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Entrevistas de música brasileira

Luís Vagner

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Luís Vagner

parte 6/23

O Bola Sete influenciou o Carlos Santana

Monteiro – Luis, inegavelmente, os Beatles são os responsáveis por essa evolução na música pop, mas, por outro lado, a profissionalizou. E no começo da nossa conversa você disse que a busca dos Jetsons para se tirar músicas era muito intuitiva. Hoje, um menino não começa tirando um som intuitivamente, ele tem noção de onde quer chegar. Um músico atual já tem uma visão menos mágica da música, com raríssimas exceções. Enfim, você acha que essa profissionalização atrapalhou?
Luis Vagner – São duas coisas que eu enxergo. Eu acredito, em primeiro lugar, na evolução do artista como ser humano para se ter uma grande evolução interior, para que ele possa realmente chegar às pessoas e cumprir uma missão. Hoje em dia o papel do artista está muito em torno de vender discos, de ser sucesso, mas em outras épocas não era assim. Na realidade, isso é uma conseqüência desse business total que você está falando. Pela evolução dos tempos, é natural que as pessoas tenham a oportunidade de estudar e evoluir e tal. Mas, para mim, o ponto principal é o desenvolvimento de si perante isso. Porque você consegue aprender com muitos músicos o tempo inteiro, se você tem essa oportunidade de convívio e de troca de energia humana. Aí, para mim, é que está o grande barato. A síntese disso tudo está na relação. Por exemplo, tive como ídolo da guitarra brasileira o Mão de Vaca, conheci Nilton Baraldo, do Rio Grande do Sul, Olmir Stocker. Eu pegava um acorde, mas era muita técnica e eu não conseguia entender aquela coisa. Mas havia um chamado Bola Sete. Passei a vida inteira procurando as coisas do Bola Sete. Não consegui vê-lo nos lugares; vi pouco. Sabe com quem eu tive a oportunidade de ver o Bola Sete tocando? Foi com o Carlos Santana. Foi na aula do Carlos Santana. O Bola Sete foi um guitarrista que influenciou o Santana, um músico de tendências roqueiras, mas também com tendências rítmicas da falange de sua terra, México, Porto Rico. Enfim, ele foi influenciado porque sentiu o que era a magnitude e a autenticidade do Bola Sete como músico brasileiro. Ele teve que ir embora do Brasil, onde estava à margem, para se tornar um grande artista, um guitarrista mundialmente reconhecido. No discoSwingante eu presto uma homenagem a ele, particularmente na música “Saudade do Jackson do Pandeiro”. O Carlos Santana, que é um dos grandes heróis mundiais da guitarra, foi o único guitarrista que falou do Bola Sete. Sempre ouvimos falar dos mesmos: Hendrix, Eric Clapton, B. B. King. Mas um brasileiro como exemplo mundial? O primeiro foi o Bola Sete. Isso é muito bonito! Então, quando temos a oportunidade de nos embrenhar no porquê se faz música, onde se quer chegar, qual o seu interesse em tocar para as pessoas, em fazer com que elas sintam algo diferente no momento em que você toca, você faz um entrelaçamento humano, espiritual. Esse é o ponto um do artista para mim. O resto pode ser o que for, vender discos, não-sei-o-quê. Aí entra um processo que eu respeito, mas não entendo a música ou o trabalho de um artista por esse lado. O que me toca mesmo é algo mais profundo. É a oportunidade que eu tenho de cruzar com vocês, de dar um alô aos amigos, algo que possa ficar, que qualquer ser humano sinta que você deu o melhor de si para fortificar uma amizade, um convívio. Esse é o ponto. Certo? [silêncio]

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