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Entrevistas de música brasileira

Luiz Melodia

Luiz Melodia por Dafne Sampaio/Gafieiras

Luiz Melodia

parte 8/25

No Exército vi uns lances sérios

Tacioli  Mas antes da Gal gravar “Pérola negra”, quando ainda você fazia dupla com o Mizinho, ou mesmo com Os Instantâneos, como você imaginava que era ser artista? O que significava para você?
Melodia  Imagina que ser artista era se dar bem, não estar naquelas condições em que estava vivendo. Você gostaria de ter um carro, você queria ter uma vida melhor, você queria ter mais condições de vida. Na minha família, eu tive tias muito mais fudidas que eu, que eu via no dia a dia, quando ia a Bangu, nos bares, e ficava na casa delas. Era uma pobreza imensa. Éramos milionários comparados com certas tias minhas que moravam na Zona Norte. Até porque meu pai era funcionário público e podia bancar um estudo pra mim. Eu é que não quis porra nenhuma! Estudei até… Fiz admissão. Você lembra de admissão, velho?
Sampaio  Entre a quarta e a quinta séries, não?
Melodia  É.
Almeida  Daí você parou, Luiz?
Melodia  Daí parei. Isso porque a música já estava acontecendo. Eu via que podia me dar bem, não me dar bem de grana, mas estar acontecendo, e isso logo depois que Gal Costa gravou. Mas antes eu servi ao Exército. Lá eu ainda tinha as minhas dúvidas, “Será que dá?”
Seabra  Você serviu em 1969?
Melodia  Foi. [sem muita convicção]
Seabra  Que ano, hein?
Melodia  Barra-pesada. Vi uns lances sérios pra caralho. Ditadura! Você sabe como é escoltar os caras, todos encapuzados, terroristas, o caralho? Aquelas situações desagradáveis. Até porque não queria viver aquilo.
Seabra  Você como soldado…
Melodia  Escoltei várias vezes.
Almeida  Você sabia quem eram, Luiz?
Melodia  Não, nunca. Porque aquilo era muito forte para a minha realidade. Eu já tinha a minha realidade de morro, então procurava não… Pode ser até covardia, ou me fazia de covarde. Era muito cruel, porque depois vinha o couro. Lembro-me de escoltar os caras até uma clínica lá em Madureira.
Seabra  E foi no Exército que você se tocou do que estava acontecendo no Brasil, ou você já tinha essa consciência?
Melodia  [ri] Eu procurava não querer participar, porque eu via tudo. Via o meu pai – que era muito político. Meu pai era chegado pra caralho.
Seabra  De direita?
Melodia  [ri] Era um pouco das duas [risos], dependia muito de como… Era um cara que ficava em cima do muro, porque negro…
Sampaio  Funcionário público.
Melodia  Funcionário público. Era foda! Quando a coisa apertava, “Vou ser da direita”. Quando a coisa apertava, “Vou ser da esquerda”. [ri] É engraçado, mas, porra, era visível essa coisa, ele queria proteger os filhos, como muitos queriam proteger os seus, e poucos conseguiram.
Max Eluard  Você ingressou no serviço militar como? Obrigatório?
Melodia  Obrigatório, não teve jeito.
Tacioli  Última baixa?
Melodia  Última baixa, lógico! Quase fui expulso e tudo. Eu não estava a fim de servir ao Exército, porra nenhuma! Lá também toquei muito, gostava de ficar com o violão. Conheci muitos amigos interessantes, legais, embora não encontre mais com eles, mas foram amizades legais pra caramba. Tenho até saudade de alguns. Você pode parar um instante? Posso dar uma mijadinha?
Almeida  Claro.

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