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Entrevistas de música brasileira

Luís Vagner

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Luís Vagner

parte 5/23

Eu gostava muito do Luizinho e seus Dinamites

Monteiro – Vamos voltar aos Jetsons.
Luis Vagner – Tá.
Monteiro – Jetsons era o comecinho e puro rock and roll. Em que momento você percebeu que “Mas a minha música não é o que o Bill Halley faz. Ela é mais do que isso!”? Quando você acordou para isso?
Luis Vagner – Desde o começo. Sempre pensei nisso, porque quando peguei esse violão, eu já toquei um samba-rock, mesmo. Não foi a cópia do rock and roll, como você vê nos grupos. Cópia da idéia, cópia dos timbres, cópia de tudo, entendeu? Sempre procurei fazer uma música acoplando a informação planetária – que é necessária – com a minha naturalidade, a minha autenticidade como músico, como artista, a minha letra vivida. Foi daí, do meu próprio sentimento, que fui extraindo essas coisas que penso que sejam comuns a todos, ao mesmo tempo, em que posso oferecer uma visão dessas experiências.
Monteiro – Naquela época você já compunha?
Luis Vagner – Desde muito cedo que eu componho. Eu já compunha nos Jetsons, mas uma música instrumental.
Luiz Paulo Lima – Os The Jetsons.
Luis Vagner – Os The Jetsons! [risos] Os The Jetsons, esse é o detalhe! [risos] “Eu sou do Os The Jetsons!” [risos]
Almeida – E você tem registros sonoros dessa época?
Luis Vagner – Sonoro eu não tenho.
Tacioli – Você pode pegar o violão?
Luis Vagner – Posso. [toca uma seqüência de acordes] A primeira música que fiz para o violão foi assim. [toca] Aí fiquei fazendo assim. Acho que quando errei a mão, deu o efeito que eu queria. Não tinha aula, não tinha nada, era tudo no amor à… [toca] Tá vendo? [canta “Lucille”, sucesso de Little Richard] Não existia técnica alguma. E a letra em inglês é minha! [risos] [canta trecho de “Good Golly Miss Moly”, hit de Little Richard em 1957] Na época eu dizia [canta] “Um gole, Miss Moly”, do seu café, qualquer coisa, cara! Inglês, nada! Nessa época dos Jetsons, a gente já tocava umas músicas como “Blue star” e músicas instrumentais. Depois começamos a misturar coisas. Tocava… [toca] “La Violetera”. Não queria nem saber do que se tratava. Tudo instrumental, porque naquela época acho que não existia microfone de canto. Os Jetsons foram muito importante por isso, pelo lado das duas guitarras, do baixo e da batera, que começou a me dar uma visão diferente, ouvindo os Ventures, dos Shadows; no Brasil, Jet Blacks, The Jordans, Clevers, Incríveis. Existia um grupo de rock and roll do Rio de Janeiro que eu gostava muito chamado Luizinho e seus Dinamites, vocês conhecem? Luizinho e seus Dinamites! [canta] “Esse choque me queima / faça-me o favor de desligar”, “qué qué qué”, umas guitarras assim… [canta] “Quando a invernada de Olaria vier”. Eu gostava daquilo porque eles me falavam de coisas do Rio. “Pô, essa invernada de Olaria deve ser um negócio legal!”. Ia me despertando. Quando esses guris do Ultraje a Rigor fizeram [canta] “Vamos invadir a sua praia” eu gostei bastante. Gostei desse tipo de rebeldia e desse ímpeto bacana na atitude. “Vou invadir a sua praia”. E “Quando a invernada chegar”… Devia ser um arrastão da época. [risos]
Luiz Paulo Lima – Desculpem-me, mas tem um detalhe legal: você mandou fazer a primeira guitarra porque não havia para venda, né?
