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Entrevistas de música brasileira

Luiz Melodia

Luiz Melodia por Dafne Sampaio/Gafieiras

Luiz Melodia

parte 5/25

Torquato Neto deixou umas letras comigo e logo depois se suicidou

Seabra – Você falou que já estava desanimado quando essa turma do Wally Salomão chegou, que andava rodando os programas de calouro. Você foi nesses programas com “Pérola negra”?
Melodia – Eu não cantava música minha, não.
Max Eluard – Por quê?
Melodia – Não sei.
Max Eluard – Insegurança?
Melodia – Rapaz, não me lembro precisamente. Foi a primeira pessoa que me perguntou. [ri] “Você não cantava por quê?” Eu não me lembro, velho. Mas eu já tinha umas composições e tal, mas não cantava. Engraçado isso. Com a banda, eu e o Mizinho cantávamos.
Tacioli – Então, você e o Mizinho cantavam músicas de vocês?
Melodia – Isso. Mas não tinha “Pérola negra”, “Estácio, Holly Estácio”, que vim compor depois.
Seabra – Então, como é que foi mostrar para essa turma uma coisa sua? Qual era o ambiente, na casa de quem?
Melodia – O ambiente era dos melhores. Comecei a ter um contato com o pessoal da zona sul que, talvez, devo ter percebido, foi a grande chegada. Os caras tinham contato! Na época, o Wally Salomão ia dirigir o Gal a todo vapor. Foi quando ele foi ao morro e a gente se conheceu. “Porra, se você apresentasse esse menino, Melodia, à Gal Costa…”, disseram. Quer dizer, a música. Eu e a música, Luiz Melodia. [risos] Nisso, o Torquato Neto [n.e. Poeta, jornalista, cineasta, roteirista, ator e produtor cultural, Torquato Pereira de Araújo Neto, 1944-1972, nasceu em Teresina, PI, e foi um dos pilares do movimento tropicalista] já estava escrevendo sobre o meu trabalho, antes de eu mostrar minhas canções à Gal Costa. Não mostrei uma só, mostrei outras, independentemente de “Pérola negra”. Mas o Torquato Neto já falava do meu trabalho naquela Geléia Geral, uma coluna que ele tinha no Última Hora [n.e. Coluna assinada entre 1971 e 72]. Ele e Daniel Maia já falavam do meu trabalho. Inclusive, ele colocava assim: “Tem um negro magrinho no Morro do São Carlos que faz umas coisas mais interessantes!” Ele [ri] me punha na maior… Fiquei muito amigo do Torquato. Ele deixou umas letras comigo e logo depois se suicidou. Ele já tinha essa loucura de suicídio que, porra, é muito chato. Ele era uma pessoa muito interessante, muito inteligente, muito rápida. Me surpreendeu, “Caralho, que pessoa rápida!”. Na verdade, o pessoal que subiu o morro era muito rápido. Wally Salomão, cabeça é uma loucura, a mil por hora. Torquato Neto, Hélio Oiticica, eram todos rápidos, velho! E também de olho, “Tem uma rapaziada interessante!” Claro, intelectuais, o caralho, lógico! Eu lembro do Luiz Otávio, um cineasta, também era gente boa pra caralho. Era uma turma que marcou pra caramba minha carreira.

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