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Entrevistas de música brasileira

Luiz Melodia

Luiz Melodia por Dafne Sampaio/Gafieiras

Luiz Melodia

parte 3/25

Pensei em desistir da música e fazer Zoologia

Max Eluard – Hoje em dia toda molecada que nasce na periferia, no morro, vê na música uma salvação. Todo mundo quer ter uma banda de pagode, de funk, de rap. Na sua época existia isso, de encarar a música como uma porta de salvação?
Melodia – Não sei se era a salvação, porque havia uma molecada da minha idade que gostava de música sem ter essa expectativa. Era um prazer, realmente. Inclusive, havia alguns grupos. Lembro-me dos Instantâneos, que foi um dos primeiros grupos que organizamos, que tinha porrada pra caralho. O grupo era formado por mim, pelo Mizinho, que era baterista – ele não tinha as pernas, que as perdeu nas traquinagens nossas de bonde, mas tocava bateria legal pra caramba –, Manuel, guitarra, e Nazareno, que era irmão do Manuel, no baixo. Era divertido porque tocávamos em tudo quanto era lugar. Desde casamentos às festas juninas ou do bairro mesmo – festa humilde, mas de uma fortaleza. A gente tocava até amanhecer.
Almeida – E qual era o repertório?
Melodia – De Jovem Guarda ao que estava acontecendo, ao que era sucesso. Cantávamos também Beatles, embora não sabendo de porra nenhuma. [risos] Ninguém sabia inglês.
Max Eluard – Imitava o som, o fonema.
Melodia – É, exatamente.
Seabra – Você tinha 17, 18 anos?
Melodia – Por aí. Era muito divertido porque não havia nenhum compromisso em aprender inglês, até porque não havia condições, pessoal humilde, pobre, apesar de alguns terem uma certa condição, mas na verdade era mais uma diversão, era mais uma vontade de ser um astro, ou de admirar um cara e “quem dera se um dia eu…” [ri]. Era a onda! [ri] E desses pop stars que faziam sucesso, a gente cantava as músicas deles. Também fiz uma dupla com o Mizinho. Na verdade, quando saí do morro para poder tentar uma coisa maior, foi com o Mizinho. Formamos uma dupla que, por sinal, era muito interessante. Ele fazia uma oitava acima. Depois é que veio o grupo Os Instantâneos. Eu já havia falado dos Instantâneos, mas eles vieram depois.
Max Eluard – E com o Mizinho, qual era o repertório?
Melodia – Composições nossas e tudo. Chegamos a fazer televisão, ir a estúdios de gravações fazer testes. Eu me lembro que fomos à CBS, que era o máximo. Até queria ir à CBS porque havia o Roberto Carlos, que era um dos nossos ídolos. Eu era fã do Renato e seus Blue Caps. Jovem Guarda pra mim era um barato, até pelo romantismo. Sempre fui um cara romântico pra caralho. Embora tendo outras rebeldias.
Max Eluard – Você gostava muito da Jovem Guarda, mas deve ter sido bombardeado pelo samba. No morro não tinha como se livrar do samba, né?
Melodia – Impossível. Havia as escolas de samba, inclusive a Estácio. Mas existia um lance até legal. Meus pais tinham uns grilos com o samba. Talvez fossem os lugares mais barras-pesadas. Eles não queriam que eu fosse. Então, não davam muita força para que a gente freqüentasse a quadra, né?
Max Eluard – Isso era em que década?
Melodia – Tudo em 60. Depois, na de 70, que Luiz Melodia foi descoberto ou, Luiz Melodia descobriu o Wally Salomão [n.e. Poeta, compositor, produtor e diretor artístico baiano]. “Tem uma rapaziada ali no São Carlos que é maravilhosa”. Uma turma fantástica. Eles subiam no morro, até porque tinha novidade, tinha algo interessante que não havia na zona sul.
Max Eluard – E não estavam indo atrás do samba, especificamente.
Melodia – Não, é ruim ir atrás do samba. Iam atrás de outras coisas. [risos] Não estou falando nem de drogas, não! Estou falando mesmo de cultura, de estar lá. Filmavam, fotografavam e tudo era novidade.
Almeida – E como esse bando de branquelos era recebido?
Melodia – Bem. Não havia nenhuma arrogância. Até hoje não tem, mesmo com a bandidagem, com AR-15, drogas e o caralho. Nunca houve uma arrogância assim, a não ser se você mexer agora, ou tiver qualquer relação diferente que esteja envolvida com a droga. Mas naquela época os caras chegavam lá. Iam cedo. O Wally mesmo era uma das primeiras pessoas a chegar. E ficava direto, né? Tocava muito, quando não era eu, eram outros músicos, outros que tocavam ou apresentavam música. Aquela troca. Foi quando aconteceu de conhecer a Gal Costa.
Sampaio – Quando essa turma subiu, você estava fazendo o que exatamente?
Melodia – Eu já estava quase desistindo de música. Isso porque eu já tinha tentado muito. Inclusive, ia pra programas de calouros da Rádio Mauá, Rádio Roquete Pinto. Fui muitas vezes, e sozinho. Já freqüentava essa onda, tentando. Mas quando Wally Salomão e aquela turma surgiram, parece que caíram do céu. Numa boa.
Almeida – E você estava pensando em fazer o quê, depois de ter desanimado da música?
Melodia – A estudar. Sempre gostei de Zoologia. Eu estava pensando em parar, desistir da música, e fazer Zoologia.
Sampaio – Taí o Discovery Channel e a National Geographic.
Melodia – Pois é, taí o lance! [risos]

 

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