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Entrevistas de música brasileira

Luiz Melodia

Luiz Melodia por Dafne Sampaio/Gafieiras

Luiz Melodia

parte 2/25

Fiz minhas primeiras músicas com a viola do meu pai

Max Eluard – Como foi sua infância, Luiz?
Melodia – [silêncio] Tive uma infância legal pra caramba. Humilde, porque sou cria do morro, Morro do São Carlos, divisa com Estácio. A época de garoto talvez tenha sido um dos momentos mais legais, embora difícil, família humilde, condições pequenas, porém honestas.
Max Eluard – Seus pais faziam o quê?
Melodia – Meu pai, Oswaldo Melodia, [ri] era funcionário público. Minha mãe era costureira, uma costureira de mão cheia. Sempre comento isso, inclusive sempre falo que eu desenhava as minhas roupas e minha mãe as fazia. Era um barato! Tive uma infância maravilhosa! A pipa, a bola de gude, enfim, aquela ligação mesmo de menino de bairro, de favela, que corria. Liberdade, passarinho.
Max Eluard – E a música já estava presente?
Melodia – Já, já. Meu pai era compositor. Os primeiros acordes aprendi com ele. Ele tinha uma viola de quatro cordas que se chama “Viola americana”, com aqueles bojos. Não eram bojos, eram…
Tacioli – Como umas rodelinhas.
Melodia – Isso, violão que os nordestinos usam muito, os caras do repente. Ele tinha essa viola, que eu achava um barato. Ele cortava a minha de tocar porque tinha o maior ciúme. Era uma relíquia do meu pai!
Almeida – Mas essa viola tinha uma história, por isso esse apego?
Melodia – Não. Acredito que era uma viola que ele curtia. Ele e seu instrumento, e que jamais um menino de treze anos, porra, podia pegá-la. Já imaginou? Até que um dia quebrei a porra da viola.
Max Eluard – Quanto mais você não pode pegar, mais dá uma merda na hora em que você pega.
Melodia – Minha vontade de pegar a viola era imensa.
Almeida – Proibiu, né?
Melodia – Proibiu, fudeu, né?! [risos] E minha mãe sempre cortando ou vigiando. Porque quando eu pegava a viola, ele não estava em casa, ou estava trabalhando, ou, na Igreja. Esses eram os momentos em que eu pegava a viola para aprender alguns acordes. Inclusive, foi com ela que eu fiz minhas primeiras músicas, as músicas mais inocentes. Enfim, fazia umas canções que [ri]… Descobri que compunha, não importasse a letra. Às vezes, canto, mas acho vergonhoso. [ri]
Dafne Sampaio – Você se lembra da primeira que você fez?
Melodia – Ah, não faça isso, não, velho! [risos] Não faça isso, que não é legal. Já cantei no Jô Soares, mas é uma coisa bem tola, sabe?
Max Eluard – Seu pai freqüentava a Igreja. Sua família era muito religiosa?
Melodia – Era. Meus pais eram batistas. Eles iam, meus irmãos e eu também. Sou o único homem. Quatro irmãs. Então, todos íamos para a 1ª Igreja Batista, que ficava na Ladeira do Estácio. Até hoje ela se encontra lá, não sei se vocês conhecem? 1ª Igreja Batista, lá no Largo do Estácio, monumental, aquela beleza. E lá eu cantava também. Lá já esboçava um profissionalismo, porque era não-sei-o-quê dominical em que tinha um grupo, não era gospel, porque a 1ª Igreja Batista não tinha esse lance de gospel. No Brasil, nunca vi um som igual aos dos americanos. Mas eram hinos que eu cantava, participava do grupo. Era interessante. Eu gostava porque me libertava mais para poder cantar. Eu gostava pra caramba. Essa coisa fortificava pra caramba minha vontade.
Max Eluard – Mas você tinha uma relação forte com a religião ou estava ali apenas para cantar?
Melodia – Estava lá pela música. [ri] Pela religião, nada. Mas sempre respeitei a conveniência dos meus pais em relação ao Evangelho. Eu era um pouco rebelde diante disso. Era um ateu, ainda mais jovem demais. Na verdade, eu ia mais para cantar. Naquela época já cantávamos no morro. Eu lembro que tinha um primo meu chamado Gilson, que a gente fazia uma dupla em casa, mas era só de brincadeira. Eu cantava muito.

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