenho mais tempo. Mas nunca na vida… Sempre foi uma coisa assim, nunca tive tempo pra nada. Sempre foi um negócio de cumprir tarefas que eu mesmo acabava me impondo… Enfim, foi o que propiciou para que eu chegasse a alguma coisa que eu estava querendo. A gente nunca teve, como você disse, a vida mundana, que era muito de grupo de rock, que tem muito a vida ao lado das participações musicais, de tocar, tem também a vida, o estilo de vida que é tão importante quanto a vida profissional, isso passou longe da gente. Nunca tivemos esse lado mal-comportado, coisa de época, de juventude.
Tacioli  Mas da boemia mesmo, que é ligada a tanto outros gêneros…
Luiz Tatit  Exatamente, mas isso também é uma coisa pessoal, eu nunca funcionei bem à noite, pra mim é de dia, de manhã. O melhor horário pra mim é a manhã.
Tacioli  Mas o grupo compartilhava essa mesma concepção?
Luiz Tatit  Não, não tinha. No Rumo você não tinha esse modelo de boêmio, de compositor, de músico. Acho que ninguém lá é assim, muito pelo contrário, todos são muito matutinos, todos trabalham de manhã. Todos, todos mesmo, sem exceção, não tem nenhum que fique na noite. Nunca eu vi isso. Somente em dia de festa, mas tem de ter alguma coisa muito especial pra tirar da rotina. E, talvez, até eu tenha me dado tão bem com o pessoal por causa disso, temos um ritmo muito parecido. Os nossos ensaios eram de manhã! Imaginem um músico fazer ensaio de manhã! [risos]
Max Eluard  Somente se não dormiu, né?
Luiz Tatit  É, exatamente. Só se emendasse. Pra nós, não, é natural levantar, fazer ensaio. Realmente nunca tivemos um compromisso juvenil com as coisas, aquela certa irresponsabilidade que você tem todo o direito de ter durante uma fase. Sempre, pra nós, tinha uma coisa clara na cabeça, do que devíamos fazer. Foi assim a vida inteira.
Max Eluard  Hoje, fazendo uma avaliação dessa obsessão, dessa busca, você já consegue ver onde chegou, o que ela trouxe?
Luiz Tatit  O que eu vejo é que eu não conseguiria fazer de outro jeito pelo temperamento, entra um pouco isso. Hoje eu relativizar tudo. Você vai ficando mais velho, sempre vai relativizando, “talvez fosse melhor se tivesse aproveitado…”, um pouco daquela música dos Titãs, “eu devia ter visto mais o por-do-sol”… [n.e. Música de Sérgio Brito lançada pelo grupo paulistano no álbum A melhor banda de todos os tempos da última semana, 2001] Eu, na verdade, nem que eu ache isso atraente, eu não teria temperamento pra isso. Meu temperamento tem alguns planejamentos para eu seguir aquilo de alguma maneira. A produção pra mim é muito importante. Eu não produzo nada por prazer. Esse negócio de ter prazer… pra mim é tudo trabalhoso, eu tenho que me obrigar a fazer, não tem essa história de prazer, nem de compor, nem de escrever, nada. Tudo eu me esforço pra fazer, me tranco no quarto pra fazer… A vida inteira foi assim. Acho lindo quando o pessoal diz “A inspiração vem, eu faço, fico à vontade, não gosto de me forçar a fazer nada!”. [risos] Eu só me forço a fazer senão eu não faria nada! Eu não faria nada sem me esforçar! Não vejo essa possibilidade. Eu fico até aliviado de ver que tem grandes artistas que são assim também, pelo menos nas entrevistas, como o Chico Buarque. Chico Buarque só faz as coisas porque ele se castiga pra fazer, porque senão ele não faria também. Ele já falou isso várias vezes. “Eu fico lidando, largo, volto, largo, volto. E tenho que terminar isso até sábado porque senão eu não me chamo mais fulano de tal” [risos] Pra mim a experiência é essa. Esse negócio de que sai tudo tranquilo, nada sai tranquilo.
Tacioli  Mas daquela fase das 200 músicas também era assim?
Luiz Tatit  Era assim, era assim, eu me esforçava pra fazer pra imitar os que faziam. E eu desconfio de que seja assim pra todo mundo e depois vira anedota. Eu tenho uma desconfiança tremenda! Tenho desconfiança porque eu não conseguiria. Talvez tenha gente que consiga fazer tudo numa boa quando está bem de cabeça. Se eu for esperar eu estar bem de cabeça eu não componho nada! [risos] Estou sempre angustiado, ansioso. Isso não existe!

Tags
Luiz Tatit
de 18