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Entrevistas de música brasileira

Luiz Melodia

Luiz Melodia por Dafne Sampaio/Gafieiras

Luiz Melodia

parte 12/25

Em Jequié ninguém me enche o saco!

Max Eluard  O que a música significa para você, Luiz?
Melodia  Significa muito, embora eu não esteja compondo assim. Tô tão de saco cheio que não tenho composto. Mas tenho escrito, tenho mandado minhas… [ri] Nos dois últimos discos meus fui eu que escrevi tudo. Nunca fiz isso. “Vai, musique aí?” Geralmente, faço, vou escrevendo, pá!”
Almeida  Quem são esses parceiros?
Melodia  Perinho Santana. Nunca nenhum conhecido, porque não sei se os caras vão fazer. Eu mandei uma vez para o Caetano Veloso e não tive resposta. Aí, o Renato Piau musicou “Morena da novela” [n.e. Incluída no CD 14 quilates, de 1997]. Mas eu havia mandado essa letra para Caetano Veloso. Não mandou recado, não falou nada. Beijinho, beijinho, tchau, tchau! E tenho escrito com o Ricardo Augusto, que é um parceiro que eu gosto.
Almeida  Que é o baiano.
Melodia  Que é o baiano. Na verdade, são todos baianos, menos o Renato Piau. Mas a maioria dos compositores com quem ultimamente tenho composto é baiana. Já pensaram, inclusive, até que eu fosse baiano, mas não sou baiana. Baiana é a Jane, de Jequié.
Sampaio  Jequié?
Melodia  Conhece Jequié?
Sampaio  Conheço.
Melodia  Vou passar a Festa Junina lá. Estamos marcando de ir. Sempre vou pra lá. Acho o máximo. Ninguém me conhece, ninguém me enche o saco, é bom pra caralho! Ela já não curte. Cria de lá, né? O Wally Salomão é de lá. Ele e o Jorge, lógico, são irmãos. Cidade pequenininha, mas maravilhosa. Gosto pra caramba.
Tacioli  Mas essa relação nos grandes centros te incomoda?
Melodia  Ah! Incomoda. E outra: comentei um dia desses que tem horas que o sucesso é repugnante. Legal, sucesso, sucesso e tal. Mas, porra, gosto de uma vida simples, nasci e fui criado no morro, então… Gosto de entrar em um boteco, “Alô, compadre”, trocar uma idéia, jogar um futebol, enfim, de não ter pessoa me enchendo o saco.
Max Eluard  Tudo vira um evento.
Melodia  É, velho, aí não dá pra mim, não consigo, me dá agonia. Me dá muita agonia.
Almeida  Luiz, você vê alguma contradição nisso, do cara batalhar pra conseguir uma notoriedade, independentemente de sua origem, e quando isso rola, nego vem pedir autógrafo e, “Porra, mas que saco, estou andando aqui na calçada, quero ficar sozinho!”?
Melodia  Posso falar por mim? [risos]
Almeida  Aliás, porque de notório aqui só tem você. [risos]
Melodia  Às vezes, têm uns caras que estão interessados em fazer sucesso, de botar pra foder… A minha intenção é fazer o meu trabalho. Quando saquei que compunha, que eu fazia um trabalho legal e que as pessoas gostavam – como o Wally Salomão ficou tão encantado com o que eu escrevi –, falei “Que barato!” Então, quero mostrar o meu trabalho. Mas nunca pensei que fosse tão mesquinho, velho! E que pudesse, nesse tempo todo de música, me fazer quase parar com a música. Parar, parar de viajar, da mídia, ir embora. Fazer música, lógico, mas sem… Entendeu o que eu quis dizer? Sem estar ligado com a música. Várias vezes, essa coisa me deixou bem enojado.
Seabra  O que ou que situação te deixou enojado assim?
Melodia  Essa situação de “Você é maldito!”, uma coisa de 200 anos. E aí “Você é maldito ou não é?” Ou, de repente, você está à vontade com a sua mulher ou com amigos, os caras chegam “Alô, é o seguinte…” Eu me sinto sufocado, velho! Essas situações, essas relações me deixaram assim. E de você fazer um trabalho, que me parece digno, que muita gente está a fim de ouvir, e que não chega em suas casas. Isso porque a gravadora, simplesmente, não faz nada, velho! Você entra em um estúdio, grava – já gravei por várias gravadoras – e não acontece porra nenhuma! Aí, você que é um filho-da-puta. Essas besteiradas! Enquanto, que porra, componho, vamos trabalhar. Assinei contrato com a gravadora, faço o meu trabalho, compadre, e você, faça o seu, porra! Vamos chegar junto, como estou fazendo agora. Estive em várias gravadoras consideradas grandes, e não aconteceu nada, velho! Picas! E acho que gravei uns discos legais. E nada. O que é? Um hobby. “Vou trazer Luiz Melodia.” Um hobby! “Vou trazer Luiz Melodia para a minha gravadora!” Hobby! “Odeon.” Hobby. “Philips.” Hobby. Não, velho, enche o saco! Essas coisas começaram… E tem me deixado, porra, chateado.
Denise  Você quer mais alguma coisa, Luiz?
Melodia  Traga mais cerveja.

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