gafieiras

gafieiras

Entrevistas de música brasileira

Luiz Melodia

Luiz Melodia por Dafne Sampaio/Gafieiras

Luiz Melodia

parte 6/25

Nunca perguntei "Por que Oswaldo Melodia?"

Almeida – Luiz, você cantava música dos Beatles e não sabia inglês, “éramos pobres, não tínhamos condições”. Em algum momento você sentiu que tinha que correr atrás para estar de igual para igual com outros artistas que já atuavam?
Melodia – Eu não me preocupava com isso. Eu via que a gente tinha bagagem, não só eu, mas muitos compositores lá do São Carlos. Muitos compositores! E na mesma idade que eu, 17 anos, compunham bacana pra caralho. Cheguei junto, mas muitos ficaram. Agora, chego lá, uns bêbados; muitos morreram. Toda a garotada da minha época, que compunha bacana, e que nunca mais vi. Eu tinha bagagem para chegar junto, mas sem essa preocupação, até porque já respeitava os caras. Eles já estavam, né?! Quando conheci o Jards Macalé [ri]… “Esse é o cara!” [risos]. Esses eram os caras. Wally Salomão, Hélio Oiticica. Era uma turma que se identificava com a periferia.
Tacioli – Nessa época você já usava o Melodia como nome artístico?
Melodia – Já. Porque, quando garoto, bem gurizinho, 12 anos, os caras me chamavam de Melodia e minhas irmãs ficavam revoltadas e retrucavam. Quando me chamavam “Melodia!”, elas “O nome dele não é Melodia. É Luiz Carlos dos Santos!”. “Vamos jogar bola, Luiz Melodia?!”, e eles se escondiam, porque elas vinham reclamar. Aí, depois vi que é tão bonitinho. E herdei do meu pai. Nunca tive a oportunidade, quando ele estava vivo, de perguntar “Por que Oswaldo Melodia?” Nunca consegui. “Pai, por que Oswaldo Melodia?!” Nunca consegui perguntar a ele “Por quê?” Morreu e não consegui perguntar, mas imagino que deve ser lance de boêmia, porque o cara era boêmio, era danado!
Tacioli – Como era o relacionamento com seu pai?
Melodia – Com meu pai?
Almeida – É. Era uma coisa “Aqui eu não posso ir”?
Melodia – Meu pai era, na época, repressor pra caramba, no sentido de querer bem o filho dele. Tanto que o meu pai jamais quis que eu fosse um músico. Nunca, velho! Nunca.
Max Eluard – Não tinha futuro.
Melodia – De jeito algum! Que pai com 60 – não sei com quantos anos – que vai dizer “Siga a música!”? Isso, jamais! Ele queria que eu fosse um doutor. Eu me lembro claramente que ele via o Jair Rodrigues, “Olha, só!” O Jair Rodrigues se apresentava de terno. “Jair Rodrigues, que maravilha!” Bem que eu admirava o Jair Rodrigues, só que a minha onda era outra. Porra, não tinha nada a ver com aquela situação do Jair Rodrigues. Porra! Mas, por ser um cara que gostava de samba, de música boa, principalmente do samba bom, [canta] “Ah! Que samba bom!”…
Max Eluard – Seu pai só fazia sambas?
Melodia – Mas não era um sambista, conforme dizem, “Pô, seu pai, Oswaldo, era um sambista!”, não! Ele compunha várias coisas, desde canções, boleros. Tem muitas coisas dele que precisam ser registradas.
Tacioli – Você tem esses registros, essas músicas?
Melodia – Dele?
Tacioli – É.
Melodia – Claro, claro. [ri]
Almeida – Você nunca pensou em…
Melodia – Agora estou pensando em gravar um disco de samba em que eu quero fazer algumas coisas dele. Inclusive tem uma que ele deixou que se chama “Linda Teresa”. Eu nem sei quem é essa Teresa, mas quero terminá-la. Tem um refrão que é bacana pra caramba. Quero terminá-la. E tem outras mais.
Tacioli – Dele você só gravou “Maura”?
Melodia – Gravei “Maura”, e tem uma outra, como é que é? Esqueci o nome. Mas foram duas. Daqui a pouco eu me lembro. Uma no Pintando o 7, que é a “Maura”, e a outra… me deu branco. [ri] [n.e. Gravou também “Ser boêmio”, no álbum 14 quilates, em 1997]

Tags
Luiz Melodia
de 25