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Entrevistas de música brasileira

Luiz Melodia

Luiz Melodia por Dafne Sampaio/Gafieiras

Luiz Melodia

parte 11/25

Que porra de maldito é essa?

Tacioli  Luiz, como foi o processo para se chegar ao seu primeiro LP?
Melodia  Foi natural, porque eu já tinha tantas composições, que o Guilherme Araújo – na época, o meu empresário, ou que ficou sendo o meu empresário – falou o seguinte para o Menescal, “Vamos gravar um disco com o menino”. Entramos no estúdio, convidei o Perinho Albuquerque, que na época fazia arranjos para Maria Bethânia, por sinal, muito bons. Mostrei as minhas pequenas harmonias, pobres, mas originais. Perinho Albuquerque fez umas mudanças nesse disco. A maioria das harmonias foram alteradas. E me dei bem, porque gostei pra caramba do disco, embora não aceitando. Não falei pra ninguém que eu queria muito participar do disco, mas quando você está começando, você fica meio “Porra!”.
Tacioli  Participar que você fala é ter voz ativa?
Melodia  Participar, tocar. Não tinha… De repente, um falava aqui, outro ali, e quando comecei a ver, “Não! Pô, fudeu!” [risos] Um começou a se meter, outro também. E que tem o lance do maldito. “Ó, dessas coisas não tô a fim, não!” Aí, foi que começou a implicância. “Mas não tô a fim de fazer isso!” Com o Sérgio Sampaio a mesma coisa. Virou uma briga.
Almeida  Luiz, você nunca pensou assim: “Tô aqui no meio desse povo todo, numa gravadora, e aqui está a minha subsistência. Se eu for deixado de lado, posso ser prejudicado”. A forma como você pensava artisticamente poderia lhe tirar desse meio?
Melodia  Quando essa coisa começou foi muito louco pra mim, mas eu tinha uma segurança tão forte diante do que eu fazia – e do que faço –, que isso não me assustou. Caso contrário, eu poderia ter saído da música há muito tempo, bem mais rápido do que entrei. As pessoas que estavam ao meu lado, e que sempre estiveram – Wally Salomão, Hélio Oiticica ,– falavam do meu trabalho, e isso me fortificou. As pessoas gravavam também. Bethânia. Isso fortificou. “Vou ficar tranquilo!” Mas, mesmo depois disso, até hoje é “E maldito?”É uma coisa que repete. “Ai, meu Deus!”. “Por que você é maldito?” Já cansei de falar, repetir a mesma coisa da época, mas mesmo assim é uma insistência. Na época, era bonitinho, lindo, “Pô, maldito!”, mas depois as pessoas ficam perguntando. Um dia desses li no jornal o cara dizer que “eu nego ser maldito”. Não é que eu negue, nem tenho nenhuma preocupação com isso, velho!

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Itamar Assumpção

Max Eluard  Não foi você quem deu esse rótulo, veio de fora.
Melodia  Pois é, dos jornais que falavam na época. E o cara achando que eu nego. Aí repete essa coisa de novo. E tem uma garotada que não sabe o que está acontecendo. “Que porra de maldito é essa?” Embora essa juventude nunca tenha me perguntado.
Max Eluard  O que você acha dessa história de maldito?
Melodia  Não sei. O que você acha dessa história de maldito? [pergunta à Jane] [risos] Tenho que perguntar às pessoas.
Jane  O que eu acho do quê?
Melodia  Dessa história de maldito.
Jane  [ri] É um rótulo.
Sampaio  Lembro-me de uma música do Itamar Assumpção que falava que as pessoas achavam que ele era você, os dois malditos…
Melodia  Mas essa coisa continua, 200 anos… É uma besteira!
Max Eluard  O Itamar tem uma saída para isso, que fala “Eu sou maldito? Maldito é o Hitler, o Bush!”
Melodia  Eu não tenho nenhuma saída.
Sampaio  Mas você acha que te consideram maldito, ainda?
Melodia  Eu sou maldito. Sou cria do Morro do São Carlos. Não reparem nisso, não! Cria do Morro do São Carlos. Já antes de fazer música, antes de tudo, todos os quilombos já eram malditos. Então, pronto! Só que faço música. Acho que faço músicas legais.

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