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Entrevistas de música brasileira

Luiz Tatit

Luiz Tatit por João Correia/Gafieiras

Luiz Tatit

parte 9/18

Os músicos (de hoje) são melhores que os de antigamente

Max Eluard  Você vê na música brasileira hoje algum trabalho que segue esse caminho, com esse ponto de intersecção da poesia com a música? O que você vê na música brasileira hoje de interessante?
Luiz Tatit  De produção?
Max Eluard  De produção.
Luiz Tatit  Ah, de produção. Na verdade, o que eu vejo de produção é a música mesmo, o que está acontecendo hoje. Eu acho que a canção hoje está num auge absoluto, nunca esteve assim, inclusive pela heterogeneidade que ela tem. Por exemplo: ontem ou anteontem fui ver um show da Vanessa Bumagny. [n.e. Cantora e compositora paulistana, tem três discos lançados: De papel, 2003, Pétala por pétala, 2009, e O segundo sexo, 2014] Show maravilhoso, show maravilhoso! Tudo músicas novas, com exceção de uma do Chico [Buarque] que ela cantou. Músicas novas que ela compõe, às vezes com o Chico César, às vezes com o Zé Baleiro, às vezes sozinha, às vezes com outros músicos que não conheço. Todas canções lindas, maravilhosas! Um show muito bem feito, muito bem dirigido. Essa está sendo a constância. Fui ver um show no começo do ano, do Celso Sim, maravilhoso! Aliás, os últimos shows que o Gigante (Brasil) participou tocando bateria. [n.e. Jorge Luiz de Souza, o Gigante Brasil, foi baterista e integrou as bandas Isca de Polícia, de Itamar Assumpção, e Gang 90, de Sérgio Barroso. Morreu aos 56 anos de idade, em 2008] Foi um show que saí emocionado. Então, veja, hoje qualquer showzinho – e é showzinho porque é pouca gente, é barato – numa dessas unidades escondidas do Sesc, lá no da Paulista, por exemplo, você vai ver o show sempre é bom. Os músicos são muito melhores que os músicos de antigamente. As pessoas vivem disso com projetos: tocam aqui, tocam ali, ganham pra fazer aquilo. Antigamente você não tinha como ganhar, pelo contrário, nós pagávamos para tocar. O Rumo sempre pagou pra tocar até o fim. No final começou a bater as despesas… Tinha começado o Sesc Pompeia, que não dava cachê. O Sesc Pompeia simplesmente tinha uma certa condescendência quanto à bilheteria: às vezes eles falavam “Nós ficamos com 30% da bilheteria e vocês ficam o resto”, só isso! Você não ganhava nunca pelo que você fazia, a menos que você fosse uma grande expressão da música brasileira, com gravadora por trás e tal. Então, hoje eu acho que é o paraíso frente àquela época. Claro que tem outros problemas. O problema hoje é a concorrência, que é muita gente boa, e todo mundo já começa com disco. Ninguém precisa chegar ao disco como naquela época… Já começa (a carreira) com o disco, já sai de casa com o disco, daí vai ser musico, né? Quer dizer, não tem, é outra (realidade). Então, a concorrência hoje está braba! Isso é outro problema, mas as pessoas vivem disso, tem cachê, fazem os projetos e levam até o fim, fazem excursão e tal… As condições do Brasil melhoraram em termos econômicos. Tem mais investimento nisso, tem Lei Rouanet, lei do não-sei-o-quê, Petrobras apoiando, às vezes o próprio Sesc apoiando, quer dizer, hoje é como se fosse o paraíso. Então, a possibilidade de ter produtos bons como esses que a gente vai ver em qualquer show (é muito grande), todos os shows são deslumbrantes a meu ver, maravilhosos, e isso antigamente não existia. Antigamente quem conseguia se apresentar era com aquela pobreza de sonoridade, você não conseguia ouvir a voz, não sabia o que que o cara estava cantando, a aparelhagem era toda (danada)… Você só tinha grande investimento nisso em grandes teatros, como no Canecão, como nos grandes teatros de São Paulo… Agora, em qualquer lugar que você vai o som é ótimo, você entende tudo que se canta, as condições tecnológicas são muito melhores… Nunca a canção viveu tão bem como hoje, por isso é engraçado esse paradoxo, de que a canção está acabando, quando ela está no auge, e quando só tem promessas de melhorar.
