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Luiz Melodia

Luiz Melodia por Dafne Sampaio/Gafieiras
parte 19/25

A música brasileira é maior do que seus medalhões

Almeida – Luiz, o Caetano gravou uma música de sua autoria pela primeira vez em Noites do Norte? [n.e. O tropicalista registrou "Magrelinha" no CD duplo Noites do norte ao vivo, lançado pela Universal Music em 2001]
Melodia – Demorou, hein, seu Caetano Veloso? [risos]
Almeida – Está registrado.
Melodia – Deixa registrado! [ri] Já falei que ele poderia cantar mais coisas minhas. O cara canta bem, gosta de mim e do meu trabalho. Já o conheço há um longo time, uma porrada de tempo. Mas, independentemente disso, sou muito amigo do Caetano.
Max Eluard  E o “Vamo comer”?
Melodia – Essa música é do Toni Costa. Não sei se o Caetano tem parte nela. [n.e. Composta com Toni Costa, integrou o LP Caetano, Polygram, 1987]
Max Eluard – E ele te chamou para gravar.
Melodia – Foi legal.
Tacioli – E rolou aquela história do vídeo. [n.e. Em um clipe produzido para o programa Fantástico, da TV Globo, além de Caetano Veloso, há um ator branco pintado de preto que dubla o trecho cantado, originalmente, por Melodia]

Max Eluard – Que é engraçadíssima. [ri]
Melodia – Puta. Tá sabendo da parada, né? Pintaram um cara.
Tacioli – E te anunciaram.
Melodia – Bom, isso eu não me lembro se anunciaram. Acho que não anunciaram, não. Mas tinha o áudio que era eu cantando. E quando rolava o áudio…
Tacioli – Surgia a figura.
Melodia – Vergonhoso, né, cara?!
Max Eluard – Esquisito.
Melodia – Muito esquisito.
Max Eluard – Não sei, a única justificativa que vejo para isso, é o fato de na capa do disco ter um cara, ao fundo, pintado de preto.
Sampaio – Não, não é um cara pintado de preto.
Max Eluard – É.
Almeida – É um negão.
Sampaio – É um negão.
Almeida – É.
Max Eluard – É? Não sei. Fiz essa associação porque achei que na capa tinha um cara pintado de preto…
Almeida – Ele está de perfil e tem um negrão atrás.
Melodia – Pintado.
Sampaio – Pintado?
Todos – Na capa?
Melodia – Não, na capa, não! Estou falando no vídeo.
Almeida – No vídeo, sim. É que na capa do disco tem um negão na praia.
Melodia – Mas isso não tem nada a ver. Isso é a capa do disco. Estou falando do clipe. Eu não entendi.
Almeida – Você não chegou a conversar com ele. “Ô, Caetano, era isso mesmo, um branco pintado de preto?”
Melodia – Compadre, não chego para conversar com o Caetano, porque morro de medo dele, sabia? [risos] Não sei em qual ele pode entrar. Não, não é comigo, não! Não é com medo de chegar. Comigo, não, porra! Sou do São Carlos, dá licença! [risos] Comigo, não! Ou se ele não soube disso. O cara pode nem saber, ou não está interessado. Ele nunca falou comigo sobre isso, não tem interesse. Eu não sei. Estou falando do que vi, do que alguém também deve ter visto, e não somente eu. Chato, feio, por fora. Só.
Tacioli – Luiz, você tem alguma bronca ou ressentimento com esses medalhões da música que acabaram sendo intitulados de MPB (Caetano, Chico, Gil)?
Melodia – Bronca?
Tacioli – Bronca não é a palavra, mas uma certa…
Melodia – Mágoa?
Tacioli – Não digo pessoalmente, mas pelo que eles representam dentro do mercado.
Melodia – Não é mágoa, mas para essas viagens fora do país, há uma seleção. Impressionante! E a música brasileira é maior que essa turma, porra! Essa coisa é meio “indignante” – será que essa palavra é certa? Deixa você indignado, até quem trabalha contigo, como empresário, porque ele sempre manda trabalhos, sempre está se comunicando com os caras lá fora, e nunca acontece. São sempre essas mesmas pessoas. Aí, fica meio estranho. Mas elas, essas pessoas…
Max Eluard – Não é pessoal?
Melodia – De jeito algum. São pessoas que mereceram pelo que fizeram, pô! Fizeram e fizeram bem pra caramba. Admiro-os, mas tem essa situação. Não é somente com esses medalhões, tem mais pessoas.
Max Eluard – Não é julgar a pessoa ou seu trabalho, mas o mecanismo que os elege para representar o país.
Melodia – Exatamente o mecanismo. Vou fazer um xixi.

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