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Entrevistas de música brasileira

Luís Vagner

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Luís Vagner

parte 7/23

O Franco agora é um boss, rei dos ditos KLB e Zezé Di Camargo & Luciano

Monteiro – Mas quando você chegou com os Brasas em São Paulo, você caiu no show business da época. E aí?
Luis Vagner – Foi uma beleza! [risos] Para você ter uma idéia, nós chegamos, fomos contratados e no primeiro dia tocamos uma música muito bonita. No domingo, o cara falou “Durante o comercial vocês fazem ”danran danran danran””. Daí eu fiz, “danran danran danran daann / pa ti bu du blá blu”. Era o comercial, tudo ao vivo. Não teve comercial! Nós tocamos cinco minutos sem parar! O diretor ficou bravo, todo mundo ficou nervoso, aquele inferno! “Ué, não entendemos direito a mensagem!” Logo depois que gravamos o disco, o cara falou “Tem que caitituar!” Fomos trabalhar o disco depois de um ano. A gente não sabia que havia um processo, que tinha que ir nas rádios. Não sabíamos mesmo! A gente era bastante fora. A primeira vez que nós fomos fazer oPrograma do Chacrinha, chegamos ao aeroporto às três horas da tarde, para estar lá às sete, oito da noite, e encontramos com a turma quando eles estavam voltando. Ficamos sentados no mesmo lugar. Colocamos os instrumentos e ficamos ali, até onze e meia da noite.
Almeida – Você não foram ao Programa?
Luis Vagner – Não, não fomos! [risos] Ficamos sentados ali. Ninguém veio falar com a gente e não fomos falar com ninguém também! [risos] Sei lá como é que é isso! Até entender… Éramos fora mesmo! O Franco agora é um boss, rei dos ditos KLB, Zezé Di Camargo & Luciano. Ele foi quem lançou toda essa rapaziada. Falando disso agora, lembrei-me que a primeira vez a gente nem sabia como é que se pegava um avião. E hoje o cara está com um avião particular. “Que bacana, hein! Progrediu! Já é piloto?” [risos] “Acho que agora vou para o programa. O meu amigo me leva!” [risos] Mas era mais ou menos assim, a gente não entendia. Tínhamos um empresário que deixava a gente em casa. Íamos para a televisão, tocávamos na rua Augusta. 1966. Era rock and roll a noite toda. Eu já compunha, fazia umas músicas diferentes, mas aquele era o som, o momento. O Jorge Ben ia para lá toda noite, o pessoal da Jovem Guarda ia nos ver.
Luiz Paulo Lima – Onde?
Luis Vagner – Boate Saloon, na rua Augusta. [canta e faz percussão no corpo do violão] “Desci a rua Augusta a 120 por hora.” Era twist, era uma onda, juventude era isso, era efervescente, tinha um lance lindo. E tinha uma pureza também.
Tacioli – Que músicas você destaca dessa época, Luis?
Luis Vagner – Eu cantava uma versão do Tom Gomes. Era um sucesso. [toca a abertura e canta] “Gata / Gatinha louca / Estou biruta / Gata”. Essa aí era uma. A gente fez sucesso com uma música [toca a introdução dedilhada]… Aí quem cantava era o Franco e o Anydes [canta com voz fina] “Ai que bom se eu tivesse / você juntinho a mim”. Cantava tudo com uma voz de grupo inglês, voz muito alta, e eu só fazia voz baixa, de negão, já era rouco. Estouramos com essa música. Ficamos em segundo lugar no Brasil inteiro, e a gente não sabia, não tinha noção, honestamente. Queríamos tocar. Morávamos em um apartamento na rua Aurora, com umas dezesseis mulheres por perto: mãe, tia, avó, amante. Não tinha importância, a gente queria ir para as bocas tocar com os músicos da época que se encontravam. Ligar a guitarra, tocar, viajar e aprender. Eu, por exemplo, nunca consegui cruzar com o Lulu Santos, com o Herbert Vianna, com esses. Nunca consegui chegar perto. Não sei qual é a ligação. Naquela época, com os guitarristas a gente conseguia. Hoje a gente não consegue, existe uma distância. É o sucesso, né? Faz sucesso, vive lá, não vai tocar na boquinha com o outro. Mas nos planetas os caras vão, a negadinha do sofrimento se encontra. Aí vai tocar com o The Waillers, com a banda do B. B. King quando ela abre para uma canja. Aí toca. Tá bom! Trocar, esse é o ponto! Digo porque vivi em uma época em que a gente cruzava com os músicos, um época em que todos se encontravam, “Vamos tocar aquela”, sabe? Hoje é difícil. A pessoa que evoluiu compreende que é fundamental o contato, a oportunidade de dialogar, de se relacionar e aprender com todo mundo, um com os outros, o tempo todo, né? Esse é o maior business que a gente pode levar da nossa passagem pela Terra, o resto é… não sei, fica aí.

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