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Entrevistas de música brasileira

Luiz Tatit

Luiz Tatit por João Correia/Gafieiras

Luiz Tatit

parte 0/18

De olho no tempo

Ele tem muitos afazeres. E faz todos. Tem pavor do tempo em vão e de tudo perfeitinho. É organizado, metódico, objetivo. Paulistano nascido em outubro de 1951 no bairro de Pinheiros, Luiz Augusto de Moraes Tatit é um sujeito das palavras. É também da música, do ritmo, mas com a letra ali, montada e determinando o galope, a velocidade, a melodia. E não pense que ele fala ou escreve difícil. Com Luiz Tatit o papo é reto.

Foi na juventude vivida no início dos anos 1970 que o interesse pela palavra começou a ganhar estatura. Antes, adolescente, compunha músicas influenciadas pela Jovem Guarda, Tropicalismo e pelo repertório ouvido em casa. Na Universidade de São Paulo (USP), ao lado de outros colegas, criou em 1974 o Grupo Rumo, “formado por uns meninos que viviam meio mal, gostavam muito de música, mas sem tino comercial”, como esmiuçou na biográfica “Release”, samba-enredo que encerra o disco Caprichoso (1985).

Ao lado de Itamar Assumpção, Arrigo Barnabé e Premeditando o Breque, o Rumo fez São Paulo ter uma cena musical diferente, “a chamada vanguarda paulista”. O time chegou a ter 10 integrantes, como Ná Ozzetti, Paulo Tatit, Hélio Ziskind e Gal Oppido. Nos seis LPs que lançou expôs a chave que o faz eternamente um “grupo novo, singular”: o canto falado. É a valorização da entoação, espécie de melodia que existe em cada fala. Por meio dessa investigação, construiu uma música em que parece que o intérprete fala, mas canta, e o texto está claro, falado. Mário Reis, João Gilberto e o rap estão aí para provar, antes e depois.

E assim, com frases que não se repetem, distante de refrãos e tendo o violão a sua cama elástica, onde a palavra e o ritmo sobem e descem, que Tatit construiu sua obra. Soma-se, ainda, um humor melancólico, o comum e o insólito, a ironia ao otimismo de bula e à esperança perdida, um lance Charlie Brown, o personagem carismático e desajeitado de Charles Schulz. É só ouvir “Felicidade”, faixa-título de seu primeiro disco pós-Rumo, de 1997.

Nessa carreira individual, Tatit tem seis álbuns, dois deles nascidos depois desta entrevista: Sem destino (2010) e De nada mais a algo além (2013, ao vivo com Arrigo Barnabé e Lívia Nestroski). Sua voz não se ouve no rádio, mas suas criações estão nos palcos por meio da Palavra Cantada (do irmão Paulo), Zélia Duncan, Ná Ozzetti, sua principal intérprete, Suzana Salles, Ceumar e Ney Matogrosso. Ele também não está na TV; vive na USP, onde é professor titular do Departamento de Linguística da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. A paixão pela música estende-se para boa parte de seus dez livros publicados, o primeiro de 1986 (A canção: eficácia e encanto), o mais recente de 2010 (Semiótica à luz de Guimarães Rosa) e o mais famoso, de 1996 (O cancionista: composição de canções no Brasil).

Esta entrevista foi realizada em 2009 seu escritório, no Butantã, em uma casa que foi de seus pais. Com sorriso econômico e respostas para todas as perguntas, Tatit equilibrou a persona professoral com a do músico. Recordou a adolescência e as aventuras do Rumo; falou do seu jeito de trabalhar e de criar solo e em parceria, revelou o que o deixa em pânico e somente no finzinho do bate-papo entregou o motor de sua inquietação: a relação com o tempo. Que explica tudo. E por essas e outras que o leitor verá que se trata de um artista diferente, não afeito à boemia e aos excessos; ele é um zelador da sílaba que interroga o que está à sua frente. Não é pouco.

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