Dafne  A questão comercial versus Rumo nunca foi uma…
Luiz Tatit – Isso já era um dado pra nós, era uma coisa dada… [risos] Não tinha… Era assim mesmo e pronto, era assim a vida…
Dafne  É da vida!
Luiz Tatit  É, exatamente. Claro que tínhamos um desejo tremendo de que alguma música tivesse sucesso, até pra gente poder produzir mais, viver mais disso, alguma coisa nessa linha. Nós tentamos por algumas gravadoras, mandávamos essas fitas demos e tal, mandávamos. Nos anos 1980 nós tentamos algumas coisas pra facilitar um pouco a vida da gente, mas sempre vinha um retorno – até muito educado e tal –, sempre dizendo que não era o que estava se lidando naquele momento… E não era mesmo. Os anos 1980 nós vivemos em crise financeira a década inteirinha, chamada de “década perdida”. Não houve nada. Então, o que havia era o seguinte: “Vamos pegar uma linha de produção, de gênero, e vamos investir nele”. Na época dos anos 1980 a decisão recaiu sobre o rock, porque era uma espécie de retomada da Jovem Guarda, era uma coisa fácil de fazer, arranjos fáceis, um apelo juvenil forte – sobretudo era isso que interessava, se não pegar jovem não vende disco. Foi essa a aposta, tanto que, de repente, nós tínhamos começado com um impulso tremendo a década, em 1981, 1982, e de repente deu uma refecida total, quase que fomos estrangulados em termos de distribuição, de tudo, porque as lojas já não queriam mais os discos da gente, só interessava quem já tinha contrato  com as gravadoras. Então, as grandes lojas só aceitavam produtos das grandes gravadoras, e em alguns lugares era proibido de vender (disco) independente. Se vendesse independente, as grandes gravadoras não deixavam seus produtos. Enfim, fomos estrangulados ali em 1985, 1986, não teve mais jeito.
Tacioli  Mas qual era o público do Rumo nessa época?
Luiz Tatit  Tinha um público fiel, mas era um público que começou muito grande em 1981 por causa da efervescência, depois diminuiu e estabilizou. Daí, onde a gente fazia show iam aquelas pessoas. Mas a gente podia fazer uma temporada por ano, se começasse a fazer muito já esvaziava porque todo mundo já tinha visto. Era um grupo restrito, era um público bastante restrito.
Tacioli  Mas essa discussão, Luiz, como ela permeava o grupo, sua existência, sua continuidade?
Luiz Tatit  A gente não estava dependendo disso, embora quisesse, né. A gente gostaria que tivesse… Se alguma gravadora tivesse bancado naquele momento eu acho que nós teríamos uma vida, inclusive, mais longa, e teríamos produzido muito mais, porque era difícil pra gente a produção. É aquela história: a gente vai ficando mais velho, todos já tinham filhos e precisam de dinheiro, então, claro que todo mundo estava encaixado em outra coisa já: eu na universidade, o Paulo já estava tentando fazer trabalhos paralelos com música, o Zecarlos, que era um grande compositor, mas já estava se embrenhando na arquitetura com tudo… [toca o telefone]
Tacioli  Se quiser atender…
Luiz Tatit  Dá pra atender?
Tacioli – Claro.
Luiz Tatit  Daí eu já aproveito pra desligar. “Alô? Oba, tudo bem? Certo. Sei… Nossa!”

[Depois de alguns minutos]

Luiz Tatit  Esqueci onde estávamos.
Dafne  Nós também. [risos]
Luiz Tatit  Então, retomamos…
Dafne  Por outra seara.
Luiz Tatit  Por outra seara.

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