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Entrevistas de música brasileira

Luiz Melodia

Luiz Melodia por Dafne Sampaio/Gafieiras

Luiz Melodia

parte 16/25

Se eu não gravar um disco de samba, não sou do São Carlos

Tacioli  Luiz, você estava falando da sua relação com o sucesso e do medo. O que é um sucesso saudável?
Melodia  Saudável?
Tacioli  É.
Almeida  Boa ressalva. [risos]
Melodia  Sabe o que eu acho um sucesso saudável? É você fazer a sua música, ela ser veiculada em todas as cidades, para que as pessoas saibam do seu trabalho – o que você está escrevendo, independentemente de melodia. A sua letra, a sua mensagem. E ter uma vida sem frescuras. Sem, porra, ir a muita televisão, rádio. Toda hora estar ali, isso não curto muito, não! Quando em quando fazer algo e uns trabalhos como esse aqui, agora, “Vamos dar entrevista?” Pô, para a rapaziada ca-be-ça! [risos] É, compadre, sem um chato. De vez em quando tem umas pessoas que não sabem nada de mim. Nessas viagens que faço por aí, não sabem do que está acontecendo, ou nunca souberam. Aí, é muito chato. Mas é isso. Conforme o Dorival Caymmi tenta viver. Tran-qui-li-da-de! [risos] É, sem pressão.
Almeida  Luiz, o que você tem visto pelo Brasil, por meio de suas caminhadas?
Melodia  Muita música boa. Tenho uma quantidade de discos da rapaziada que não gravou, que não tem uma gravadora independente, posso dizer assim. E quando ouço em casa é um barato. Umas canções bacanas pra caramba.
Sampaio  Você compra muita coisa quando viaja?
Melodia  Mais ou menos. Tenho comprado muito disco africano que eu nem sei o nome. Chego na loja e “Quero esse”, “Quero aquele”. E Chet Baker [n.e. O trompetista e cantor americano Chesney Baker, 1929-1988], compro todos!
Max Eluard  O homem que tocava toda canção como se fosse a última?
Melodia  Chet Baker é fantástico! Compro sempre. Às vezes, até repito, compro uns que já tenho em casa. [ri] Mas o meu filho aproveita para samplear. Aí, você não sabe onde está, porque ele tira… [risos] Outro dia encontrei com o Jair Rodrigues, “Pô, não agüento aquele Jairzinho. Ele sampleia a porra dos meus discos.” [risos] “Pô, lá em casa é a mesma coisa!”
Max Eluard  Mas é legal ver a molecada fazendo isso.
Melodia  Acho.
Max Eluard  Subvertendo uma coisa que, de certa forma, era o que você fazia.
Melodia  Como é que é?
Max Eluard  Essa subversão do seu filho, do Jair Rodrigues, com a música que você leva para casa, ou mesmo com a sua música, de certa forma é a mesma transgressão que você cometia quando estava no morro e não se preocupava somente com o samba.
Melodia  Eu acho mais transgressor agora. Há uma facilidade tão imensa para você transgredir, porque está tudo na sua cara, velho. O seu pai tem uma grana para poder comprar… O Mahal compra as coisas, não importa se eu tenho… [risos] Outro dia, ele veio aqui – São Paulo – e quase me deu um derrame! [risos] Aquele negócio de… [esfrega a mesa como se estivesse fazendo um scratch]. Caraio, não-sei-quantos! E quando encontrei com o Jair, ele “Porra, o cara pegou os meus discos. Estava com umas aparelhagens que trouxe não-sei-de-onde [ri] e só metendo na porra do computador para samplear… EU!” [risos] O Jair Rodrigues estava injuriado, revoltado. “Porra, ele vai samplear EU!” “Lá em casa é a mesma coisa, compadre.”
Jane  Tem uma coisa engraçada. Ele sampleou esse pedaço de “Giros de sonho” [canta] “Você passa o tempo todo a sonhar”, aí ele colocou [entoa] “Mahal!” “Você passa o tempo todo a sonhar… Mahal!” [risos]
Melodia  E aí por diante.
Jane  Muito engraçado.
Max Eluard  Mas você entende essa música, essa criação de seu filho?
Melodia  Claro! Ouço rap desde quando o Mahal tinha 13 anos. Agora, com mais ferocidade, né? Mas dependendo da hora em que ele chegar… Por exemplo, se ele for a uma balada, como falam aqui em São Paulo, ele pode chegar às 6h30, 7 horas e meter a porra dos discos e [sonoriza os scratches] “Uaca, uaca”, alto pra caralho! Tem que ser anormal! [risos] Porra, tô dormindo! Ou acordar meio-dia e meter o som e tal. Bom, tem um negócio bem interessante, mas tem horas que é um saco, fica muito repetitivo. Acho que tudo é música, mas se você colocar, mesmo, Chet Baker o tempo todo acho que fica meio foda, né? Pára, volta. Isso direto, direto, compadre. Aí, ele vem e “Meu pai, o que você acha disso?” Porra! [risos] Mas, geralmente, gosto das fusões, que é mais a minha onda. Quando tem uns trompetes, uns metais, aí já conto 8/12. “É bonito, Mahal! Porra, legal!” “Eu sabia que você ia gostar, meu pai!” [risos] Mas tem umas coisas complicadas pra caralho. Mahal só ouve coisas… As coisas simples não estão na lista. Ele tem uns discos de mil fusões, compadre. É uma loucura! Nem sei o nome, mas eu curto, curto. [ri]
Max Eluard  Mas o seu trabalho também primou pela fusão.
Melodia  Quero fazer um disco agora com o Mahal. Já falei com o Mahal e com uma turma de rap lá do Rio, que eu gosto. Tem um grupo chamado Hermanos, que quero fazer um trabalho com eles, com o D2 [n.e. O vocalista da banda Planet Hemp, Marcelo D2], que eu gosto muito, acho interessante. Seu Jorge [n.e. Ex-vocalista do grupo Farofa Carioca, lançou seu primeiro CD, Samba esporte fino, em 2001, pela Regata Música] também. Uma rapaziada que é legal, que eu vejo que é da mesma tribo da minha quando eu era da idade deles.
Max Eluard  Mesma visão.
Melodia  Porra, mesma onda. Não tem jeito. O Mahal, nesse próximo disco meu. E um disco de samba, velho. Um disco de samba tenho que gravar. Se eu não gravar um disco de samba, não sou do São Carlos.
Max Eluard  Por que essa necessidade?
Melodia  Hein?
Almeida  Um disco com as músicas do Oswaldo, seu pai?
Melodia  Também do meu pai, minhas, de compositores do São Carlos e de outros lugares, da Cidade de Deus. Você havia falado o quê?
Max Eluard  Por que essa necessidade?
Melodia  Não é necessidade, não! Estou a fim, mesmo. Se fosse necessidade, eu estaria gravando amanhã. Mas não é necessidade. Vou fazer daqui a… Até quero que esqueçam para quando lembrarem, o disco… “Porra, o Melodia já gravou!” Aí, já está na fita.

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