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Entrevistas de música brasileira

Luiz Melodia

Luiz Melodia por Dafne Sampaio/Gafieiras

Luiz Melodia

parte 17/25

Estava apaixonado pelo Herman Hesse

Max Eluard  Compor e fazer música não é uma necessidade vital? O que eu quero dizer é que você faria música independentemente de quantas cópias você vendesse.
Melodia  Lógico, eu acho que sempre foi isso. Se não for nessa onda, fica estranho pra caralho. Mas, se tenho que subir lá e fazer uma música para poder integrar um LP daqui a 20 dias, isso é muito chato!
Tacioli  Mas já teve música de encomenda, não?
Melodia  Já. [ri] Isso já. Mas só fiz para a Gal Costa, velho. [ri] Sério, ela foi a única pessoa para quem compus de encomenda.
Almeida  Ela é a única que tem esse privilégio ou que tem essa intimidade?
Melodia  Deve ser tudo isso, porque nunca me liguei. Deve ser isso. Também nunca pensei “Pô, estou fazendo porque…” Sei lá, deve ser tudo isso. Por ela ter gravado a minha primeira música. Acho que é por tudo, por gostar da voz, por ser minha madrinha, umas besteiras assim.
Seabra  Você trabalha a composição ou ela vem pronta?
Melodia  Rapaz, quando você compõe ela já vem, de uma certa forma, pronta, sabia? Pronta, assim, você já tem um lance. Muitas vezes já acordei e estava em cima.
Max Eluard  Intuitivo.
Melodia  É.
Seabra  E a letra, também?
Melodia  É. Nunca tive dificuldade em escrever quando estou com o violão. Nunca tive. Mas quando estou só escrevendo, pintam mais barreiras, porque você fica pensando, “Pô, o que eu vou fazer aqui?” Mas quando estou com o violão, tudo ao mesmo tempo agora, é mais fácil, já sai normalmente. Pô, faço um sol maior. “Nan ri dum / tó tó / ih ru” “Ó meu amor…” Não é isso.
Max Eluard  Um acorde chama um verso…
Melodia  É, aí vai. Mas para escrever já rabisco. Inclusive, já fiz muitas letras que ela ali [aponta para a Jane] guarda. Às vezes, rasgo.
Tacioli  Existe alguma referência literária ou mesmo de um compositor que te estimule a escrever?
Melodia  De vez em quando acontece. Teve uma época em que eu estava tão apaixonado pelo Herman Hesse que, porra, toda hora eu…
Almeida  O que saiu dessa leva?
Melodia  [canta] “Dessa boba brincadeira, flor / Que o tempo só para acalmar / Muito tombo na ladeira, horror / Machuca, até faz chorar / Linda vista, baronesa / Musical do mar / Soa limpo com firmeza / A gente tenta escutar / Ah! Portugal, Bahia / Ah! Meu São Carlos / Fado é na ponta da língua, olelê / Samba é na ponta do pé”. Essa foi uma das. Lia o Hess e me inspirava. Pô, são tantas.
Tacioli  Muitos consideram surrealistas suas letras, pelo menos as de algumas épocas. Você concorda com esse tipo de classificação?
Melodia  Tudo bem, não me incomodo com isso, até porque não tenho outra maneira de escrever, velho. Escrevo assim. Não é afirmação, mas é assim. Desci o morro e os caras curtiram. Quando Wally Salomão viu, “Que interessante a maneira como ele escreve!” O surrealismo é uma maneira… Até o Hélio Oiticica. [ri] Mais surrealista que esse compadre, né? E ele falou, “Lindo, que coisa mais interessante!” Pô, não tenho outra maneira. Mas tenho vontade, gosto de escrever. Não gosto de ter um vínculo. Gosto de jogar as palavras sem metas ou com metas.

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