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Entrevistas de música brasileira

Luiz Melodia

Luiz Melodia por Dafne Sampaio/Gafieiras

Luiz Melodia

parte 7/25

Como eu ouvia muito rádio, ampliei meu lance musical

Max Eluard – Se você pensar, morro é samba. É uma associação automática com o samba.
Melodia – Agora, por que isso, velho?
Max Eluard – Pois é, essa já é uma outra questão.
Melodia – Engraçado! E negro, também, né?
Max Eluard – Opa! Negro e samba.
Melodia – Dá licença. Isso foi a primeira coisa, quando saí do morro, quando gravei o meu disco Pérola negra, recebi umas críticas, “Por que essas músicas?”
Max Eluard – Pois é, aí é que eu queria chegar, sobre essa vigilância.
Melodia – A pessoa, inclusive, me pediu desculpa. Não quero comentar o nome. Comentei tantas vezes, ele já deve estar arrasado, já está tão envergonhado ultimamente… [risos]
Sampaio – Trinta anos de vergonha.
Melodia – Vou poupá-lo, vou poupá-lo! A última vez em que nos encontramos foi com a Cássia Eller, quando estávamos fazendo o Casa de samba. Esse jornalista se encontrava lá. [ri] Ele veio, “Pô, você me desculpe, naquele começo de sua carreira e tal…”
Tacioli – Começa com “S”?
Melodia – Hein?!
Tacioli – Começa com “S”? [risos]
Melodia – Não, começa com “R”. [risos] Não é só um, não. Tem outros.
Max Eluard – E tinha essa vigilância…
Melodia – Esse que você falou começa com “S”. [risos] Não, com “C”! É Sérgio! Vou acabar falando! [risos]
Max Eluard – Como surgiu essa liberdade em seu trabalho? Foi uma coisa consciente, de você falar “Não quero fazer só samba. Fui criado no morro, vivo no morro, mas quero outras coisas!”. Como que foi isso?
Melodia – Olha só, a comunicação era o rádio. Televisão, só quem tinha grana, só quem tinha bala. No morro, apenas um ou dois tinham televisão. Lembro-me de Seu Danilo, que era um senhor, não sei se capitão, militar, ou senão o Seu Paulo Pé, que era um detetive. Esses eram os caras que, vira e volta, faziam as festas lá no morro. Eram os caras que tinham a grana, porque o resto… Mas, geralmente, militares. O que você me perguntou mesmo?
Max Eluard – Como surgiu essa liberdade para não ficar preso somente ao samba? Como você construiu essa liberdade para compor, para fazer a sua música?
Melodia – Pois é, eu queria ligar uma coisa a outra e… Enfim, eu ouvia muita rádio, todo mundo ouvia rádio pra caramba…
Almeida – Você estava falando que o rádio era o veículo.
Melodia – Foi isso, né? O rádio era o meio de comunicação. Só que quem tinha televisão eram essas pessoas, militares. Não era todo mundo que tinha essa liberdade, não. Então, como eu ouvia muito rádio, isso fez com que se ampliasse o meu lance musical, até porque eu ouvia de tudo. Não tinha televisão. O rádio era o único jeito. Ou senão, aos domingos, quando tinham uns grupos que se encontravam todo final de semana e faziam boleros. Na época, o bolero estava no auge, assim como música italiana. 60, 70, porra, era demais, era impressionante! Então, tinha uma rapaziada que gostava. Toda essa coisa da informação geral, velho. E com o rádio eu ouvia Jackson do Pandeiro, um programa chamado Hora sertaneja, tinha Jovem Guarda, Hoje é dia de rock, que era com o Jair de Taumaturgo [n.e. Programa veiculado na Rádio Mayrink Veiga carioca]. Uma série de programas. Esse Hoje é dia de rock era voltado para a música americana.
Max Eluard – E você não tinha bronca de música americana, que a esquerda e a vigilância repudiavam?
Melodia – A gente vivia pela música, velho. Acho que não dávamos essa importância, porque era tudo novidade, todo mundo aprendendo o primeiro, o terceiro acorde, ré maior.
Max Eluard – Então, pelo fato de não existir uma vigilância ideológica ali, aceitava-se muito mais…
Melodia – Mas havia censura.
Max Eluard – Mas não uma vigilância ideológica da oposição, da esquerda.
Melodia – Não, não, não. Mas tinha, de uma certa forma…
Max Eluard – Tinha quando você desceu o morro, quando o jornalista lhe cobrou sambas.
Melodia – Nada, velho! Não, não! Existia uma repressão no morro, compadre, de policiais. Os caras subiam o morro e era uma repressão fudida. Pra mim, era a mesma coisa de censura. Você não podia estar com um violão na rua. Quando os caras chegavam era pé na porta, uma coisa desse tipo. Embora tivéssemos até uma tranquilidade diferente de hoje, mas havia uma certa pressão, porque a Ditadura estava foda! Quero dizer, a gente nem descia o morro. Não podia nem descer! Agora é que descem. Nego brinca, tira onda e rende. Agora, fudeu! Abriram mão, fudeu! Mas existia também uma repressão, não sei se era mais leve, porque a gente ficava ali, preso naquele espaço e o couro comendo lá embaixo, o couro comendo no Brasil em geral.

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