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Entrevistas de música brasileira

Luiz Melodia

Luiz Melodia por Dafne Sampaio/Gafieiras

Luiz Melodia

parte 22/25

"Pô, você que é o Chico César?"

Tacioli – Luiz, quais são os seus conflitos hoje? O que te aflige? As suas aflições são as mesmas daquelas dos anos 70, quando você estava nos primeiros discos?
Melodia – Não, embora eu esteja bem mais calmo do que no começo. Agora estou mais tranquilo, mas essa coisa de que todo mundo é cantor, de bandas uma atrás da outra – e todas ruins, ou senão, repetitivas, até pela facilidade que você tem de ter um estúdio em casa –, me incomoda, porque todos são artistas. E não é só em São Paulo, Rio de Janeiro. É em todo o Brasil. Você vai para Salvador e o que tem de artista, cantor…
Max Eluard – É uma coisa que o Mauricio Pereira falou pra gente: que por um lado a tecnologia trouxe a arte mais perto das pessoas, facilitando a produção, por outro lado, a música perdeu o sagrado, virou uma punheta.
Melodia – Perde-se, logicamente. Numa época, o sujeito tinha que cantar realmente, tanto que tinha calouros, você é ou não é. Eu lembro que tive que fazer testes [ri] para eu poder receber carteirinha de músico. Você tinha que fazer teste! É foda, compadre!
Tacioli – Nessa mesma linha, você acha que hoje dá para se ter clássicos na música?
Max Eluard – Serem produzidos clássicos, né?
Melodia – Está bem mais difícil. Clássicos, de composições?
Max Eluard – Sim, composições populares.
Melodia  Por quem? Uma geração de agora?
Tacioli – Eu não limitaria a uma geração.
Melodia – Não, isso é fácil, tranquilo. Qualquer um, Chico Buarque, Melodia, faz um clássico numa boa.
Max Eluard – Essa geração que está mais distante disso.
Melodia – Eu acho. Se sentar um Melodia e tiver a fim de fazer… Não se tiver a fim de fazer, “Vou sentar e fazer um clássico”, mas faz na continuidade do seu trabalho. Faz! Mas tem umas coisas… Folclorizam muitos os caras! A mídia inventa umas histórias que não existem. Eu lembro do Chico César quando ele chegou. As artistas todas “Eu quero gravar!”. Porra!, eu nem sabia quem era Chico César. Caralho, olha o cara! Eu me lembro, fui ao show da Gal Costa, e falei “Pô, você que é o Chico?”, “Você quer música?”, “Não, velho!”
Max Eluard – Você quer música! [risos]
Melodia – Ele estava viajando tanto. “Pô, Chico, pô!”
Max Eluard – “Eu quero te conhecer!”
Melodia – “Não, só quero te conhecer!” Então, fica essa situação de endeusar os caras, aí pinta umas besteiras dessas. Agora, acho que o Brasil é capaz pra caralho. Isso, em relação à criatividade. As pessoas que não estão gravando, ou melhor, que não têm acesso – no Morro de São Carlos tem vários caras que compõem lindamente. Tem um que vou gravar no próximo disco meu, chamado Mago, que é um puta dum compositor, um sambista de escola de samba. Quando eu era garoto, eu já ouvia coisas dele. Aí tem, aí você encontra.
Max Eluard – É que tem muita coisa soterrada.
Melodia – Pô, falou bonito. Soterrada! Ô, bacana pra caralho! [risos] Eu gosto dessas coisas bem pesadas. Soterrada. É isso!

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