Luis Vagner – Não, não havia. A primeira guitarra que mandei fazer foi com o Adão, da Milsons. Isso já foi detalhado nos livros de lá. Demorei uns quatro meses para ter essa primeira guitarra. Ia todos os dias na loja, caminhava muito, umas duas horas. Ia lá, via o Adão fazer um traste e voltava. Todos os dias, durante uns quatro meses. Fiquei com essa loucura. A guitarra está na capa desse último disco, numa foto dentro. Ela tinha um sonzinho interessante, mas pesava tanto! E o aparelho da Milsons era assim: no baile, a gente o colocava ali, e conforme o volume ia aumentando, ele vinha pulando e ficava aqui. [risos] Era assim, cara! Jetsons. Isso era 62, 63, 64.
Tacioli – Que expectativas vocês tinham nessa época com a formação de uma banda? O que vocês esperavam que pudesse acontecer?
Luis Vagner – Na verdade, depois disso pintaram os Beatles e aí começamos a desenvolver o vocal. Gostei muito dos Beatles. Tive a oportunidade de aprender muito com eles, pela mente evolutiva deles como músicos, compositores – principalmente o Paul e o John. Uma evolução muito grande, de “She loves you”, “I wanna hold your hand”, até chegar em “Michelle”, Sgt. Peppers, Revolver. Fazíamos aqueles covers e aprendíamos, “Puxa, que interessante, o cara compõe assim, compõe assado!”. Beatles deram esse avanço ao mundo moderno. Foi quando eu escrevi o “Guitarreiro”, [recita] “Naquele tempo eu gostava dos Beatles, tinha os negos veio que eu gostava muito mais”, uma expressão de saudade, e de algo profundo que eles fizeram a gente entender. O que eu esperava era a oportunidade de vir tocar em São Paulo. Quando o Renato e seus Blue Caps foram para Porto Alegre – um conjunto de que eu gostava -, vi o Roberto Carlos. Aliás, com os Jetsons, toquei guitarra em pé, guitarra deitado, guitarra com ferrinho, guitarra sem ferrinho, de tudo quanto é jeito, porque o Roberto Carlos não chegava ao show, no ginásio do Corinthians [n.e. Ginásio Corinthians Atlético Clube], em Santa Maria. Depois, o Roberto chegou com um trio. Vi o trio tocar e falei “Vou para São Paulo! Ele é o Rei! Então, posso ir!”. [risos] É verdade, assim que eu senti naquele momento. “Rei Roberto!” Inclusive, até nesse dia, nós saímos juntos e sofremos um pequeno acidente numa Kombi. Isso lá por 62, 63, acho que até era 64, ele já estava no calhambeque. [n.e. Referência à música “Calhambeque”, sucesso de Roberto Carlos] Em 66, viemos para São Paulo. A vontade era vir para cá, galgar algum caminho e conhecer a turma. Tínhamos uma grande ilusão de ter uma condição de vida melhor. Mas nós, já como Os Brasas, tivemos muita boa sorte, quando chegamos. Em um mês fomos contratados pela Rede Excelsior, na época de televisão, para acompanhar os cantores. Enfim, ser um grupo de lá. O primeiro dia que a gente tocou foi em um show no Ginásio do Corinthians. Apresentamo-nos e fiquei muito feliz, porque o Gato – guitarrista do Jet Blacks, um ídolo meu – estava lá, como o Aladim, e todos os guitarristas. Aliás, todos os guitarristas eram meus ídolos, porque eu só sabia deles, já que aprendi sozinho ouvindo discos. Toquei uma música, “Blue dog”, dos Jet Blacks, e quando terminei, o Gato perguntou para mim qual a caixa de eco que eu usava. Eu não usava nenhuma! Vocês imaginem, quando eu tirava o som do disco, eu tirava o eco do disco também, tirava tudo! [risos] Desenvolvia uma outra técnica.
Cirino – Que nem ele mesmo tinha.
Luis Vagner – Não, não, “Que caixa de eco é essa em que tudo está com a repetição certinha?!” Não sabia nem o que era caixa de eco. “Caixa de eco?” [risos]

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